Segunda-feira, 21 de agosto de 2017

ISSN 1983-392X

ABC do CDC

por Rizzatto Nunes

O planeta está sendo consumido

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

No dia 2 de agosto p.p., os seres humanos consumiram o total de recursos que o planeta terra pode renovar em um ano. O cálculo é feito anualmente pela ONG Global Footprint Network1. No ano passado este fatídico dia chegou 24 horas depois, em 3 agosto. O diagnóstico é feito pelo exame das emissões de gases do efeito estufa e também pelos recursos consumidos pela pesca, pela pecuária, pelos cultivos, pelas construções e pela utilização da água.

Para satisfazer nossas necessidades, hoje deveríamos contar com o equivalente a 1,7 planeta, declararam os representantes da ONG2.

Sem consultar dados, eu gostaria de complementar os cálculos, lembrando que o consumo no planeta é desequilibrado. Se a forma de consumo dos países desenvolvidos se estendesse a todos os cantos da terra, certamente, a devastação seria muito maior. Isto é, mesmo com um índice de consumo muito menor em países emergentes, o planeta está sendo destruído.

Muito bem. O que se diz é que o modelo capitalista implementado especialmente a partir da segunda metade do século XX e que se tornou devastador mais ao final é o responsável: a chamada vida para o consumo contribuiu e contribui sobremaneira para essa destruição. E para que nós possamos ter uma ideia do que foi a implementação desse modelo, eu vou me utilizar de um texto que é bem conhecido, mas que permite que nós possamos entender como esse consumo do planeta foi sendo efetivado.

Houve um momento no século passado no qual ainda tínhamos esperança de que o planeta pudesse ser preservado. Foram anos em que:

a) O leite, as cervejas, os refrigerantes eram vendidos em garrafas de vidro. Essas garrafas eram devolvidas às lojas. Estas as mandavam de volta aos fabricantes, que as lavavam e esterilizavam antes de cada reuso. Essas garrafas eram assim usadas várias vezes para a mesma finalidade: transportar líquidos. Ainda não se usavam garrafas plásticas que demoram séculos para serem degradadas;

b) As fraldas dos bebês eram lavadas, pois ainda não havia fraldas descartáveis;

c) A secagem das roupas era feita em varais unicamente com energia solar e eólica e não em máquinas secadoras elétricas;

d) Por falar em roupas, os filhos menores usavam as roupas que tinham sido de seus irmãos mais velhos, e não tinham necessidade de adquirir roupas novas a toda hora;

e) E por falar em energia elétrica, naquela época as pessoas possuíam apenas um aparelho de tevê em casa, e não um em cada ambiente do lar; alguns tem até na cozinha!;

f) Aliás, eram tevês de 14 ou 20 polegadas e não equipamentos do tamanho de uma tela de cinema... e que são descartadas e trocadas por novos com telas planas, finas, etc. a cada 3 ou 4 anos...;

g) Naquela época, havia só uma tomada em cada quarto, e não um quadro de tomadas em cada parede para alimentar uma dúzia de aparelhos;

h) E, na cozinha, as pessoas faziam muitas atividades físicas, cortando, lavando, espremendo, pois ainda não havia máquinas de lavar pratos e demais utensílios, batedeiras e trituradeiras elétricas de tudo quanto é tipo;

i) E quando se fosse enviar algo frágil pelo correio, usavam-se jornais velhos como proteção, e não plástico bolha ou pellets de plástico que também não se degradam rapidamente;

j) Não havia tantas escadas rolantes. As pessoas subiam mais escadas. E também andavam mais a pé e não utilizavam automóveis apenas para ir à padaria da esquina.

k) E por falar em automóvel e localização, as pessoas não precisavam do serviço do GPS para receber sinais de satélite no espaço e conseguir encontrar a pizzaria mais próxima.

l) Naqueles tempos, não se usava motor a gasolina para cortar o gramado: era utilizado um cortador de grama que exigia músculos. O exercício era extraordinário, e não se precisava ir a uma academia para se exercitar usando esteiras elétricas;

E, claro, um longo etc. de desperdícios.

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1 Retirei os dados do UOL.

2 Idem nota anterior.

Era do Consumo
Rizzatto Nunes

Rizzatto Nunes é desembargador aposentado do TJ/SP, escritor e professor de Direito do Consumidor.