Quinta-feira, 25 de maio de 2017

ISSN 1983-392X

Apito Legal

por Roberto Benevides

Maracanã coroa os novos reis do futebol

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O Brasil esperou 24 anos para conquistar o tetracampeonato em 1994, na decisão por pênaltis com a Itália.

A Itália esperou 24 anos para conquistar o tetracampeonato em 2006, na decisão por pênaltis com a França.

A Alemanha esperou 24 anos para conquistar o tetracampeonato em 2014 e estava a sete minutos da decisão por pênaltis com a Argentina, mas o feitiço contra os tricampeões do mundo foi desfeito por um golaço de Mario Gotze, que entrara no jogo meia hora antes.

Primeiro jogador nascido na Alemanha unificada a vestir a camisa da seleção, o garoto de 22 anos, completados em 3 de junho, foi um dos sete jogadores do Bayern escalados por Joachim Low para arrebatar ao Brasil, talvez não em definitivo, mas certamente por um bom tempo, o título de país do futebol.

Não há em todo o mundo da bola nenhum outro país jogando hoje o futebol redondinho, organizado tanto quanto criativo, e incansável que os alemães vêm mostrando com a seleção e seus principais times.

E não se viu nesta Copa do Mundo nenhuma seleção que se comparasse à alemã na busca incessante da vitória sem perder jamais a consciência de que correr riscos, muitas vezes necessários, não implica em desorganização tática. A Alemanha sabe se defender, mas não abre mão de atacar. Diferentemente da Holanda, outra equipe que se destacou nos campos brasileiros, não depende exclusivamente dos contra-ataques e da inspiração solitária de um grande craque.

Se ao seu futebol coletivo e fluente acrescentasse o encanto eventual do drible, esta Alemanha tetracampeã do mundo seria um time inesquecível.

Talvez lhe falte um fora-de-série, como Messi ou Neymar, ou pelo menos um atacante esfuziante como Robben, outro destaque do Bayern, mas não lhe falta criatividade na exploração dos caminhos que levam a bola da área em que Neuer é soberano àquela em que o craque Muller, o eterno Klose, o jovem Gotze ou o incansável Schurrle fuzilarão o goleiro adversário.

Vale comparar: a Alemanha de todos eles e mais Lahm, Boateng, Howedes, Hummels, Schweinsteiger, Ozil, Kroos venceu cinco jogos no tempo normal, dois na prorrogação, marcou 18 gols (sete no Brasil!!!!!!!!!!) e sofreu apenas quatro; a Argentina de Messi marcou oito gols, seis deles na primeira fase, e jogou 450 minutos das oitavas até a final deste domingo, dia 13, para marcar os outros dois. Na semifinal com a Holanda, depois de 120 minutos em branco, ganhou na decisão por pênaltis.

A Copa que craques de todo o mundo têm festejado como a melhor de todos os tempos não poderia ter outro campeão. Os alemães são os novos reis do futebol, consagrados por mais de 70 mil súditos nas dependências reais do Maracanã.

Que vergonha, gente!

É verdade: o árbitro argelino Djamel Haimuidi presenteou os holandeses, aos dois minutos de jogo, ao transformar em pênalti a falta cometida por Thiago Silva em Robben fora da área.

É verdade: De Guzmán estava impedido ao receber a bola de Robben e cruzar para David Luiz dar uma preciosa assistência que Blind agradeceu para fazer 2 a 0 aos 16 minutos.

É verdade: aos 34 minutos, o cegueta argelino também não viu o agarrão de Vlaar em David Luiz dentro da área e, portanto, roubou ao Brasil a chance de fazer 1 a 2. E, aos 20 do segundo tempo, não viu o zagueiro holandês usar o braço para cortar uma bola na área.

É igualmente verdade que o quarto lugar em 2014 é uma posição melhor do que o Brasil alcançou nas Copas de 1966 (com Pelé, Garrincha, Gerson, Tostão e Jairzinho, entre outros, no grupo), 1982 (com Edinho, Junior, Falcão, Zico e Sócrates), 1986 (com Edinho, Junior, Sócrates, Zico, Careca, Muller e Casagrande), 1990 (com Taffarel, Jorginho, Ricardo Rocha, Ricardo Gomes, Dunga, Muller, Careca e Romário), 2006 (com Cafu, Roberto Carlos, Juninho Pernambucano, Robinho, Ricardinho, Ronaldinho Gaúcho, Fred e Ronaldo) e 2010 (com Julio Cesar, Daniel Alves, Maicon, Ramires, Kaká, Luís Fabiano e Robinho). E é a mesma colocação alcançada pelo Brasil de Leão, Carpegiani, Rivellino, Paulo César Caju e Jairzinho na Copa de 1974.

Nenhuma destas verdades apaga, porém, a vergonha de termos perdido em casa por 3 a 0 para a Holanda no sábado, 12, oito dias depois de sermos goleados por 7 a 1 pela Alemanha. Vergonha maior o futebol brasileiro jamais viveu. Nem igual. É a pura verdade.

Mistério

Acaba a Copa do Mundo, ficará a dúvida: onde ficou o futebol instigante e intenso da Seleção na Copa das Confederações? Como aquele Brasil compacto, organizado e insistente no ataque virou este bando dividido em linhas estanques, nervoso e cheio de pressa para se livrar da bola, como vimos em tantos momentos dos cinco primeiros jogos e quase sempre no duplo vexame diante da Alemanha e da Holanda?

Por que diabos a Seleção não conseguiu resgatar aquele futebol de um ano atrás que nos deu, mais do que a esperança, a convicção de que éramos favoritos ao título mundial, mesmo sabendo que a Alemanha viria ao Brasil com um time tecnicamente superior a todos os adversários?

Certidão

Depois da derrota por 3 a 0 para a Holanda, Luiz Felipe Scolari voltou a invocar o argumento de que a equipe brasileira "é muito jovem" para justificar os vexames sofridos na reta final da Copa.

Errou mais uma vez. A média de idade da Alemanha que goleou o Brasil por 7 a 1 é de 27,7 anos se considerarmos apenas os 11 titulares, ou de 27,10 se contarmos os 14 jogadores usados por Joachim Low em toda a partida. Média brasileira: dos 11 que começaram a partida, 28,25 anos; dos 14 usados por Felipão, 27,83.

Contra os holandeses, o time do Brasil envelheceu um pouco, entrando em campo com 28,47 anos de idade na média, que aumenta para 28,52 quando consideramos os 14 jogadores que atuaram na partida. A Holanda titular de Louis Van Gaal tinha média de 26,59 anos. Esta, sim, é uma equipe jovem. E contando os três que entraram no final, a idade média quase não se altera – 26,47.

Que surpresa, gente!

Mais surpreendente do que a ausência dos jogadores brasileiros na solenidade de entrega das medalhas aos holandeses pela conquista do terceiro lugar na Copa, embora menos vexaminosa, foi a de José Maria Marin.

O presidente da CBF, como se sabe, adora uma medalha!

O que fazer?

São tantas as análises, os meros palpites, as boas e más intenções, os interesses dissimulados ou ostensivos publicados nos últimos dias sobre o que fazer com o futebol brasileiro nos próximos tempos que mal consigo digeri-los e processá-los.

Esta é uma discussão e uma tarefa de todos os brasileiros que se interessam pelo futebol. Foi a sociedade que o criou e tantas vezes o reinventou pelos campos do Brasil afora. É, portanto, a nação que pode salvá-lo mais uma vez – e não cartolas ou os governantes.

Agora que se deu a tragédia, poupo você de mais pitacos neste Apito Legal.

De qualquer maneira, se quiser ler uma palhinha do que penso sobre o assunto, dê uma olhadinha na coluna "A Copa do Mundo é nossa. E daí?", publicada em 14 de abril. Para lê-la, clique aqui. Se lhe sobrar paciência, clique aqui para ler também a última coluna escrita em 2010 – "A Copa do Mundo é nossa".

Campeã

Viva a torcida brasileira!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Estrelas

Cristiano Ronaldo chegou, viu a festa, brilhou fugazmente nos 2 a 1 sobre Gana que marcaram a despedida dos portugueses e se foi, deixando a confirmação de que o prêmio de melhor jogador do mundo na temporada é mesmo uma maldição na Copa do Mundo.

Neymar brilhou intensamente nos primeiros jogos, foi baleado pela violência dos chilenos nas oitavas de final, abatido em campo pela deslealdade do colombiano Zuniga nas quartas e teve de assistir em casa à tragédia do Mineirão e no banco de reservas do Mané Garrincha ao último suspiro do Brasil na Copa.

Messi carregou a Argentina até a final, com seus gols e assistências, mais sai de sua terceira Copa do Mundo consecutiva devendo uma exibição à altura do talento que esbanja com a camisa do Barcelona, embora leve consigo o troféu oficial de melhor jogador da competição que, por Justiça, deveria ser do holandês Arjen Robben.

A seleção da Copa

Aos olhos deste Apito Legal, a seleção da Copa ficaria assim: Manuel Neuer (Alemanha); Philipp Lahm (Alemanha), Thiago Silva (Brasil), Mats Hummels (Alemanha) e Daley Blind (Holanda); Javier Mascherano (Argentina), Toni Kroos (Alemanha) e Lionel Messi (Argentina); Arjen Robben (Holanda), Thomas Muller (Alemanha) e Neymar (Brasil).

No banco, como comandante de tantos craques, o alemão Joachim Low.

Aos desavisados

Juro que era ironia o que escrevi na nota "Coincidência?" da coluna de 7 de julho: "Já o delicado Juan Zuniga, que chutou violentamente o joelho de Hulk no fim do primeiro tempo e quase aleijou Neymar no fim do segundo, pode até ganhar o Troféu Fair Play da FIFA. Nenhuma das duas faltas foi marcada e ele voltou para a Colômbia sem um amarelinho sequer".

Mas não é que, na festa de encerramento da Copa, a FIFA deu mesmo o Troféu Fair Play à seleção da Colômbia? Entre os critérios do Grupo de Estudos Técnicos da FIFA para premiar os colombianos, destacam-se "jogo positivo e respeito ao adversário".

Você leu certo: "respeito ao adversário"!

Ranking

Enquanto não é atualizado pelos resultados da Copa, está assim o ranking da FIFA: Alemanha (2º), Argentina (5º), Holanda (15º) e Brasil (3º).

Igualzinho ao Zagallo

Em dias de tantos números desoladores para o futebol brasileiro, convém lembrar: o tetracampeonato da Alemanha consagra o melhor futebol do mundo na atualidade, mas apenas iguala o desempenho histórico de sua seleção ao do nosso Mário Jorge Lobo Zagallo, campeão das Copas de 1958 e 1962 como jogador, de 1970 como técnico e de 1994 como coordenador técnico.

Fé e pé na bola

Os muitos jogadores brasileiros, alguns até craques, que adoram se benzer e rezar dentro do campo, e não apenas na Copa do Mundo, deveriam meditar sobre a neutralidade divina agora que a Alemanha de Bento 16 bateu a Argentina de Francisco e conquistou o tetracampeonato mundial.

Parafraseando Neném Prancha, filósofo agnóstico da Escola de General Severiano, se reza ganhasse jogo, o time do Vaticano seria o campeão do mundo.

Correção

Muito obrigado a Sérgio Aranha da Silva Filho, que corrigiu, em Migalhas dos Leitores, uma mancada no Apito Legal da quinta-feira, dia 10: "Não foi Aguero que 'poderia ter garantido a vitória, mas, frente a frente com Cillessen, cabeceou fraquinho uma bola que o holandês defendeu sem dificuldade', foi Palácio".

Despedida

Encerra-se hoje nosso encontro semanal que re(começou) em 3 de fevereiro. Adeus – ou até logo, se Migalhas resolver, mais uma vez, me convocar em 2018. A tristeza com a Seleção em 2010 e em 2014 não foi suficiente para apagar a alegria da convivência com vocês aqui no Migalhas.

Fim de papo

"A gente pode até dizer que sai meio perdido, né?" – Ramires, camisa 16 do Brasil, perdidinho da silva após a derrota por 3 a 0 para a Holanda, em entrevista a Mauro Naves, da Globo.

Roberto Benevides

Roberto Benevides, jornalista, foi por muitos anos colunista e o editor do caderno de esportes de O Estado de S. Paulo, trabalhou também no JB, na Folha de S.Paulo, nas revistas Veja, Exame, Quatro Rodas, Placar e Época. Nos últimos dois anos, fez a coordenação editorial de uma coleção de 15 livros sobre esportes olímpicos publicada pelo editora do Sesi.