Terça-feira, 28 de março de 2017

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Homens ou lobos?

"Faculdade de Direito da UnB abre sindicância para apurar pichações homofóbicas"

Migalhas

"Decretada a prisão preventiva de padre de 84 anos. Uma câmera escondida gravou o padre a praticar ato sexual com uma criança frente ao altar da paróquia de Arapiraca".

Dos jornais

Trata-se de um tema tão tormentoso, que eu me havia prometido não tocar nele. Entretanto, diante das inevitáveis cobranças que venho recebendo e tendo em vista o número incalculável de bobagens ditas ou escritas sobre o assunto, aí vai o que penso sobre ele. Uma bobagem a mais não fará grande diferença.

Quando nos explica o sentido da palavra sensual, Antonio Houaiss nos diz que o adjetivo se refere àquilo "que desperta desejos sexuais, que excita a sensualidade; lúbrico, lascivo, voluptuoso".

E que é sensualidade? Diz o mesmo dicionarista: "propensão exagerada para os prazeres do sexo; lubricidade, volúpia, lascívia, luxúria; sensualismo". O qualificativo exagerada foi lá posto por ele, não por mim, mesmo porque tal qualificação parece inadequada, a julgar pelo que tanto o Larousse como o Webster nos informam a respeito do que ocorre entre os anglófonos e os francófonos. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, quando cuida do assunto, é mais contido: "1. Qualidade de sensual. 2. Lubricidade, volúpia, lascívia, luxúria; sensualismo. 3. Amor aos prazeres materiais".

Como se vê, começamos bem, pois se eles, que foram quem foram, não se entendem, que faremos nós, que deles dependemos?

Certa ocasião um colega advogado, bem mais moço do que eu, que trazia consigo um dessas revistas "para homem", abriu-a e mostrou-me a fotografia de uma mulher pelada, uma dessas beneméritas que se dispõem, por alguma soma de dinheiro supostamente razoável, a posar para "fotos artísticas", como dizem os filhos delas aos colegas de escola. "Você não acha fulana de tal um mulherão?" E eu, com o cinismo que Deus me deu: "Pra mim isso é apenas uma folha de papel". A conversa ficou nisso.

Quando, pai responsável de três filhos que sempre me considerei, achei que era hora de submeter-me a uma vasectomia, não contava com um efeito colateral: eu deveria, alguns dias depois, submeter meu esperma à curiosidade dos laboratoristas, que deveriam certificar, para minha tranquilidade, que, de fato, a cirurgia havia eliminado o risco de vir ao mundo um filho inesperado. Nem com um fato surpreendente: a atendente do laboratório me entregou a tal latinha e uma revista "para homem", algo que me constrangeu enormemente. "Minha filha, se nesta idade eu me excitar com o que está numa página de revista, melhor examinar meu cérebro". Ela, pelo jeito abobalhado exibido, não entendeu nada.

Lembrei-me então de uma velha anedota: um homem, nas mesmas circunstâncias, foi lá para dentro, levando a latinha e a revista. Voltou algum tempo depois, indagando da atendente: "A senhorita pode ajudar-me? Já tentei com a mão direita, tentei com a mão esquerda e nada!". A moça indignou-se: "O que é que o senhor está pensando de mim?". E ele esclareceu: "Estou pedindo que a senhorita me abra a latinha".

Em 2001, o jovem escritor Dennis Lehane, autor de livro que se converteu em aclamado filme dirigido por Martim Scorcese e recentemente exibido entre nós, havia publicado outro livro, cujo tema central é a pedofilia. Filmado por Clint Eastwood, concorreu a seis prêmios do Oscar, dois dos quais merecidamente ganhos: melhor ator principal para Sean Penn e melhor ator coadjuvante para por Tim Robbins.

Evidentemente não vou narrar as histórias do livro ou do filme, que dizem respeito a três garotos amigos, cujas vidas tomam caminhos diversos, como é comum acontecer, e que acabam por cruzar-se, em circunstâncias dramáticas. Um deles, vítima de sevícias sexuais, torna-se um adulto inseguro, que a vizinhança considera uma pessoa estranha e que os amigos de infância parecem culpar pelo que então lhe ocorrera. Um deles acabará dizendo que o tal episódio não deixou marcas apenas em um deles, mas em todos os três.

Paralelamente a isso, há investigações policiais, quando a filha de um deles é brutalmente morta. "Investigações" porque, insatisfeito com a morosidade da investigação oficial, o pai da garota resolve investigar por sua conta, como certamente muitos de nós deseja fazer em circunstâncias semelhantes. Qual o resultado disso? Se me chamassem novamente para dar palestra em Escola de Magistratura, de Advocacia ou de Polícia, eu simplesmente exibiria o filme do Clint e, em seguida, abriria um debate com o tema "que você faria no lugar do personagem com quem se identificou?".

Por outro lado, como se sente um sacerdote vendo-se num filme caseiro mantendo relações sexuais (seja com uma mulher, um homem, uma avestruz ou uma tartaruga, pouco importa) diante de um altar? Em primeiro lugar, violando um dever básico do sacerdócio católico, como é o celibato, cuja existência não cabe aos sacerdotes discutir, mas acatar ou pendurar a batina. Em segundo lugar, sabendo ter como assistente privilegiado ninguém menos do que o mesmo Jesus Cristo que esse mesmo sacerdote afirma estar presente na hóstia consagrada, cuja presença é indicada pela luzinha vermelha acesa.

De outra parte, que motivos levam um adulto a sentir-se sexualmente atraído por uma criança, seja menino ou menina?

A pedofilia, que o Houaiss define como "perversão que leva um indivíduo adulto a se sentir sexualmente atraído por criança", criança essa que ele define como "ser humano na fase da infância, que vai do nascimento à puberdade", puberdade essa que ele define como “período de transição entre a infância e a adolescência”, adolescência essa que ele define como "fase do desenvolvimento humano caracterizado pela passagem à juventude", juventude essa que ele define como "período da vida do ser humano compreendido entre a infância e o desenvolvimento pleno do seu organismo", pleno desenvolvimento esse que ele não diz quando ocorre, não é privilégio de padres, como é de todos sabido. De motorista de ônibus escolar a professor de judô ou universitário, casos muitos desses já houve envolvendo adultos e crianças. Eu conheço um Delegado de Polícia que, lá se vão alguns anos, mandou dois parrudos investigadores devolverem a certo professor e juiz de Direito um mimo que ele havia dado a um jovem, que nem aluno seu era, mas que, para azar do conhecido mestre e magistrado, era filho do tal delegado, com uma advertência: "da próxima vez que assediar o garoto Vossa Excelência ficará sem os dentes". Isso para não falar de intimidades entre padrastos e enteados ou mesmo entre pais e filhos, como aparece na Vara da Infância com alguma frequência.

Essa forma perversa de desafogo da libido, como se pode dizer elegantemente, pouco ou nada tem a ver com a sensualidade, acima conceituada. É como se um sacerdote se sentisse excitado sexualmente diante da figura da Virgem Maria. Que fazer com tais pessoas?

Alguns afoitos propõe hoje a adoção de uma tal "castração química", solução que certamente, se aprovada no Congresso Nacional brasileiro, seria fatalmente barrada no Supremo Tribunal Federal, por ser aviltante. A pena de prisão pouco ou nada contribui para a "ressocialização" de um pedófilo, da mesma forma que jamais contribuiu para que alguém se livrasse da quimio-dependência.

Nada sei de soluções razoáveis para tão grave problema, até porque não sou psiquiatra. O que sei é que, nada obstante o inegável avanço das ciências humanas, a distância que separa homens de lobos está cada vez menor.

É claro que a homossexualidade não tem nada a ver com isso, pois diz respeito a pessoas maiores que fazem suas escolhas a respeito de sua sexualidade. Mas, para muitos cretinos, cuida-se do mesmo assunto. Fazer o que?

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.