Sexta-feira, 20 de outubro de 2017

ISSN 1983-392X

Decifra$

por Francisco Petros

Há algo de "burro" no cenário brasileiro?

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Pela terceira vez a Academia Real de Ciências da Suécia concedeu o oficialmente denominado "Prêmio do Banco da Suécia para Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel", criado em 1969 e vulgarmente denominado de "Prêmio Nobel de Economia", para um economista que cientificamente contesta a construção ideológica e acadêmica de que as decisões econômicas são racionais e, como consequência, os tais dos mercados são eficientes. O Prêmio concedido ao professor Richard Thaler da Universidade de Chicago segue-se aqueles que foram destinados ao professores Herbert Simon (Nobel de 1978) e Daniel Kahneman (Nobel de 2002). Todos eles pertencem à escola de pensamento denominada "behavioral economics".

Os fundamentos teóricos da "behavioral economics" e que foram verificados empiricamente demonstraram que existem muitos fatos, detalhes e vieses que acabam por influenciar as decisões econômicas e financeiras dos agentes. Em palavras outras: a racionalidade econômica fundamentada pelo estabelecimento de relações de riscos e expectativas de retorno eficientes é mitigada por comportamentos não necessariamente enquadrados nesse modelo racional. A consequência dessa constatação analítica é que a presumida "irracionalidade" dos agentes proporciona concretas condições para que os agentes econômicos possam auferir "retornos excepcionais" em relação aqueles que seriam os "normalmente obtidos" pelos modelos de expectativas racionais.

É interessante notar que Richard Thaler utilizou ferramentas científicas de análises para evidenciar que a economia não é tão "científica" quanto alguns possam imaginar. É exatamente nesse tema que insiro uma reflexão sobre o atual momento político do Brasil.

É muito intrigante que os diversos segmentos do tal do mercado estejam com desempenho tão diferenciado (positivo) em relação às ocorrências da política (desastre completo). Os agentes econômicos parecem acreditar que haverá de prevalecer um "modelo racional" a partir dos quais as variáveis econômicas não sofrerão o impacto das decisões políticas no médio prazo. Por essa lógica, em se tratando o vindouro 2018 de um ano eleitoral pouco importará os eleitos, pois esses "racionalmente" seguirão a cartilha do mercado. É uma situação completamente oposta àquela que prevaleceu antes da eleição de Lula em 2002 quando a cotação do dólar foi acima de R$ 4 por USD 1 porque se desconfiava do presidente-proletário. O que depois se constatou é que o presidente não era nem proletário e que os seus assessores - alguns deles hoje atrás das grades – eram bem mais conservadores do que se esperava e bem mais corruptos frente ao que a esquerda tradicional acreditava de forma fervorosa.

Enquanto a Nação assiste às votações de aberturas de processos criminais contra o presidente da República, acusado de corrupção passiva e formação de quadrilha, dentre os principais crimes que teria cometido o mandatário, o mercado financeiro e de capital faz a festa das cotações altas das ações, do real valorizado, do juro básico cadente e da volatilidade em queda. O estado da arte do país na política não se relaciona com o que seria o estado "racional" dos investidores.

Permito-me utilizar, de forma livre e descompromissada, das "explicações teóricas" de Richard Thaler para justificar essa aparente dissonância cognitiva. Tento "justificar" o porquê de tanto otimismo econômico frente à tragédia política.

Possibilidade 1: os agentes econômicos, em particular, e a sociedade, em geral, estão apegados ao "viés do status quo", ou seja, os brasileiros estão se apegando à realidade como ela é. A política é suja mesmo, os políticos são corruptos e, com efeito, não mudará nada no país. Se seria "racional" a sociedade agir para mudar a realidade, o fato é que o comportamento social é de indiferença a tudo (o que é irracional).

Possibilidade 2: há a "maldição do vencedor" no que tange à política. Isso significa que a sociedade não escolhe (racionalmente) como seus representantes (no Executivo e no Legislativo) os "bons" porque sabem que esses vão perder os pleitos eleitorais. Então, fiquemos (irracionalmente) com os "ruins" porque esses vencem sempre. Vejamos o caso de Romero Jucá, Renan Calheiros et caterva. Estão sempre lá...

Possibilidade 3: a sociedade, por meio de seus "formadores de opinião", é induzida a determinado comportamento, no caso, a não mudar radicalmente o estado das coisas, pois os que inovam ou trazem novas ideias não tem espaço para se expressar. O efeito disso é, ilustrativamente, que sempre se vota na crença de que não se pratica o melhor voto (o que seria "racional"), mas aquilo que lhe é visível, mesmo que não seja bom (o que é irracional);

Possibilidade 4: as pessoas estão tão apegadas aos seus interesses pré-estabelecidos ou imediatos que não avaliam "o todo", mesmo que esse seja imenso risco para as suas vidas de cidadãos. A título de exemplo, um funcionário apenas pensa como manter o emprego como isso dependesse só dele e não da economia em geral (o que é irracional), mas não tenta influenciar a política com seu voto para que a taxa de emprego aumente (o que seria racional).

Possibilidade 5: os agentes econômicos estão tirando "vantagem" do governo Temer, apesar de saberem dos fatos que o rodeiam. Enquanto a racionalidade política e jurídica recomenda que a ordem legal seja mantida em prol das instituições da República, a sociedade prefere subvertê-las para se "aproveitarem" do que Temer oferece como "coisas positivas" (presumida estabilidade) frente, por exemplo, ao analfabetismo econômico de Dilma Rousseff ou ao risco de ter o nervoso presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia na presidência do país. Há uma "contabilidade mental" (termo de Thaler) que faz os agentes ficar com o que é ruim frente aos custos de mudar.

É claro que todos podem discordar ou concordar com as hipóteses acima relacionadas, mas o que procurei demonstrar é que existem possibilidades de decisão que não são tão racionais quanto se imagina.

O certo é que muitas vezes ocorrências de comportamentos que parecem, em princípio, irracionais no processo econômico, social e político podem levar a sociedade a caminhar para a frente de formas inesperadas. Essa é uma réstia de esperança nesse deserto atual da política brasileira.

Confesso que não sei se racionalmente acredito que a dissociação entre Poder, Política, Economia e Direito possa ser algo em que devamos acreditar ou que deva moldar o nosso comportamento. Entretanto, o tal do mercado está ensinando que Thaler pode ter razão. Mas se essa "entidade" estiver errada, a história será outra, bem diferente...

Francisco Petros

Francisco Petros é advogado, sócio-responsável pela área societária e de mercado de capital do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados e economista, pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).