Quinta-feira, 21 de agosto de 2014 Cadastre-se

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Pego (ê) ou pego (é)

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

dúvida do leitor

O leitor João Márcio de Castro envia a seguinte indagação ao Gramatigalhas:

"Tenho ouvido com certa frequência uma pronúncia que me tem causado estranheza. Afinal, a pronúncia do particípio passado do verbo pegar tem timbre fechado ou aberto? Pego (ê) ou pego (é)? De modo mais claro, qual das seguintes pronúncias é correta (i) "O assaltante foi pego (ê) pela polícia"; ou (ii) "O assaltante foi pego (é) pela polícia"?
envie sua dúvida

1. Um leitor indaga se a pronúncia do particípio passado do verbo pegar tem timbre fechado ou aberto: pego (ê) ou pego (é). Como nos exemplos a seguir: (i) "O assaltante foi pego (ê) pela polícia"?; ou (ii) "O assaltante foi pego (é) pela polícia"?

2. Diga-se, desde logo, para não haver dúvidas: a pronúncia aberta do verbo pegar (pégo),no particípio passado, é um modismo que, em época mais recente, vem-se alastrando entre os usuários do idioma, e isso por significativa influência do rádio e da televisão; mas essa pronúncia não encontra respaldo algum nas regras de ortoepia do vernáculo, nem entre os estudiosos do assunto, que são unânimes em apoiar a forma fechada.

3. É certo, por um lado, que o verbo pegar tem pronúncia aberta no presente do indicativo: eu pego (é), tu pegas (é), ele pega (é)...

4. No particípio passado, porém, é consenso entre os estudiosos do idioma que a pronúncia deve ter timbre fechado.

5. Domingos Paschoal Cegalla assim resume essa questão do particípio passado: "A pronúncia correta é pêgo. Pego, com a vogal e aberta, é forma do verbo pegar (eu pego)".1

6. Porque ao tempo de edição de sua obra já não mais havia, na escrita, o acento diferencial de timbre sobre vocábulos dessa natureza, Napoleão Mendes de Almeida fazia questão de trazer entre parênteses a grafia sempre fechada desse particípio passado.2

7. Mesmo antes da reforma ortográfica trazida pela lei 5.765, de 18/12/71, que extinguiu o acento diferencial de timbre, Silveira Bueno, sem ver necessidade de quaisquer outras discussões, registrava, tão só e exclusivamente, a forma com timbre fechado – pêgo3 – proceder esse que já havia manifestado em outra de suas obras.4

8. Esse também é o modo de pensar de Cândido de Oliveira.5

9. E, em preciosa obra acerca do estudo sobre a conjugação dos verbos, Otelo Reis foi mais longe e deu a forma pego (é) como criação errônea de cunho popular.6

10. Ante tais considerações, comparem-se as formas corretas e erradas de pronúncia de tal particípio passado nos seguintes exemplos: (i) "O assaltante foi pego (ê) pela polícia" (correta); ii) "O assaltante foi pego (é) pela polícia" (errada); iii) "Os assaltantes foram pegos (ê) pela polícia" (correta); (iv) "Os assaltantes foram pegos (é) pela polícia" (errada); (v) "A fugitiva foi pega (ê) pela polícia" (correta); vi) "A fugitiva foi pega (é) pela polícia" (errada); (vii) "As fugitivas foram pegas (ê) pela polícia" (correta); (viii) "As fugitivas foram pegas (é) pela polícia" (errada).

__________

1CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1999, p. 313.

2ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Dicionário de Questões Vernáculas. São Paulo: Editora Caminho Suave Ltda., 1981, p. 228-229.

3BUENO, Francisco da Silveira. Gramática Normativa da Língua Portuguesa. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 1968, p. 218.

4BUENO, Francisco da Silveira. Questões de Português. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 1957, p. 332.

5FIGUEIREDO, Cândido de. Revisão Gramatical. 10. ed. São Paulo: Editora Luzir, 1961, p. 207.

6REIS, Otelo. Breviário da Conjugação dos Verbos da Língua Portuguesa. 36. ed. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1976, p. 90.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas.