Quinta-feira, 29 de setembro de 2016

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

A curto prazo ou Em curto prazo?

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

dúvida do leitor

A leitora Patrícia Malta de Alencar envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"Gostaria de saber se o correto é utilizar 'a curto prazo' ou 'em curto prazo', ou se ambas as formas estão corretas em situações específicas. Obrigada!"

envie sua dúvida

1) Uma leitora quer saber qual é a forma correta: a curto prazo ou em curto prazo? Ou seja: quer saber que preposição deve empregar antes da palavra prazo, precedida ou não de um adjetivo como curto, médio ou longo.

2) Faça-se uma observação inicial sobre a falta de tratamento mais específico da matéria por parte dos gramáticos. Mas se complemente com a ponderação de que a verificação do que se dá na prática dos casos concretos responde suficientemente às dúvidas que surgem em tais situações.

3) Uma primeira possibilidade verificada no dia a dia é o emprego da preposição em com expressões dessa natureza. Ex.: "Termino a obra em curto prazo". E isso assim acontece, porque uma frase como essa responde à indagação "Você termina essa empreitada em que prazo?"

4) Acrescentam-se outras frases com estrutura similar: a) "Em médio prazo, a situação estará equilibrada"; b) "Em longo prazo, não mais haverá solução".

5) Esse emprego com a preposição em admite associação com os artigos definidos o, a, os e as. Exs.: a) "Em contraste com o longo prazo, no curto prazo temos alguns fatores variáveis e outros fixos, relativamente ao nível de produção escolhido"; b) "É possível lucrar mais que a poupança no curto prazo".

6) Uma segunda possibilidade é o emprego da preposição por, sobretudo quando se está diante de um prazo determinado. Ex.: a) "Foi contratado por um prazo de três anos" (HOUAISS; VILLAR, 2001, p. 2.279); b) "Foi contratado pelo prazo de três anos".

7) Uma terceira possibilidade é o emprego da preposição a, quando se utiliza a expressão opondo-se especificamente ao circunlóquio à vista. Ex.: "Comprei minha televisão a prazo" (FERREIRA, 2010, p. 1.693).

8) Em quarta possibilidade, também se admite o emprego da preposição a, quando o sentido da expressão é o de um prazo próximo não especificado, e a função sintática da expressão é a de um adjunto adverbial. Exs.: a) "A curto prazo não haverá mudanças sensíveis na economia"; b) "O negócio no início será ruim, mas a longo prazo poderá tornar-se lucrativo" (HOUAISS; VILLAR, 2001, p. 2.279).

9) Uma quinta possibilidade, de igual modo, se apresenta nos exemplos práticos, com a preposição de, para um tempo não especificado, em expressões normalmente associadas a um substantivo (dívida, meta, objetivo, rendimento, etc.), normalmente com a função sintática de adjunto adnominal. Exs.: a) "Na tentativa de reorganização da Economia, o Governo escalonou seus alvos em metas de curto, de médio e de longo prazo"; b) "Entende-se por passivo de curto prazo..."; c) "Ele era apenas um especulador de curto prazo"; d) "Os fundos de investimento de curto prazo têm por objetivo reproduzir as variações das taxas de juros e das taxas pós-fixadas".

10) Algumas observações devem ser feitas, em síntese e como fecho, a esta altura: a) os gramáticos normalmente não se debruçam sobre a análise das preposições que devam ser empregadas nessas circunstâncias; b) em vários casos, os empregos observados constituem peculiaridades do idioma, sem justificativa técnica maior para esta ou aquela construção; c) um estudo mais aprofundado revela alguma diversidade de conteúdo semântico entre as expressões, além de diferenças sintáticas entre as estruturas em tais casos; d) não parece haver razão para condenar o emprego desta ou daquela forma de expressão.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas.