Sábado, 21 de janeiro de 2017

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Optar – Foi optado – É correto?

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

dúvida do leitor

O leitor M. E. M. B envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"Meu caro José Maria: é correta a expressão foi optado, muito comum entre nós, médicos, como no exemplo 'Considerando-se os riscos, foi optado por não se operar o paciente'. Pelo meu raciocínio, o verbo optar, que sempre requer o uso de preposição, não é transitivo direto. Como a construção em pauta caracteriza o uso da voz passiva, parece que o exemplo não está muito correto, a não ser que algo me esteja escapando. Obrigado e um grande abraço."

envie sua dúvida

1) Um leitor indaga se é correto o emprego do verbo optar na voz passiva, como no seguinte exemplo: "Considerando-se os riscos, foi optado por não se operar o paciente".

2) De início, observe-se que voz ativa e voz passiva são duas maneiras sintaticamente diversas de dizer a mesma realidade de fato, conforme o sujeito pratique ou receba a ação indicada pelo verbo. Exs.: a) "O magistrado proferiu a sentença" (voz ativa, porque o sujeito magistrado pratica a ação indicada pelo verbo proferir); b) "A sentença foi proferida pelo magistrado" (voz passiva, porque o sujeito sentença recebe a ação indicada pelo verbo proferir).

3) Uma análise de ambas as estruturas revela os seguintes aspectos, que são de suma importância para a análise que está sendo feita: a) o objeto direto da voz ativa torna-se o sujeito da voz passiva; b) o sujeito da voz passiva torna-se o agente da passiva.

4) Ora, se o objeto direto da voz ativa se torna o sujeito da voz passiva, a primeira e importante regra, nesse campo, é a de que permitem o emprego na voz passiva os verbos transitivos diretos.

5) É por isso que, por mais que se tente, não se consegue passar para a voz passiva o exemplo "O livro pertence ao Magistrado": a) é que o verbo pertencer é transitivo indireto, e b) a expressão "ao Magistrado" é um objeto indireto.

6) Tendo essas observações como premissas, segue-se para a resposta à indagação do leitor: a) no sentido da frase proposta, quem opta, opta por alguma coisa ou opta por alguém; b) ou seja, tal verbo é tradicionalmente transitivo indireto, e seu complemento (um objeto indireto) é precedido pela preposição por; c) assim o empregaram nossos melhores autores, como Camilo Castelo Branco ("Afirmavam que ela optara pelo mais rico") ou Euclides da Cunha ("Determinou que optasse por uma das pontas do dilema"); d) com essas premissas, conclui-se que o verbo optar não admite ser empregado na voz passiva; e) é correto dizer "... optou-se por não se operar o paciente"; f) também é correto dizer "optaram por não se operar o paciente"; g) mas não é correto dizer "foi optado por não se operar o paciente".

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.