Terça-feira, 7 de julho de 2015

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Dar uma fugida – é correto?

quarta-feira, 1º de julho de 2015

dúvida do leitor

A leitora Carolina Saito da Costa envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"Ligando o rádio outro dia, ouvi, em uma música, a seguinte frase: 'O jeito é dar uma fugidinha com você...' Pergunto: é correto dizer dar uma fugida, em vez de fugir?"

envie sua dúvida

1) Uma leitora observou no rádio a seguinte frase: "O jeito é dar uma fugidinha com você". E pergunta se é correto dizer dar uma fugida, em vez de fugir.

2) Vejam-se outros exemplos com mesma estrutura, colhidos nos meios de comunicação: (i) "O aluno deu uma revisada na matéria"; (ii) "A aluna deu uma relaxada antes do exame"; (iii) "O atacante deu uma vacilada e perdeu o gol"; (iv) "O zagueiro deu uma escorregada, e o atacante fez o gol"; (v) "O Brasil deu uma forçada no saque"; (vi) "Jaqueline deu uma largada na bola"; (vii) "O tumulto dá uma manchada no campeonato"; (viii) "Dê uma ligada para mim antes de sair"; (ix) "O pivô deu uma andada dentro do garrafão"; (x) "O árbitro deu uma olhada feia para o jogador"; (xi) "David Luiz deu uma recuada perigosa para o goleiro"; (xii) "O que o goleiro fez foi dar uma esfriada no jogo"; (xiii) "A Rússia quer dar uma segurada no jogo"; (xiv) "O time deu uma crescida no jogo"; (xv) "O levantador deu uma aliviada na bola"; (xvi) "Os dois times deram uma cansada neste final de jogo"; (xvii) "Agora, a seleção vai dar uma cadenciada no jogo"; (xviii) "Esse gol dá uma acalmada na seleção"; (xix) "Dunga vai ter trabalho para dar uma acertada no time"; (xx) "O técnico vai dar uma parada no jogo"; (xxi) "O Brasil precisa dar uma reestruturada no time"; (xxii) "O defensor deu uma cochilada, e o time levou o gol"; (xxiii) "Vou dar uma comentada com ele"; (xxiv) "O técnico deu uma lembrada no assunto"; (xxv) "O Felipão precisa dar uma organizada nas coisas"; (xxvi) "O time deu uma reagida, e depois voltou ao marasmo"; (xxvii) "O Governo deu uma abandonada no projeto"; (xxviii) "Não sei, mas vou dar uma pesquisada"; (xxix) "É preciso dar uma conferida na situação"; (xxx) "Vou aproveitar o feriado prolongado e dar uma viajada"; (xxxi) "Djokovich foi dar uma pressionada no juiz de linha"; (xxxii) "O time deu uma desconcentrada total"; (xxxiii) "É preciso dar uma analisada na situação"; (xxxiv) "A torcida deu aquela vaiada"; (xxxv) "Não sei se o piloto deu alguma errada"; (xxxvi) "Helinho Castroneves deu uma acelerada e passou"; (xxxvii) "O Vasco deu uma esquentada no jogo"; (xxxviii) "Isso só dá uma diluída no problema"; (xxxix) "O passe da Alemanha deu uma piorada"; (xl) "Valdívia deu uma reclamada com o árbitro"; (xli) "Neymar deu uma isolada na bola"; (xlii) "Robinho deu uma chutada totalmente torta na bola"; (xliii) "O Brasil deu uma melhorada no bloqueio"; (xliv) "O apresentador da cerimônia deu uma enrolada solene"; (xlv) "O zagueiro deu, sim, uma empurrada no atacante"; (xlvi) "O gol deu uma sacudida no jogo"; (xlvii) "O zagueiro tentou dar uma dominada e perdeu a bola"; (xlviii) "O diretor do Corinthians ficou de dar uma telefonada"; (xlix) "O técnico só está dando uma observada no panorama"; (l) "O Alonso deu uma fechada no Massa"; (li) "A torcida deu uma xingada básica no árbitro"; (lii) "Helinho foi dar uma descansada no banco de reservas"; (liii) "O árbitro deu uma confirmada no número do jogador"; (liv) "Agora está dando uma nublada aqui em Porto Alegre"; (lv) "Vamos dar uma passada pelos outros estádios"; (lvi) "O Corinthians dá uma virada no jogo"; (lvii) "Vamos dar uma girada pelos outros telões"; (lviii) "Vamos dar uma atualizada nos resultados"; (lix) "O goleiro deu uma valorizada no choque"; (lx) "Ele deu uma ajeitada na bola com a mão"; (lxi) "Vamos dar uma recuperada na imagem"; (lxii) "O técnico precisa dar uma encaixada no sistema"; (lxiii) "É preciso dar uma revigorada nesse time"; (lxiv) "Com a vitória, o time dá uma respirada no campeonato"; (lxv) "O técnico quer dar uma poupada no jogador"; (lxvi) "O jogador deu uma corrida ao ataque e não voltou para a defesa"; (lxvii) "O carro derrapou e deu uma atravessada na pista"; (lxviii) "Dê uma verificada para mim"; (lxix) "O Governo deu uma reformada na proposta".

3) Quando se tem uma estrutura como essa (o verbo dar + um substantivo terminado por ada ou ida), o primeiro passo é verificar se o termo dado como substantivo existe efetivamente no vernáculo. E a autoridade para listar oficialmente as palavras de nosso idioma é a Academia Brasileira de Letras, que a exerce pela edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Desse modo, se o vocábulo pretendido não encontra registro no VOLP, ele simplesmente não existe em português.

4) Ora, de toda essa lista de exemplos, constam como substantivos registrados pelo VOLP as palavras empregadas nos seguintes exemplos, de modo que apenas seu emprego está correto como tal: (i) "O atacante deu uma vacilada e perdeu o gol"; (ii) "O zagueiro deu uma escorregada, e o atacante fez o gol"; (iii) "Jaqueline deu uma largada na bola"; (iv) "Dê uma ligada para mim antes de sair"; (v) "O pivô deu uma andada dentro do garrafão"; (vi) "O árbitro deu uma olhada feia para o jogador"; (vii) "David Luiz deu uma recuada perigosa para o goleiro"; (viii) "O time deu uma crescida no jogo"; (ix) "O levantador deu uma aliviada na bola"; (x) "Dunga vai ter trabalho para dar uma acertada no time"; (xi) "O técnico vai dar uma parada no jogo"; (xii) "O defensor deu uma cochilada, e o time levou o gol"; (xiii) "Vou aproveitar o feriado prolongado e dar uma viajada"; (xiv) "Não sei se o piloto deu alguma errada"; (xv) "O Vasco deu uma esquentada no jogo"; (xvi) "O apresentador da cerimônia deu uma enrolada solene"; (xvii) "O gol deu uma sacudida no jogo"; (xviii) "O diretor do Corinthians ficou de dar uma telefonada"; (xix) "O Alonso deu uma fechada no Massa"; (xx) "Helinho foi dar uma descansada no banco de reservas"; (xxi) "Vamos dar uma passada pelos outros estádios"; (xxii) "O Corinthians dá uma virada no jogo"; (xxiii) "O jogador deu uma corrida ao ataque e não voltou para a defesa".

5) Não sendo a questão solucionada pelo critério acima, o segundo passo é ver se, apesar de não existir exatamente o substantivo do exemplo, de modo que não pode ele ser aplicado, há um outro de mesmo radical, que seja capaz de substituir o vocábulo pretendido, caso em que se fazem as alterações necessárias nos demais termos da estrutura: (i) "O aluno fez uma revisão da matéria"; (ii) "Os dois times sentiram cansaço neste final de jogo"; (iii) "O Brasil precisa fazer uma reestruturação no time"; (iv) "Vou fazer um comentário com ele"; (v) "O time teve uma reação e depois voltou ao marasmo"; (vi) "Não sei, mas vou fazer uma pesquisa"; (vii) "É preciso fazer uma conferência da situação"; (viii) "Djokovich foi fazer uma pressão sobre o juiz de linha"; (ix) "É preciso fazer uma análise da situação"; (x) "A torcida deu aquela vaia"; (xi) "Valdívia fez uma reclamação com o árbitro"; (xii) "Robinho deu um chute totalmente torto na bola"; (xiii) "O Brasil teve uma melhora no bloqueio"; (xiv) "O zagueiro deu, sim, um empurrão no atacante"; (xv) "O zagueiro tentou fazer o domínio e perdeu a bola"; (xvi) "A torcida fez um xingamento básico para o árbitro"; (xvii) "O árbitro fez a confirmação do número do jogador"; (xviii) "Vamos dar um giro pelos outros telões"; (xix) "Vamos fazer uma atualização dos resultados"; (xx) "Vamos fazer a recuperação da imagem"; (xxi) "O técnico precisa fazer um encaixe no sistema".

6) Num terceiro passo, se também não for encontrado nenhum substantivo que substitua, então a expressão deverá ser toda trocada por um verbo, como nos seguintes casos: (i) "A aluna relaxou antes do exame"; (ii) "O Brasil forçou o saque"; (iii) "O tumulto mancha o campeonato"; (iv) "O que o goleiro fez foi esfriar no jogo"; (v) "A Rússia quer segurar o jogo"; (vi) "Agora, a seleção vai cadenciar o jogo"; (vii) "Esse gol acalma a seleção"; (viii) "O técnico lembrou o assunto"; (ix) "O Felipão precisa organizar as coisas"; (x) "O Governo abandonou o projeto"; (xi) "O time desconcentrou geral"; (xii) "Helinho Castroneves acelerou e passou"; (xiii) "Isso só dilui o problema"; (xiv) "O passe da Alemanha sofreu uma piora"; (xv) "Neymar isolou a bola"; (xvi) "O técnico só observa o panorama"; (xvii) "Agora está nublando aqui em Porto Alegre"; (xviii) "O goleiro valorizou o choque"; (xix) "Ele ajeitou a bola com a mão"; (xx) "É preciso revigorar esse time"; (xxi) "Com a vitória, o time respira no campeonato"; (xxii) "O técnico quer poupar o jogador"; (xxiii) "O carro derrapou e atravessou na pista"; (xxiv) "Verifique para mim"; (xxv) "O Governo reformou a proposta".

7) Nada impede que os exemplos do primeiro passo possam ser transformados nos moldes do terceiro: (i) "O atacante vacilou e perdeu o gol"; (ii) "O zagueiro escorregou, e o atacante fez o gol"; (iii) "Jaqueline largou a bola"; (iv) "Ligue para mim antes de sair"; (v) "O pivô andou dentro do garrafão"; (vi) "O árbitro olhou feio para o jogador"; (vii) "David Luiz recuou perigosamente para o goleiro"; (viii) "O time cresceu no jogo"; (ix) "O levantador aliviou na bola"; (x) "Dunga vai ter trabalho para acertar o time"; (xi) "O técnico vai parar o jogo"; (xii) "O defensor cochilou, e o time levou o gol"; (xiii) "Vou aproveitar o feriado prolongado e viajar"; (xiv) "Não sei se o piloto errou"; (xv) "O Vasco esquentou o jogo"; (xvi) "O apresentador da cerimônia enrolou solenemente"; (xvii) "O gol sacudiu o jogo"; (xviii) "O diretor do Corinthians ficou de telefonar"; (xix) "O Alonso fechou o Massa"; (xx) "Helinho foi descansar no banco de reservas"; (xxi) "Vamos passar pelos outros estádios"; (xxii) "O Corinthians vira o jogo"; (xxiii) "O jogador correu ao ataque e não voltou para a defesa".

8) Do mesmo modo, nada impede que os exemplos do segundo passo se transformem na estrutura utilizada no terceiro, de acordo com a opção do usuário: (i) "O aluno revisou a matéria"; (ii) "Os dois times se cansaram neste final de jogo"; (iii) "O Brasil precisa reestruturar o time"; (iv) "Vou comentar com ele"; (v) "O time reagiu e depois voltou ao marasmo"; (vi) "Não sei, mas vou pesquisar"; (vii) "É preciso conferir a situação"; (viii) "Djokovich foi pressionar o juiz de linha"; (ix) "É preciso analisar a situação"; (x) "A torcida vaiou"; (xi) "Valdívia reclamou com o árbitro"; (xii) "Robinho chutou totalmente torto a bola"; (xiii) "O Brasil melhorou o bloqueio"; (xiv) "O zagueiro empurrou, sim, o atacante"; (xv) "O zagueiro tentou dominar e perdeu a bola"; (xvi) "A torcida xingou o árbitro"; (xvii) "O árbitro confirmou o número do jogador"; (xviii) "Vamos girar pelos outros telões"; (xix) "Vamos atualizar os resultados"; (xx) "Vamos recuperar a imagem"; (xxi) "O técnico precisa encaixar o sistema".

9) Após essas considerações, fazem-se, em síntese, os seguintes comentários quanto ao exemplo da consulta: (i) o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras, é a palavra oficial para definir a existência ou não dos vocábulos em nosso idioma; (ii) e o VOLP registra, sim, como substantivo feminino regularmente existente em português, o termo fugida1; (iii) desse modo, é de total correção dizer e escrever dar uma fugida; (iv) nada impede o emprego desse substantivo no diminutivo, de modo que se venha a dizer "O jeito é dar uma fugidinha com você".

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1 Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 2. ed., reimpressão de 1998. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1999, p. 387.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas.