Segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Quem serve para coisa ou só para pessoa?

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

dúvida do leitor

O leitor Cesar Cruz envia a seguinte dúvida ao Gramatigalhas:

"Usar o 'quem' numa situação em que o sujeito não é humano não configura uma inadequação? Veja: 'Foram os cartões corporativos quem fizeram mais sucesso no carnaval'. Não seria mais adequado 'que fizeram'?"

envie sua dúvida

1) Um leitor pergunta se configura inadequação usar quem numa situação em que o termo referido não é pessoa, e sim coisa. E traz um exemplo colhido na mídia, para demonstrar sua estranheza: "Foram os cartões corporativos quem fizeram mais sucesso no carnaval".

2) Ora, no português moderno, em estruturas como a trazida pelo leitor, o que serve para coisas e pessoas, mas quem serve apenas para pessoas, e não para coisas. Exs.: a) "Foi o reitor que o ajudou naquela dificuldade" (correto); b) "Foi o reitor quem o ajudou naquela dificuldade" (correto); c) "Foi o dicionário que o ajudou naquela dificuldade" (correto); d) "Foi o dicionário quem o ajudou naquela dificuldade" (errado).

3) Vejam-se, porém, dois exemplos de autores clássicos em que não se obedeceu a essa regra: a) "A ciência do direito romano foi quem, para desconto, trouxe o absolutismo às nações" (Alexandre Herculano); b) "... Toledo, cidade nobre e antiga, a quem cercando o Tejo em torno vai, suave e ledo" (Luís de Camões).

4) Quanto a esses dois exemplos de séculos atrás, Cândido Jucá Filho, mesmo assim, traz justificativa mais do que apropriada: "em ambos os casos há certa personificação do ser a que se alude" (1963, p. 525).

5) Para o português atual, todavia, em termos de norma culta, deve-se observar os princípios inicialmente postos, de modo que se deve assim corrigir o exemplo trazido pelo leitor: "Foram os cartões corporativos que fizeram mais sucesso no carnaval".

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.