Domingo, 19 de novembro de 2017

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Versus – Como concorda o verbo?

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

dúvida do leitor

Uma leitora que se identifica apenas como Josane envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"Estou fazendo revisão de uma dissertação. Mais de uma vez, o autor usa a seguinte estrutura: 'Esta situação versus aquela situação resultam em...'. Fiquei na dúvida se os termos unidos pela expressão versus são considerados sujeitos compostos. Muito obrigada e parabéns pelo seu Manual, que me ajuda muito!"

envie sua dúvida
1) Uma leitora parte do seguinte exemplo, que não sabe se está certo quanto à concordância verbal: "Esta situação 'versus' aquela situação resulta em..." E indaga se termos unidos pela palavra versus tipificam sujeito composto ou não. Ou seja: em tais circunstâncias, o verbo vai para o plural, ou fica no singular?

2) Ora, a uma simples observação do exemplo trazido pela leitora, começa-se por tecer os seguintes comentários quanto à palavra versus considerada isoladamente: a) versus é uma preposição e não uma conjunção (contrariamente a outras palavras que unem núcleos de um sujeito composto, como ou e nem); b) é vocábulo latino, ainda não integrado ao vernáculo, como é fácil concluir a uma simples consulta ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras, que tem a delegação legal para listar as palavras pertencentes ao nosso idioma; c) como vocábulo estrangeiro, ainda não incorporado ao nosso idioma, deve ser escrito em itálico, ou negrito, ou entre aspas, ou sublinhado, ou de algum outro modo que indique ser alienígena a palavra empregada; d) seu sentido normal é de contrariedade entre as palavras por ele ligadas.

3) No plano da concordância verbal, o mais adequado parece ser partir de alguns exemplos: a) "Flamengo 'versus' Fluminense não entusiasmou a torcida"; b) "Éder Jofre 'versus' Harada foi simplesmente empolgante"; c) "Davi 'versus' Golias sempre traz lições importantes"; d) "Escola particular 'versus' escola pública pode causar polarizações indevidas"; e) "Marido 'versus' mulher quase nunca redunda em benefícios".

4) E desses exemplos, então, parece lícito concluir do seguinte modo: a) embora o vocábulo considerado não pertença ao idioma, parece adequado, com as cautelas já indicadas, empregá-lo em tais circunstâncias, com o escopo de unir elementos contrapostos; b) a ideia de contraposição e/ou contrariedade entre os elementos por ele unidos conduz instintivamente o usuário a concordar o verbo no singular; c) como é de fácil percepção nas frases já modificadas do item a seguir, é inevitável, diante de um exemplo desses, pensar em um termo inicial, que seja a referência para tal contraposição; d) e é com a ideia desse termo inicial pressuposto que, nessas situações, se faz a concordância verbal por silepse (concordância ideológica); e) importa adicionar, como se pode perceber pelo exemplo acrescido por último no próximo item, que o verbo fica no singular, mesmo que ambos os termos contrapostos estejam no plural.

5) Vejam-se os exemplos já modificados com o acréscimo de um termo inicial instintivamente pensado: a) "(O jogo) Flamengo 'versus' Fluminense não entusiasmou a torcida"; b) "(O combate de) Éder Jofre 'versus' Harada foi simplesmente empolgante"; c) "(O duelo de) Davi 'versus' Golias sempre traz lições importantes"; d) "(A contraposição de) Escola particular 'versus' escola pública pode causar polarizações indevidas"; e) "(A disputa de) Marido 'versus' mulher quase nunca redunda em benefícios"; f) "(A briga de) Corinthianos 'versus' palmeirenses resultou em mortes".

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.