Sexta-feira, 25 de maio de 2018

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Para mim e você ou Para eu e você?

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

dúvida do leitor

Um leitor que se identifica apenas como José envia a seguinte dúvida ao Gramatigalhas:

"Como se deve dizer: 'para mim e você ou para eu e você'."

envie sua dúvida

1) Um leitor quer saber, em suma, como se deve dizer e escrever: para mim e você ou para eu e você?

2) Antes de responder diretamente ao leitor, é importante formular dois exemplos, já que o que as expressões foram trazidas para análise soltas e sem vinculação a uma estrutura sintática adequada: a) "A bibliotecária trouxe o livro para José"; b) "A bibliotecária trouxe o livro para José folhear".

3) Quanto ao primeiro exemplo – "A bibliotecária trouxe o livro para José" – podem-se fazer as seguintes considerações: a) o exemplo tem um só verbo (trouxe); b) trata-se de um período simples; c) a bibliotecária é o sujeito; d) o livro é o objeto direto; e) José é o objeto indireto.

4) Já sobre o segundo exemplo – "A bibliotecária trouxe o livro para José folhear" – podem-se extrair as seguintes ilações: a) o exemplo tem dois verbos (trouxe e folhear); b) trata-se, portanto, de um período composto; c) a primeira oração é "A bibliotecária trouxe o livro"; d) a segunda oração é "para José folhear"; e) as funções sintáticas dos termos da primeira oração são aquelas já referidas no exemplo anterior; f) já na segunda oração, quando se pergunta "para quem folhear?", encontra-se o sujeito desse verbo, que é José.

5) Com essas considerações, segue-se o raciocínio: a) imagine-se que, em ambos os exemplos, se queira substituir José por um pronome da primeira pessoa do singular (eu ou mim); b) então se deve lembrar que, no primeiro exemplo, José é o objeto indireto, enquanto, no segundo exemplo, ele é o sujeito; c) a esta altura, também é preciso lembrar a velha (e nem sempre compreendida) regra de que eu é um pronome do caso reto, enquanto mim é do caso oblíquo; d) ora, quando se faz tal afirmativa, o que se quer dizer na prática é que um pronome do caso reto serve para funcionar como sujeito, enquanto um pronome do caso oblíquo serve para funcionar como complemento; e) entendida a questão desse modo, então se resolve com facilidade a substituição do primeiro caso ("A bibliotecária trouxe o livro para mim") e também a do segundo ("A bibliotecária trouxe o livro para eu folhear"); f) qualquer mudança do pronome, nesses casos, estaria errada.

6) Por fim, respondendo diretamente à indagação do leitor: a) tal como feita a pergunta, a resposta deve ser que ambas as construções são possíveis, já que só se pode fazer outra afirmação em exemplos sintaticamente estruturados; b) se, todavia, se pensar em exemplos práticos, em que se empregue a expressão em estruturas sintáticas analisáveis, estará correto dizer, por um lado "A bibliotecária trouxe o livro para mim e você"; c) por outro lado, também estará correto dizer "A bibliotecária trouxe o livro para eu e você folhearmos"; d) estará errado, entretanto, dizer, por um lado, "A bibliotecária trouxe o livro para eu e você"; e) e também estará errado dizer "A bibliotecária trouxe o livro para mim e você folhearmos".

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.