Domingo, 21 de dezembro de 2014

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Feliz em ver? Feliz ao ver?...

quarta-feira, 1º de novembro de 2006

dúvida do leitor

A leitora Christie Amin Bechara envia à nossa redação a seguinte consulta:

"Prezados Gramatigalheiros de plantão, bom dia! Meus colegas e eu temos dúvidas quanto à maneira correta de aplicar regência nas seguintes frases, e pergunto; Qual a maneira correta de escrever? (i) Fico feliz AO VER a concretização do projeto. Ou ainda: (ii) Fico feliz EM VER a concretização do projeto. Desde já, o meu muito obrigada e até breve!"

envie sua dúvida

1) No que diz respeito à norma culta, anota-se por primeiro que a autoridade para dizer oficialmente quais as palavras existentes em nosso idioma é o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, elaborado pela Academia Brasileira de Letras, a qual tem a delegação legal de editá-lo, em cumprimento à Lei Eduardo Ramos, de n. 726, de 8 de dezembro de 1900. Em decorrência dessa delegação legal, o VOLP é a palavra oficial sobre a existência, a grafia, eventualmente a pronúncia e, em raros casos, o significado das palavras em nosso idioma.

2) Em segunda observação, vê-se que, se a questão é de sintaxe (parte da Gramática que estuda a construção da frase, a estruturação das palavras em suas relações de concordância, de subordinação e de ordem), a referência para validar determinada estrutura são os nossos melhores autores, aqueles reconhecidos pela voz geral como usuários privilegiados do nosso idioma, os quais, assim, podem autorizar o usuário comum a se valer de determinada construção. Acresça-se que a melhor postura aqui, com as devidas cautelas, é a da inclusão, até porque o excesso de purismo, em vez de auxiliar, pode acabar engessando a comunicação e o idioma. Desse modo, salvo raras exceções, se determinado autor abalizado usa determinada construção, deve ela ser acatada como correta.

3) Feitas essas observações genéricas, localiza-se o problema da consulta: quando se indaga se o correto é escrever feliz ao ver ou feliz em ver, quer-se saber, em última análise, se feliz (um adjetivo e, genericamente, um nome) exige (ou rege) um complemento precedido pela preposição a ou pela preposição em. Exatamente por isso, diz-se que a questão é de regência nominal.

4) E, na solução do problema, adiciona-se uma terceira observação: localizar o emprego de uma estrutura, como a questionada, nos bons autores do idioma constitui tarefa parecida com achar agulha em um palheiro. Por isso alguns zelosos estudiosos de Gramática já procederam a exaustivas leituras e pesquisas e elaboraram preciosos dicionários de regência de substantivos e adjetivos (que genericamente são nomes).

5) Nessa tarefa, Francisco Fernandes encontrou em bons autores alguns exemplos de construção do adjetivo feliz com diversas preposições, as quais, como é de fácil percepção, podem ter ora um ora outro sentido:

a) – "Felizes com a migalha restante" (Euclides da Cunha);

b) – "Senti-me feliz de uma alegria que não sabia dizer" (Camilo Castelo Branco);

c) – "Parece que não foste feliz na (em + a)caçada de hoje" (Afrânio Peixoto);

d) – "... tornar a vida mais rica e mais feliz para todos nós" ;

e) – "... silenciosamente beijou a irmã, feliz por achar naquela alma boa um sentimento igual ao seu" (Afrânio Peixoto).1

6) Confirmando todas essas possibilidades, Celso Pedro Luft também abona a construção feliz a: "Feliz [quem tem sorte] ao jogo, infeliz aos amores". E esclarece tal autor que, "com a, a construção é de sintaxe lusitana".2

7) Ante as lições desses autores, respondendo de modo direto à indagação, pode-se dizer que são igualmente corretas as construções "feliz em ver" e "feliz ao ver". Apenas se esclarece que 'feliz ao ver" é construção mais usada em Portugal, enquanto "feliz em ver" é mais empregada no Brasil.

___________

1Cf. FERNANDES, Francisco. Dicionário de Regimes de Substantivos e Adjetivos. 2. ed., sexta reimpressão. Porto Alegre: Globo, 1969, p. 192.

2Cf. LUFT, Celso Pedro. Dicionário Prático de Regência Nominal. 4. ed. São Paulo: Ática, 1999, p. 235/236.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas.