Domingo, 17 de junho de 2018

ISSN 1983-392X

Kbytes de informação

por Matheus Moraes Sacramento

Startup, blockchain, inteligência artificial, machine learning, deep learning e disrupção. Hein?

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Se nunca ouviu falar nos termos startup, blockchain, inteligência artificial, machine learning, deep learning e disrupção, sinto informar que você está absolutamente alheio à alteração econômica que impacta a economia mundial, e que de um ano e meio para cá passou a desafiar os atores econômicos brasileiros (os atores econômicos de economias mais avançadas já vêm sendo rotineiramente desafiados por tais inovações há pelo menos seis anos).

E não está em melhor situação quem já ouviu os referidos termos mas ainda não domina completamente os seus conceitos e alcance.

Disrupção, por exemplo, é o termo da moda nas conversas entre empreendedores. Derivado do inglês dispruption, a palavra significa uma absoluta quebra de precedentes na maneira de desenvolver um negócio.

Foi o que aconteceu com os táxis, substituídos pelo Uber. É o que está acontecendo com a rede hoteleira, ante a crescente concorrência do Airbnb. É o que se vê através do Alibaba.com, que é o maior atacadista do mundo, mas não possui estoque.

A disrupção atropela, sem remorso ou piedade, gigantes tradicionais que não têm agilidade e perspicácia em perceber as alterações que as ladeiam e tomar as atitudes necessárias para corrigir o rumo.

Quem não se lembra da Nokia, a gigante dos telefones que nos anos 90 e início dos anos 2000 dominava o mercado de aparelhos celulares? A gigante desapareceu, tendo sido engolida pela Microsoft num cada vez mais competitivo mercado de smartphones.

São alvo da disrupção outros setores tradicionais da economia, como os bancos (cujo mercado hoje é alvo de Fintechs – que são startups do mercado financeiro – e a tecnologia blockchain, que ousada, mas não pouco realisticamente, promete acabar com o domínio de tais instituições.

Os jornais impressos mudaram de mercado. Ao invés de notícias (que já são publicadas com atraso, quando comparados aos sites de notícias em tempo quase real), passaram a vender credibilidade (o leitor vai checar no jornal se a notícia lida é verdadeira).

É o que está a ameaçar o setor da advocacia (pública e privada), ante o crescente surgimento de softwares dotados de inteligência artificial (machine learning – aprendizado das máquinas, em tradução livre), alimentados por códigos de deep learning (aprendizado profundo, em tradução livre), e que são muito mais eficazes em analisar documentos, comparar dados (até mesmo decisões judiciais) e até mesmo propor soluções.

O JP Morgan, grande instituição bancária americana, criou um software-robô (ou bot nos termos mais modernos) capaz de revisar em 36 segundos o trabalho que a equipe jurídica gastou 360 mil (mil!) horas para fazer. E o mais assustador. O robô-advogado executou a tarefa com eficiência de 92%, ao passo que os seus colegas humanos tiveram eficiência de 76%.

A disrupção afeta até mesmo as relações sociais! É conselho natural dos pais que a criança não fale com desconhecidos. Hoje em dia o indivíduo anda no carro do desconhecido (Uber) e dorme na casa do desconhecido (Airbnb).

O mais incrível é que essa nova fase da tecnologia está acessível a qualquer um. A maioria das informações necessárias para adquirir os conhecimentos necessários para desenvolver/criar tais atividades está disponível gratuitamente na internet, pelo Youtube (pode-se aprender a fazer um laser através de vídeos de seis minutos, por exemplo).

Mais do que isso, ao contrário do mercado tradicional, pequenas organizações têm maior competitividade do que as grandes e tradicionais sociedades. Não à toa multiplicam-se sociedades do tipo startup, cuja principal característica é a capacidade de adaptar-se e mudar de direção com grande facilidade (algo difícil para grandes empresas, cujas estruturas não lhes conferem grande agilidade).

É um novo mundo que se descortina, e qualquer um que deseje se inserir nos capítulos que estão por vir deve, necessariamente, buscar se atualizar a respeito de tal fenômeno.

Na medicina computadores são alimentados com diversos dados, e hoje são capazes, através do deep learning, de, a partir de uma fotografia de smartphone, apontar com grande eficiência a probabilidade de uma mancha de pele se constituir ou não num câncer. O software, já largamente utilizado, simplesmente compara tamanho, cor e formato da lesão com uma imensa base de dados de diagnósticos já feitos por seres humanos, e é capaz de acertar em mais de 90% dos casos.

O deep learning é fantástico e assustador ao mesmo tempo. Recomenda-se a quem tenha curiosidade que pesquise no Youtube pelo termo "Unity Machine Learning". É um vídeo de pouco mais de um minuto e meio em que vai ser possível ver como um computador foi capaz, em seis horas, de aprender a lidar com um jogo eletrônico. Somente ensinaram ao computador que as teclas de seta eram capazes de mover o jogador em quatro direções, que os carros pontuavam negativamente (-1) e que os ícones em forma de presente, quando coletados, pontuavam positivamente (+1). Assusta o resultado do experimento, mas com ele é possível ter noção do que está por vir.

Não se está aqui profetizando que todos os profissionais humanos irão desparecer (embora não se negue que algumas profissões estão realmente fadadas à extinção). Contudo, é inevitável que as suas funções serão mais nobres, e estarão necessária e umbilicalmente ligadas às máquinas/softwares (que terão por função executar os trabalhos de natureza mais objetiva, guarnecendo o ser humano de dados capazes de lhes permitir tomar a decisão).

Formar-se-á, assim, o que essa nova economia chama de "centauros", numa alusão ao ser mitológico meio homem, meio cavalo, mas que agora se traduz na metáfora do trabalho conjunto entre o ser humano e a tecnologia, que vai criar o profissional meio homem, meio máquina.

Mas para manter o papel do profissional brasileiro nesse mercado de trabalho aberto a investidas internacionais (considerando que já há estudos avançados para acabar com a barreira dos idiomas) é primordial não só que os profissionais leiam e pesquisem mais, estejam a par das tecnologias mais recentes, procurem novos softwares e aplicativos (para quem gosta, recomendo seguir no Instagram o perfil @clubedoapp), e até mesmo se qualifiquem para criar soluções, passando a protagonista nesse novo mundo. É importante também que os centros formadores (escolas, centros de formação técnica e universidades) já aproximem os indivíduos dessa realidade, tornando mais natural essa simbiose tecnológica, que hoje se mostra sem volta. Já passou do tempo de a tecnologia ser matéria obrigatória nas salas de aula.

Matheus Moraes Sacramento

Matheus Moraes Sacramento é sócio do escritório Garcia Landeiro Carvalho Moraes Advogados Associados em Salvador/BA. Graduado pela Universidade Federal da Bahia. Pós-graduado em Direito Processual Civil pela PUC/SP.