Sábado, 22 de julho de 2017

ISSN 1983-392X

Falecimento - Jorge Miguel

de 9/7/2017 a 15/7/2017

"Que tristeza (Migalhas 1.852 - 6/3/08 - "Falecimento")! Descobri que o professor morreu no momento em que estava pretendendo juntar vários de seus alunos para homenageá-lo no quadro 'Ao Mestre com Carinho' do Caldeirão do Huck. Fui seu aluno há mais de 50 anos no Colégio Rio Branco, onde ele me ensinou a ler jornal. É que ele dava um ponto na média mensal para quem acertasse a pergunta que fazia sobre uma das manchetes do Jornal da Tarde ao longo do mês. Assim, ele ia acostumando seus alunos (eu, com certeza) a ficar atento aos jornais diariamente. Acontece que, com esse hábito (obrigatório, em busca do um ponto na média), ele instigava, sem querer (querendo), a nossa curiosidade, primeiro, talvez, pelas tirinhas de humor; depois, quem sabe, pelo futebol; depois, estou chutando, por um artista, um show, um filme. E como a política (nacional e internacional) e a economia não deixam de ser uma espécie de novela, com os seus capítulos diários, sem querer (ou induzidos pela sabedoria do nosso saudoso mestre) alguns de nós (eu, com certeza) acabava se interessando por aquelas tramas. Minha vida tomou o rumo que tomou (jornalista e cientista social) muitíssimo por causa dele. Muitos anos depois, já casado, me tornei oficial de Gabinete no governo Franco Montoro. Quando entrei na sala, no primeiro dia de trabalho, desconfiei que um senhor que estava numa mesa próxima era um velho professor meu. Na dúvida, fiquei na minha. Como era de seu temperamento, ele não teve dúvida. Levantou-se e veio me confrontar: 'Você sabe quem eu sou?', perguntou-me, com aquele seu olhar zombeteiro e um meio sorriso encolhido nos lábios. Eu, que sou bom fisionomista, mas péssimo para lembrar nomes e posições das pessoas, respondi que mais ou menos. Ao que ele, sem pestanejar, sacou da sua incrível memória e disse: 'Você era um dos meus bons alunos, apesar de ser da turma do fundão. Eu sou o professor Jorge Miguel, do Rio Branco, e você é o Álvaro Junqueira. Lembro-me muito bem de você'. De fato, eu era um bom aluno dele, mas quase só dele, pois era péssimo em quase todas as outras matérias, todas as exatas. E era um bagunceiro, da turma do fundão mesmo. Passados mais muitos anos, morando em Joinville/SC, leio na coluna do Elio Gaspari, na Folha, um tremendo elogio ao nosso querido mestre. Bem, desculpe a verborragia, mas a notícia me abalou muito e meu jeito de me reequilibrar sempre foi colocando minhas emoções no papel."

Álvaro Junqueira de Arantes Filho - 13/7/2017

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