Segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

ISSN 1983-392X

O fenômeno dos grupos no âmbito do futebol

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A receita dos principais times do planeta impressiona. Conforme números da temporada 2015/2016, o Manchester United apurou uma receita de 689 milhões de euros. Em segundo lugar veio o Barcelona, com receita de 620,2 milhões de Euros, seguido pelo Real Madrid, com 620,1 milhões de euros. O Bayern se colocou em quarto, com 592 milhões de euros. Na sequência o Manchester City, com 524,9 milhões de euros e, em sexto, o PSG, que atingiu 520,9 milhões de euros1.

Dentre os top 20 da temporada, apareceu o pequeno Leicester, que apurou 172,1 milhões de euros. Este número foi afetado pelo inédito título do campeonato inglês, fato que justifica um acréscimo de 25,6% em relação ao ano anterior, de 137 milhões de euros para o montante acima mencionado.

Voltando ao grupo dos 6 maiores, o caso do Manchester City merece atenção. Não apenas pelo montante apurado, mas, também, pelo modelo de negócios da empresa que o controla.

Em 2008, o clube foi adquirido pelo Abu Dhabi United Group. O grupo, posteriormente, constituiu uma holding, a City Football Group, que passou a deter ativos ligados ao futebol. Além do próprio Manchester City, somam-se ao portfólio o New York City F.C., o Melbourne City F.C. e o Yokohama Marinos.

Como esse exemplo poderia ser aproveitado para o desenvolvimento do futebol brasileiro?

Veja-se uma situação: o Brasil é o país que mais exporta jogadores. Em 2016, foram 806. O maior importador do produto brasileiro foi Portugal, com 1682.

As exportações têm como origem, em sua maioria, países menos relevantes ou, em muitos casos, inexpressivos no contexto mundial.

Isso justifica o baixo valor de negociação. O brasileiro sai do país por, em média, R$ 1,02 milhão3.

Em outras palavras, produz-se e se negocia, por aqui, commodity. Esta commodity, após se conformar em mercados europeus, é negociada por preços muito mais expressivos. A média do valor de negociação do jogador que sai da Espanha, por exemplo, é de R$ 3,26 milhões.

Essa diferença poderia ser aproveitada pelos times brasileiros. De que forma? Simples: fosse o time operado por uma sociedade anônima do futebol, ele poderia captar recursos para investir, por exemplo, na aquisição de um time europeu de país menos expressivo ou de times de segunda divisão dos principais campeonatos. A aquisição poderia ser parcial ou total.

O time adquirido – ou os times, se a captação fosse relevante e as oportunidades aparecessem – seria o destino de certos jogadores, que se habituariam ao jogo e às condições continentais. Após o devido "estágio", seriam negociados com times mais expressivos, capturando-se o excedente que, atualmente, se dispersa entre intermediários.

O modelo financeiro das negociações dependeria algumas diversas variáveis, podendo se tratar de uma cessão efetiva direitos, com o pagamento do preço pelo cessionário ao cedente, o qual, futuramente, receberia os dividendos decorrentes dos lucros apurados, ou de empréstimo.

A criação do novo mercado do futebol, que vem sendo proposta nesta Coluna, por via, especialmente, da instituição da sociedade anônima do futebol, na forma do PL 5.082/16, oferecerá os mecanismos necessários para que se criem, a partir de times brasileiros, grupos futebolísticos mundiais.

Aliás, essa proposição não é fruto de devaneio. Já está em curso, sob diversas formas. Além da experiência do Manchester City, que tem como controladora uma holding de investimentos, o Atlético de Madri segue o seu caminho.

Em janeiro de 2017, seu presidente manifestou interesse na aquisição do Club San Luis, do México, para que tivesse uma presença comercial e desportiva no país4. Não foi o primeiro caso, pois seus investimentos se espalham. Em 2016, por exemplo, já se havia anunciado a aquisição de participação equivalente a 34,6% do time francês Lens, da segunda divisão5.

Enfim, o futebol se insere, queiramos ou não, numa nova ordem. Se os times brasileiros não se adaptarem, eles se consolidarão, nessa ordem, como exportadores de commodity. E nada além disso.

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1 Deloitte Football Money League 2017.

2 O Globo.

3 Idem.

4 Atlético de Madrid espera cerrar en breve la compra del Club San Luis mexicano.

5 La Junta de Accionistas del Atlético aprueba la compra del 34,6 del Lens.

Rodrigo R. Monteiro de Castro

Rodrigo R. Monteiro de Castro é presidente do MDA. Ex-presidente do IDSA. Professor de Direito Comercial do Mackenzie. Doutor em Direito Comercial pela PUC. Coautor do projeto de lei que institui a Sociedade Anônima Simplificada. Coautor do Livro "Futebol, Mercado e Estado" e autor dos livros "Controle Gerencial" e "Regime Jurídico das Reorganizações". Sócio do escritório Lehmann, Warde & Monteiro de Castro Advogados.