Segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 518

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Mata o bicho, sô

Abro a coluna com a mineirice de Zé Abelha

O monsenhor Aristides Rocha, mineirinho astuto, fazia política no velho PSD e odiava udenistas. Ainda jovem, monsenhor foi celebrar missa em uma paróquia onde o sacristão apreciava uma boa aguardente. Um dia, o sacristão, seguindo o ritual, sobe o degrau do altar com a pequena bandeja e as garrafinhas de vinho e água, e não vê uma pequena barata circulando entre as peças do altar. Monsenhor interrompe o seu latim e, de olho na bandeja, diz baixinho ao sacristão :

- Mata o bicho...

O sacristão não entende a ordem. Atônito, fica olhando para o jovem padre, que repete a ordem, agora com mais energia :

- Mata o bicho, sô !

Ordem dada, ordem executada. O sacristão não se faz de rogado. Diante dos fieis que lotam a capela, ele pega a garrafinha e, num gole só, sorve todo o vinho da santa missa. No interior de Minas, "matar o bicho" é dar uma boa bebericada. (Do livro de Zé Abelha, A Mineirice).

Sem blindagem

Há muita leitura errada circulando por aí. Essa versão de que o presidente Michel Temer procura blindar ministros não se sustenta. Primeiro, porque a mídia cumpre papel fiscalizador. Segundo, porque a operação Lava Jato é irreversível. Não tem caminho de volta. O presidente acaba de sustentar a posição de que o governo não fará blindagem de nomes. Uma coisa é ser citado. Outra coisa é alguém virar réu. Não se segurará no governo.

Citação

Há mais de 100 nomes citados nas delações dos 77 executivos da Odebrecht. Serão todos réus ? Difícil acreditar nessa hipótese. Há muito disse-que-disse ou ouviu dizer nos relatos. Parcela ponderável dos citados ficará fora da operação. Os partidos, por sua vez, preparam farta documentação para demonstrar que receberam financiamentos legais dos doadores. A conferir.

O cabo de guerra

A imagem que se tem do país é a de um cabo de guerra. Dois grupos puxam os dois lados do cabo. Ora, um grupo avança e faz com que o outro perca alguns passos ; ora, outro grupo avança, vencendo o opositor. A impressão é a de que o grupo que puxa o Brasil para frente está ganhando a parada. Quem faz parte desses grupos ? Vejamos.

O Brasil para a frente

O grupo que puxa o país para adiante deixa ver alguns tipos : a) setores produtivos - empresariado que torce para a recuperação da economia ; b) classes médias, principalmente extratos do grupamento de profissionais liberais ; c) frentes políticas - representação política, particularmente os integrantes da base governista ; d) grupamentos de setores de serviços ; e) núcleos de trabalhadores que se engajam em grandes empresas ; f) núcleos da intelligentzia não cooptados pelo corporativismo da era lulopetista.

O Brasil para trás

O grupamento que puxa o país para trás é composto basicamente por : 1) militância petista e contingente que perdeu a sombra (ou as tetas) do Estado ; 2) grupos encastelados em algumas Centrais sindicais ; 3) parcela do funcionalismo Federal, principalmente as massas funcionais das universidades (a nordestina, principalmente) ; 4) setores da intelligentzia, ainda engajados na velha luta de classes ; 5) massas sob manobra do sindicalismo pelego ; 6) contingentes dispersos dos movimentos de rua.

O discurso político

Costumo bater nesta tecla. Muita gente se engana com a eficácia do discurso político. Pois bem, o discurso político é uma composição entre a semântica e a estética. O que muitos não sabem é que a eficácia do discurso depende 7% do conteúdo da expressão e 93% da comunicação não verbal. Esse é o resultado de pesquisas que se fazem sobre o tema desde 1960. E vejam só : das comunicações não verbais, 55% provêm de expressões faciais e 38% derivam de elementos paralinguísticos - voz, entonação, gestos, postura, etc. Ou seja, do que se diz, apenas pequena parcela é levada em consideração. O que não se diz, mas se vê, tem muito maior importância.

O motim

O motim que tomou conta das polícias militar e civil do Espírito Santo constitui uma grande ameaça. Imagine-se se a ideia pega. O dominó veria as pedrinhas caindo em outros Estados da Federação. O caos social se instalaria rapidamente. E seria muito complexa a tarefa de administrar uma conflagração geral. As Forças Armadas não estão preparadas para enfrentar um conflito com tal dimensão. Essas Forças Nacionais funcionam como um calmante passageiro.

O equilíbrio político

O desafio do governo Federal é o de conseguir administrar as pressões da frente política e, ao mesmo tempo, trazê-la para formar a base de apoio no Congresso. O governo teria, teoricamente, quase 400 deputados integrantes de sua base. Mas espera contar com uns 280 na hora da verdade. Um pouco mais para lá, um pouco mais para cá. O fato é que conta com o voto para fazer aprovar a reforma da Previdência e a Modernização da Legislação Trabalhista.

Precarizar, verbo mofado

As Centrais Sindicais se acostumaram a declinar o verbo "precarizar". Qualquer menção que se faça à modernização na legislação do trabalho, o slogan vem logo : "isso é precarização". Quando se pede para que o autor do verbo mofado decline um caso de precarização, ele fica titubeando. Não sabe o que dizer. Pois bem, a terceirização de serviços especializados não tirará um direito sequer dos trabalhadores. Que terão seu marco regulatório assegurando todos os direitos e benefícios previstos por lei.

Terceirização

Afinal, qual será o projeto a ser discutido e aprovado ? O PLC 30, que está no Senado depois de ter passado pela Câmara, ou o PL 4.302, que já passou pela Câmara, foi aprovado no Senado e está novamente na Câmara ? Os presidentes do Senado, Eunício Oliveira, da Câmara, Rodrigo Maia, e o novo articulador político do governo, ministro Antônio Imbassahy, vão conversar. Na visão deste analista, o PL 4.302 terá prioridade. Está pronto para receber a última votação. Espera-se que, depois de mais de duas décadas, a terceirização ganhe seu marco regulatório. Hoje, emprega cerca de 13 milhões de trabalhadores.

Oxigenação

Empresários do setor de serviços estão esperançosos quanto à modernização trabalhista. O momento vivido pelo Brasil é oportuno para revisão de leis. Infelizmente o Brasil alcançou a marca de 12 milhões de desempregados e a informalidade cresce a galope.

Imposto sindical

O deputado Rogério Marinho (PSDB-RN) tem grandes ideias para enxertar no seu relatório sobre o PL do Executivo que trata da Modernização da Legislação Trabalhista, que abriga a questão do acordado sobre o legislado e a extensão do trabalho temporário. Pretende, por exemplo, inserir outras modalidades de trabalho, como o trabalho intermitente, e a extinção do imposto sindical. A respeito desse último ponto, há muita expectativa sobre o que dirão as Centrais Sindicais. Na teoria, algumas, como a CUT, condenam esse imposto. A hora da verdade está chegando. A conferir.

Lula vai pra onde ?

Há duas vertentes que expressam visões sobre a posição que assumirá Lula nos próximos tempos : a) a primeira garante que Lula, agora sem a companheira Marisa Letícia, está disposto a correr o país e a reacender as velas da esperança popular. Essa vertente defende sua candidatura à presidência ; b) o segundo grupo acha que Lula não terá, doravante, ânimo para encampar grandes desafios, entre eles, uma candidatura em 2018. O que se sabe é que Luiz Inácio não está morto. Tem vez e voz no PT. E está muito certo quando lembra ao Partido que não deve se restringir ao "Fora, Temer". Defende que o PT tenha um novo projeto de país.

Hartung, o rígido

O motim da polícia do Espírito Santo atraiu as atenções para a expressão e as atitudes do governador Paulo Hartung. Que foi duro ao pregar penas duras aos insubordinados. Chegou a defender a expulsão de mais de 700 policiais. Disse que não negociaria com amotinados. Hartung é um economista que está governando com um olho nos cofres e uma resolução : não gastar o que não tem. Deve melhorar as contas do Espírito Santo. Por enquanto, ficará ainda no PMDB. Depois de uma licença para extrair um tumor maligno, voltou à ativa.

Bons ventos na economia

Indicadores econômicos divulgados recentemente reavivaram o ânimo da classe empresarial brasileira. A começar pela inflação de 0,38% em janeiro, o mais baixo índice para o mês segundo o IBGE, o país começa a vislumbrar um ambiente melhor a partir de 2017. É esperar para ver.

Melhor no 2º trimestre

A queda continuada da inflação resultará no aumento real da renda da população, o que reativará o consumo e, por consequência, a economia. O primeiro semestre, prevêem os analistas econômicos, será de estabilização. No segundo trimestre projeções indicam algum crescimento. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) subiu de 73,1 pontos para 79,3 pontos - a maior alta desde janeiro de 2006.

Três historinhas

Fecho a coluna com três historinhas.

- Condenado à morte por corromper a juventude, Sócrates, o filósofo, recusou a oferta para fugir de Atenas sob o argumento de que seu compromisso com a polis não lhe permitia transgredir as regras. Os gregos cultivavam o respeito à lei.

- Lúcio Júnio Bruto, fundador da República Romana, libertou seu povo da tirania de Tarquínio, derrubando a monarquia. Mais tarde, executou os próprios filhos por conspirarem contra o novo regime. Pregava o poeta Horácio : "Doce e digno é morrer pela Pátria".

- Outro romano, rico e matreiro, conta Maquiavel no Livro III sobre os discursos de Tito Lívio, deu comida aos pobres por ocasião de uma epidemia de fome e, por esse ato, foi executado por seus concidadãos. O argumento: pretendia tornar-se um tirano. Os romanos prezavam mais a liberdade do que o bem-estar social.

Quem se sairia melhor ?

Os relatos sugerem a seguinte pergunta : qual dos três personagens se sairia melhor caso o enredo ocorresse dentro do cenário da política contemporânea ? O terceiro, sem dúvida. Não seria executado por alimentar a plebe, mas glorificado, mesmo que por trás da distribuição de alimentos escondesse a intenção de alongar um projeto de poder. Essa é a hipótese mais provável em países, como o Brasil, de forte tradição patrimonialista e com imensas parcelas marginalizadas e carentes.

Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.