Sexta-feira, 24 de novembro de 2017

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 545

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Abro a coluna com uma historinha de Zeca Boca de Bacia, da Paraíba.

Ficar bom

Zeca Boca de Bacia era a alegria do povo em Campina Grande/PB. Personagem folclórico, amigos de políticos. Dava assessoria informal a Ronaldo Cunha Lima e a seu filho Cássio, prestes a ganhar o mandato de senador. Quando Zeca abria a boca, a galera caía na risada. Certa vez, numa de suas internações na clínica Santa Clara, em Campina Grande, a enfermeira foi logo perguntando:

- Zeca, qual o seu plano (de saúde)?

E ele:

- Ficar bom!

Outra vez, Zeca pegou um táxi em Brasília para ir à casa de Ronaldo Cunha Lima. Em frente à casa do poeta, o taxista cobrou R$ 15. Zeca só tinha R$ 10. Sem acordo, disparou:

- Então, amigo, dê cinco reais de ré!

O bambu flexível

O procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, produziu essa frase que ecoou forte nas entranhas políticas: "enquanto houver bambu, vai ter flecha". Referia-se às flechadas contra o presidente Michel Temer. Pois bem, uma das características do bambu é sua flexibilidade. Não quebra ao vento forte. Curva-se, dobra, vai lá e vem cá, mas não quebra. Não é que uma perigosa flecha de bambu vira bumerangue, voltando-se contra o atirador? As omissões de Joesley Batista na delação que fez à PGR ameaçam revisar ou mesmo anular o destampatório. É o que diz o próprio Janot em tensa entrevista aos meios de comunicação.

O procurador Miller

Pois não é que o ex-procurador Marcelo Miller, braço direito de Janot, estava por trás de toda a armação para gravar a conversa de Joesley com Michel Temer? Pois não é que esse mesmo procurador deixou a PGR para trabalhar como advogado da JBS? Pois não é que as gravações entregues por Joesley à PGR supostamente revelam fatos "gravíssimos" envolvendo Miller e até integrantes do STF? O caso entra na curva e gera uma reviravolta.

Consequências

A Polícia Federal desempenhou tarefa brilhante. Ao pegar as fitas, degravou o que nelas estava apagado. O relatório chegou às mãos do ministro Edson Fachin, que o reenviou à PGR. Tomando conhecimento desse grave fato, o próprio Joesley procurou corrigir a omissão – não ter entregado todo o conjunto das gravações – e mandou as gravações para a PGR. Janot ouviu as conversas que, segundo ele, têm teor "gravíssimo" e sinaliza para a anulação dos benefícios concedidos aos irmãos Batista e ao delator Ricardo Saud, entre outros. Joesley teria feito outras gravações sem saber que as conversas eram gravadas. Poderá ver rompido o escudo em que se abrigou. Observação: o nível das conversas é muito baixo. Choca o imenso desrespeito às instituições.

Frente política

Janot garante que os fatos narrados, mesmo "gravíssimos", não invalidam as provas. Donde surge um contencioso de complexa teia jurídica: como achar que as provas são qualificadas se os delatores são desqualificados? Como considerar que as provas continuam válidas se as operações maquinadas poderão ser consideradas criminosas? O fato é que a delação de Joesley tende a receber forte veto da classe política, inviabilizando impactos que poderiam ocorrer diante de uma segunda denúncia, que cairia certamente nas sombras da suspeição. A impressão é que a casa de Janot desmoronou. Será difícil reconstruí-la rapidamente, antes de 17/9, quando ele deixa a PGR.

A economia

É evidente que uma nova denúncia nas semanas que antecedem a saída de Janot da PGR ganhará fosforescência midiática. Mas a suspeição será fortíssima. A imprensa torce por confusão. A economia, por outro lado, tende a funcionar como colchão de amortecimento de eventual nova denúncia: jornais anunciando fim da recessão, melhoria nos índices de emprego, inflação e juros caindo, confiança de investidores aumentando.

Malas de dinheiro

Mais de 10 malas e caixas com pacotes de notas de R$ 100 e R$ 50. Nunca este consultor viu tanta mala de dinheiro. A PF fez uma blitz em apartamento que, se lê, seria usado por Geddel. Onde isso vai parar, gente?

O vai-e-vem das reformas

A cada semana, as reformas ganham suspiros diferentes: um, de frustração; outro, de alívio. Vejamos a reforma política. Vai ou não vai? Depende. Se for aprovado o fundão – que jorrará dinheiro nas campanhas de 2018 – é possível que vejamos aprovados dois estatutos: o fim das coligações proporcionais e a instalação de cláusula de desempenho. Para complicar, o tempo se estreita. Esta semana da Pátria adia a questão para a outra.

Impedimentos

O que impede a votação de uma reforma política? A vontade da maioria de defender o status quo. Os atuais parlamentares temem perder as condições que têm para enfrentar uma campanha. Com o fim do financiamento empresarial privado, os representantes querem uma compensação. Será difícil, nesse momento, aprovar a volta de doações empresariais. De onde viria o dinheiro de campanha? Resolvida esta questão, seria possível aprovar os estatutos acima citados.

Cláusula de barreira

Os pequenos partidos lutam contra a cláusula de barreira. O relatório da deputada Shéridan (PSDB-RR) prevê o desempenho mínimo de 1,5% dos votos em 9 Estado, chegando a 3% anos depois, lá para 2030. Muito pouco, diz-se. Há emendas que defendem um mínimo de 2,5% de votos em 14 Estados, já em 2018. Quanto às coligações proporcionais, há maior aceitação sobre sua extinção.

Previdência desidratada

Já a reforma da Previdência era um jacaré imenso que, a cada dia, se aproxima do tamanho de uma lagartixa. Se for adiante, poderemos ver uma reforma desidratada, restrita à questão da idade para a aposentadoria (65 anos) para os homens, um pouco menos, (63), para as mulheres e a uma regra de transição, que abrigará os atuais contingentes prestes a completar o tempo atualmente exigido.

O país quebra

Sem as reformas da Previdência e das carreiras do funcionalismo público, o país entrará profundamente no brejo da quebradeira. As despesas obrigatórias irão ultrapassar os 100% do Orçamento já em 2022. As despesas nas frentes dos investimentos, hoje muito pequenas, serão reduzidas gradualmente, passando de 8,2% em 2017 para 2,1% em 2021 e chegando à casa negativa em 2022, quando será de 1,4%. Darão lugar às despesas obrigatórias.

Urgente

Daí a urgência de uma reforma da Previdência. Se a meta for deixada para o próximo presidente, é razoável supor que esse fardo pesará sobre seus ombros, na confirmação da hipótese de que a crise terá continuidade. O futuro seria muito sombrio. O papel do atual presidente é o de abrir o caminho para que o próximo governo navegue com tranquilidade, evitando as borrascas que ameaçam afundar o barco.

Tensão entre Alckmin e Doria

É evidente que o governador Geraldo Alckmin lidera a fila dos pré-candidatos tucanos à presidência em 2018. É forte a ligação entre ele e João Doria. Este consultor tem acompanhado de perto as vidas políticas de ambos e testemunhado o respeito e o carinho que os unem. Mas a política tem regras próprias, entre elas a conveniência, a oportunidade, a noção adequada do tempo. João garante que não disputará prévias com Alckmin. E não o fará. O governador tem preferência na lista do PSDB.

Pesquisas

Mas João Doria nem por isso abandonará a perspectiva de vir a ser candidato à Presidência. Ora, ele tem convite de, pelo menos, quatro partidos, entre os quais o PMDB e o DEM. Tudo vai depender das pesquisas. Se conseguir subir a ponto de ter um bem posicionado índice no ranking – algo entre 12% a 15%, por exemplo – lá pelos meados de março/abril de 2018, e se Alckmin estiver em posição muito abaixo, João, é bem provável, irá adiante. Se Alckmin ganhar números parecidos, João desistiria. Não se descarte a possibilidade de João vir a ser candidato por outra sigla, mesmo que ele se considere tucano de coração. A política é um empreendimento aberto.

O momento

Façamos, agora, outra leitura. Vamos ter na campanha candidatos de campanhas anteriores, entre eles, o próprio Geraldo Alckmin, Marina Silva, Lula ou Fernando Haddad, Bolsonaro, etc. João Doria procura desenhar seu perfil como o anti-Lula, por excelência, sem o viés radical de um Bolsonaro, por exemplo. Que leitura fará o eleitorado?

A imagem de novidade

Um perfil novo, mais asséptico, com fluência, boa estampa. Ou seja, Doria seria um destaque entre os candidatos de jornadas anteriores, já vistas. Com um tempo razoável de TV e rádio e com a capacidade que tem de manobrar nos eixos das mídias sociais, o prefeito de São Paulo teria alta competitividade. Claro, esta é uma leitura de hoje. Amanhã, os tempos poderão ser desfavoráveis a ele. Ou... até mais favoráveis.

Perfis nos Estados

A campanha de 2018 será uma das mais difíceis para candidatos que encarnem a manutenção do status quo e do continuísmo. Estados quebrados, funcionalismo revoltado, serviços precários, principalmente nas áreas de saúde e educação, violência galopante, clima de déjà vue ("já vi e ouvi as falsas promessas") comporão a argamassa conceitual de muitos candidatos. Portanto, novas identidades estarão sendo buscadas pelo eleitor. Exceção: candidatos muito bem (repetimos, muito bem) avaliados pela população. Daí a pergunta: você conhece alguém, caro leitor/eleitor?

Eleitor mais crítico

A cada pleito, a racionalidade cresce na mente do eleitor. E seus efeitos se fazem sentir na crítica mais ácida aos governantes, nas exigências de qualidade dos serviços públicos, nas cobranças e lembranças de promessas não cumpridas. Esse tom mais apurado em relação à política é bem forte nos estratos médios. Que vão empurrando para as margens sua taxa de indignação.

A força do distrito

Mesmo sem a aprovação do voto distrital, é razoável apostar na hipótese de um voto mais local em 2018. Ou seja, candidatos que representem as localidades, bairros e regiões deverão ser bem contemplados, mais que os perfis gerais, aqueles que tendem a ganhar votos em todo o Estado. A distritalização da política é um fenômeno que se consolida na esteira da crise. Os eleitores querem votar em pessoas que conheçam bem, em representantes que defendam as causas de regiões e grupamentos.

Campanhas menos fosforescentes

Já as campanhas eleitorais serão menos fosforescentes: menos cinematográficas, com menos firulas e enfeites midiáticos e mais voltadas para coisas e causas reais, concretas, assimiláveis pelo eleitor. O marketing elevará os discursos e deixará com menor efeito na forma de espetáculo. Menos dinheiro nas campanhas redundará em mais sola de sapato para os candidatos. Pé na rua, mão a mão.

Fusão Time Warner e At&T no Chile

A Fiscalía Nacional Económica do Chile (FNE, o órgão chileno de defesa da concorrência) aprovou a aquisição da Time Warner pela AT&T. "A fusão entre as empresas combinará conteúdo de qualidade e infraestrutura para entrega deste conteúdo no dispositivo que o consumidor escolher", garante David McAtee, vice-presidente executivo sênior e conselheiro geral da AT&T. A FNE aprovou a fusão com condições comportamentais para endereçar questões específicas relacionadas a concorrência identificadas durante a análise da operação.

17 autorizações

A aprovação não exige a venda ou desinvestimento de quaisquer ativos da AT&T ou da Time Warner. Com o aval do Chile, a fusão entre AT&T e Time Warner recebeu aprovação de 17 autoridades de defesa da concorrência que analisaram a transação em todo o mundo. "Ficamos satisfeitos com o cuidadoso trabalho realizado pela FNE para analisar e aprovar essa fusão com base nos seus benefícios para a competição no Chile e, mais importante, para os consumidores chilenos", arremata McAtee. Além dos EUA, só falta o Brasil.

Fecho a coluna com uma historinha do Maranhão.

Por onde começar?

O desembargador Deoclides Mourão, tio do poeta Gerardo Mello Mourão, fez acordo com Urbano Santos para governador do Maranhão. Eleito, Urbano não cumpriu nada. Deoclides Mourão mandou-lhe uma carta:

– Senhor governador, diz o povo que o homem se pega pela palavra, o boi pelo chifre e a vaca pelo rabo. Supondo não ter V. Exa. nenhum desses acessórios, não sei por onde começar.

Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.