Terça-feira, 22 de maio de 2018

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 573

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Abro a coluna com a verve mineira.

Mudou de nome?

Mariana, em Minas Gerais, já foi chamada de Roma brasileira. Terra de fé e de velhas igrejas. E cheia de placas com nomes engraçados nas ruas:

- Cônego Amando

- Armando Pinto

Cônego Amando era conhecido pela verve. Um dia, viajando pelo interior do município, uma de suas acompanhantes caiu do cavalo. Rapidamente ficou em pé. Meio sem graça, perguntou ao Cônego:

- O senhor viu a minha agilidade?

- Minha filha, respondeu, eu até que vi. O que eu não sabia é que tinha mudado de nome. (Historinha de Zé Abelha em A Mineirice)

Dispersão do centro

As perspectivas não são muito boas para o centro político. Considerava-se, dias atrás, que a articulação seria mais intensa com vistas à integração dos candidatos do centro e consequente união em torno de um único perfil. Não é o que se vê. As estocadas entre lideres e pré-candidatos dos partidos de centro se avolumam, a ponto de quebrarem algumas vigas da ponte de aproximação. PSDB e DEM praticamente têm um oceano a separá-los. E tucanos e peemedebistas também permanecem distantes.

Margens ganham força

Com a dispersão dos candidatos centrais, as margens ganham força. Bolsonaro vê seu nome ganhando cada vez mais visibilidade e anunciado como forte candidato ao segundo turno. Já na esquerda, mesmo com Lula na prisão e inviabilidade de sua candidatura, os candidatos do lado esquerdo do arco ideológico adquirem musculatura. Ciro Gomes e Marina entram no rol de probabilidades. Ciro, mais loquaz e preparado, Marina, estampando mais ética, porém, com estrutura precária de campanha, avançam na direção dos grandes contingentes eleitorais.

Bolsonaro segura ou não?

É a pergunta que se ouve de todos os lados. Terá poucos segundos de TV e rádio. Mas ganhará ampla cobertura das redes sociais. A projeção desse consultor é a que Bolsonaro está atingindo seu teto. Poderia até ganhar mais volume caso o candidato da margem esquerda seja alguém do PT. A lógica da eleição é a de que os candidatos com maior espaço de comunicação - grandes partidos - ampliem seus índices de intenção de voto. Geraldo Alckmin, por exemplo. Álvaro Dias, caso dispusesse de um bom tempo de mídia eleitoral, teria chances de crescer. Sob essa perspectiva, e sob critérios lógicos, Bolsonaro não segurará seus índices. Mas o imponderável sempre abre uma portinha para aparecer.

A maré vem das margens

O fato é que as margens ganharão amplitude inusitada no pleito deste ano. Respira-se um clima de saturação. A água parece poluída em todos os rios e córregos da política. As vontades convergem para a abertura de novos poços. Todos querem beber de uma nova fonte. Há um empuxo das margens criando marolas em direção ao centro. As classes médias, que formam as ondas de opinião, também estão saturadas. Infelizmente, por falta de perfis novos, não vamos ainda inaugurar a Era das Inovações. Mas os ventos que soprarão das margens serão suficientes para arejar os jardins da política.

O que falta a cada um

Geraldo Alckmin (PSDB): maior arrojo, maior visibilidade nacional, discurso avançado, compromissos com reformas, mais sal no tempero do discurso.

Jair Bolsonaro (PSL): posições menos retrógradas, direcionadas ao Brasil das mudanças e não compromisso com o conservadorismo, menos artilharia no discurso.

Ciro Gomes (PDT): controle da expressão, cuidado para não ferir brios das classes centrais, maior disposição para o diálogo, menos propensão a briga de botequim.

Marina Silva (Rede): menos suavidade e mais pluralismo no discurso, de forma a ampliar os eixos temáticos, maior capacidade para fazer parcerias e disposição para enfrentar a real politik.

Álvaro Dias (Podemos): maior visibilidade nacional, discurso afinado às demandas sociais e regionais, articulação para adensar parcerias.

Rodrigo Maia (DEM): ser conhecido em todo o Brasil; consolidar parcerias que o apoiam, abrir o discurso para temáticas sociais.

Manuela D'Ávila (PC do B): convencer que tem experiência administrativa, mostrar domínio sobre temas nacionais, formar parcerias.

Guilherme Boulos (PSOL): demonstrar que não é apenas "fogueteiro" ou ocupador de áreas publicas e privadas, abrir o discurso.

Paulo Rabelo (PSC), João Amoedo(Novo) e Flávio Rocha(PRB): maior inserção do discurso nas áreas sociais, visão mais plural do Brasil, ao lado do domínio temático em matéria de economia.

Michel Temer (MDB): articulação para viabilizar a candidatura; esforço para mostrar os avanços do país em dois anos de governo; visitar com frequência as regiões.

Henrique Meirelles (MDB): capacidade de articulação para viabilizar sua candidatura junto aos partidos de centro, mobilidade, discurso mais afeito ao dia a dia da população, capacidade para decodificar economês ao nível popular.

Guilherme Afif (PSD): convencer o PSD que é candidato pra valer; correr o país, abrir o discurso.

Aldo Rebelo (Solidariedade): convencer o partido que é candidato pra valer; correr o país, abrir o discurso.

Fernando Collor (PTC): convencer que seu perfil respira o espírito do tempo, convencer o partido que é candidato pra valer.

José Maria Eymael (PSDC): Convencer que sua candidatura desta feita não vai se restringir ao famoso jingle.

Fernando Haddad, Jaques Wagner ou outro perfil do PT: substituir o discurso do "nós e eles" pelo discurso na união nacional; reconhecer os erros cometidos pelo PT e evitar o exclusivismo nos domínios da política e do poder.

Lula: liberar o PT para realizar o plano B (substituto) e aceitar as regras do jogo judicial, evitar discurso do ódio e da revanche.

Pleito na CNC

Pela importância do pleito que se realizará em setembro para o comando da CNC, a coluna abre espaço para comentar o evento.

Fechamento de um ciclo

Aos 92 anos, sendo os últimos 38 anos à frente da Confederação Nacional de Comércio de Bens, Serviços e Turismo, Antônio Oliveira Santos deixará o cargo. Trata-se da poderosa entidade patronal, liderando 27 FECOMÉRCIOs nos Estados e sete Federações nacionais de serviços, cerca de mil sindicatos e estruturas do SESC e SENAC espalhadas em todo o país. No fechamento do ciclo que consolidaria seu legado, Antônio Oliveira não conseguiu consenso e pode perder o protagonismo de abrir uma era de renovação, projetando o sistema para o futuro.

Oxigênio na potência

O sistema CNC destaca-se por sua força econômica. Mas há muita reclamação por ser uma entidade fechada e pouco atuante na efetiva defesa dos representados. As empresas ressentem-se de pouco espaço para participação. A hora é de suprir oxigênio na potência.

Patrimonialismo

A tendência do presidente que sai é a de apoiar uma chapa encabeçada por José Tadros, presidente da FECOMÉRCIO-AM há 36 anos. Eleito por seis sindicatos com os quais tem profundas relações, Tadros representa a continuidade de uma atuação patrimonialista. Com processos em investigação no TCU, uma liminar do TRF da 1ª região o mantém na disputa.

Forte atuação no Congresso

O outro candidato é o deputado Laércio Oliveira, Presidente da FECOMÉRCIO-SE. Laércio tem atuado como principal interlocutor do setor de comércio e serviços junto aos poderes públicos e outros setores empresariais. Com reconhecida atuação no Congresso e sem ser populista, Laércio foi relator da Lei da Terceirização, defendeu a reforma trabalhista, liderou resistência ao aumento do PIS/COFINS para os serviços e está na presidência da Comissão do Código Comercial. Trata-se de um candidato "ficha limpa".

TST e o desequilíbrio

As sete Federações de Serviços filiadas à CNC, representando parcela expressiva de empregos e contribuições para o sistema, querem ter direito a votar individualmente. Hoje, de acordo com estatuto da CNC, todas juntas têm um voto apenas. As entidades conseguiram decisões judiciais favoráveis em primeira e segunda instâncias, mas aguardam recurso da presidência da CNC ao TST, que precisa ser julgado antes de setembro.

Hora da decisão

O cenário atual é de equilíbrio, caso o TST não decida a tempo. Se as Federações de serviços puderem votar individualmente, o cenário é amplamente favorável a Laércio, que conta com apoio majoritário das FECOMÉRCIOs do Sul, Sudeste, Centro Oeste e parte do Nordeste. Tadros tem sua força no Norte e parte do Nordeste. A forte representatividade associada a Laércio, além do apoio empresarial e da classe política, tendem a puxar apoios para garantir a eleição. A eleição ocorrerá em setembro, mas praticamente será definida em junho.

Força ao comércio e serviços

Laércio tem conseguido alta adesão da base empresarial às suas propostas. No campo eleitoral, quer limitar a uma reeleição para o mesmo cargo na CNC. No campo institucional, sua proposta é fortalecer a atuação da entidade com maior participação das bases representativas e ampliar a comunicação, dando a ela a dimensão que a Indústria e a Agricultura têm na atuação no Congresso e no Executivo. No campo negocial, pretende apoiar a reestruturação dos sindicatos e sua capacidade de negociação no pós-reforma.

Educação e tecnologia

No SESC e no SENAC, seu foco principal será a educação e a necessidade de investimentos para a rápida atualização tecnológica das entidades, visando preparar trabalhadores e empresas para as transformações da economia digital. Laércio atuou na defesa do sistema S. Acredita que, como o Sistema sofre questionamentos, precisará no próximo ciclo dar respostas rápidas e se mostrar cada vez mais útil para a sociedade.

Marketing eleitoral

Porandubas abre espaço para o marketing eleitoral.

Estratégias e táticas

Candidatos de todos os partidos ganham força quando estabelecem um bom planejamento de suas campanhas. Pequeno roteiro:

- Buscar o apoio de entidades organizadas da municipalidade - sindicatos, associações, Federações, clubes, movimentos, núcleos;

- Montar sistema de aferição (pesquisa) de modo a mapear demandas e interesses dos bairros e regiões;

- Estabelecer um programa abrigando ações e projetos específicos para as áreas e elegendo como focos determinados setores da sociedade (mulheres, crianças, jovens, etc.);

- Criar agenda de eventos - pequenos eventos, bem articulados, com pequenos grupos, de forma a estabelecer forte interação entre os interlocutores; mais eventos pequenos funcionam melhor que eventos grandes;

- Criar forte identidade - eleger dois ou três grandes eixos que possam identificar rapidamente o candidato, de forma a estabelecer um diferencial em relação a outros;

- Escolher um grupo de conselheiros entre os nomes mais respeitados da comunidade e que sirva de referência;

- Estabelecer um fluxo de comunicação para a campanha, obedecendo aos ciclos: lançamento do nome; crescimento da campanha; consolidação da visibilidade; maturidade; clímax da campanha e declínio. Deixar volumes maiores para as últimas fases;

- Formar ampla rede de apoiadores/cabos eleitorais de confiança, fazendo com que cada eleitor seja, ele mesmo, um cabo eleitoral;

- Formar uma teia de divulgadores/trombetas de campanha, pessoas que começam a falar das virtudes e qualidades do candidato, de modo natural, conquistando, assim, a simpatia dos ouvintes. Sem demonstrar arrogância;

- Planejar o dia D. Dia das Eleições. Logística, visibilidade/publicidade (controlada), sistemas de articulação/mobilização/apuração, etc.

Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.