Sábado, 19 de agosto de 2017

ISSN 1983-392X

Euclides da Cunha às voltas com o Direito

Que o ditado popular é verdadeiro, ninguém duvida – tanto para o bem como para o mal. Mas um caso digno de nota na história é o de Euclides da Cunha. Apesar de não ter formação jurídica, sua vida e obra perpassaram o direito graças, em grande parte, às companhias que teve.

quinta-feira, 18 de junho de 2009


Euclides da Cunha às voltas com o Direito

Dize-me com quem andas, dir-te-ei quem és !

Que o ditado popular é verdadeiro, ninguém duvida – tanto para o bem como para o mal. Mas um caso digno de nota na história é o do engenheiro Euclides da Cunha. Apesar de não ter formação jurídica, sua vida e obra perpassaram o Direito graças, em grande parte, às companhias que teve.

Ouvintes de folhetim

Conta o jornalista Viriato Correia, após entrevista realizada com Euclides, que a história d' "Os Sertões" foi ouvida em primeira mão por um juiz de Direito. Entre um cálculo matemático e outro, a respeito da reconstrução de uma ponte em São José do Rio Pardo, na qual estava empenhado, o engenheiro pôs-se a escrever seu livro : "a todo o momento tinha que levantar-se, para vir ver a marcha do trabalho da ponte, que se ia erguendo, quando estava num trecho, desses com que os escritores se torturam e dão um pedaço de vida para acabá-lo, eis que um operário vinha chamá-lo para resolver uma dificuldade. Apesar disso, Os Sertões ia caminhando. À tarde o juiz de direito, o presidente da Câmara Municipal, mais duas ou três pessoas de Rio Pardo, reuniam-se à casinha de Euclides, para ouvir o folhetim".

Quando a ponte ficou pronta, ficou pronto também o livro. Nessa época, Euclides da Cunha não se reconhecia como escritor. Foi o julgamento que fizeram os "ouvintes do folhetim" sobre a obra que impulsionou a publicação de "Os Sertões". Euclides "resolveu publicá-lo. O juiz de direito, o presidente da Câmara do Rio Pardo e o matuto do 'estouro' haviam-lhe dito que o livro era bom".

Companheiros de cadeira

Em 1902, após um grande trabalho de revisão, a obra chega às livrarias. A primeira edição se esgota em pouco mais de dois meses. A repercussão é tão grande que em 1903 Euclides da Cunha é eleito para ocupar a cadeira nº 7 da ABL, cujo patrono é Castro Alves.

Quatro anos depois, no dia 2 de dezembro de 1907, outro episódio ligaria Euclides da Cunha ao Direito. O autor foi convidado pelo glorioso Centro Acadêmico XI de Agôsto, da Faculdade de Direito de São Paulo, a proferir uma palestra sobre o patrono de sua cadeira, Castro Alves, poeta que havia passado pelos bancos do Largo S. Francisco - clique aqui.

Não bastasse, em todo o tempo que esteve na ABL (1903-1909), Euclides conviveu com pessoas ligadas ao meio jurídico, dentre eles : Rui Barbosa (cadeira nº 10), Lúcio de Mendonça (cadeira nº 11), Araripe Júnior (cadeira nº 16), Sílvio Romero (cadeira nº 17), Mário de Alencar (cadeira nº 21), Lafayette Rodrigues Pereira (cadeira nº 23), Joaquim Nabuco (cadeira nº 27) e Vicente de Carvalho (cadeira nº 29).

Evidente que tal convivência trouxe à mente de Euclides preocupações acerca da disciplina da convivência humana. Isso tanto é verdade que, em 1907, com a publicação do livro "Peru versus Bolívia" percebemos a observação de Euclides diante da discussão legal sobre a definição das fronteiras geográficas dos dois países.

Interessante notar que nessa ocasião a Argentina foi escolhida para arbitrar os limites estabelecidos a cada um deles. E esse fato - talvez a primeira vez que se viu uma arbitragem na América do Sul - foi mostrado por Euclides da Cunha.

Vida e morte nos tribunais

Por fim, até na morte Euclides da Cunha esteve ligado com questões jurídicas. Com efeito, Euclides foi morto no dia 14 de agosto de 1909, pelo tenente, sobrinho e amigo Dilermando de Assis. Assim, o boletim da ocorrência, juntamente com o atestado de óbito, serviram de material para a ação penal que terminou em polêmico júri que movimentou a sociedade na época. Era a "Tragédia da Piedade".

O sucesso que faltou a Euclides em sua vida amorosa, sobrou nos trabalhos que desenvolveu. O engenheiro mostrou ter habilidade não apenas nas áreas exatas, mas também em assuntos ligados a humanidades. Na próxima matéria, vamos mergulhar na visão geográfica e social de Euclides da Cunha.

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Livro Migalhas de Machado de Assis

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Leia mais

  • 3/7/09 - A soberana decisão - clique aqui.
  • 2/7/09 - Júri popular - clique aqui.
  • 1º/7/09 - O libelo acusatório e a contrariedade ao libelo - clique aqui.
  • 30/6/09 - A denúncia e a pronúncia do réu - clique aqui.
  • 29/6/09 - Para matar ou morrer - clique aqui.
  • 29/6/09 - Euclides da Cunha: a cidade da Campanha, os amigos e o direito - clique aqui.
  • 26/6/09 - O estopim da guerra de Canudos - clique aqui.
  • 25/6/09 - Legislativo e Judiciário em Canudos - clique aqui.
  • 24/6/09 - O curioso caso do vaqueiro - clique aqui.
  • 23/6/09 - Antônio, conselheiro jurídico - clique aqui.
  • 22/6/09 - O olhar econômico de Euclides da Cunha - clique aqui.
  • 19/6/09 - O olhar geográfico e social de Euclides da Cunha - clique aqui.
  • 18/6/09 - Euclides da Cunha às voltas com o Direito - clique aqui.
  • 18/6/09 - Euclides da Cunha nas Arcadas - Íntegra da conferência "Castro Alves e seu tempo", proferida em 2/12/1907 - clique aqui.

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