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ISSN 1983-392X

178º aniversário da tragédia que abalou a família Junqueira

Antonio Clarét Maciel Santos

Não há quem não conheça alguém da Família Junqueira, quer por laços de parentesco, quer por amizade, quer por negócios, quer no mundo jurídico, quer, ainda, em virtude da criação do cavalo mangalarga marchador. Também, pudera, desde 1750 essa tradicional família nos é bem conhecida.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

178º aniversário da tragédia que abalou a família Junqueira

Antonio Clarét Maciel Santos*

Não há quem não conheça alguém da Família Junqueira, quer por laços de parentesco, quer por amizade, quer por negócios, quer no mundo jurídico, quer, ainda, em virtude da criação do cavalo mangalarga marchador. Também, pudera, desde 1750 essa tradicional família nos é bem conhecida. Tudo começou naquele ano com a chegada de João Francisco Junqueira diretamente de Portugal para São João Del Rey, onde contraiu casamento em 1758.

Posteriormente, obteve junto à Coroa Portuguesa uma sesmaria na região da Vila de Carrancas, região do sul de Minas Gerais, extensa área de terras com mais de 27 quilômetros quadrados, erigindo as Fazendas Campo Alegre e Favacho, onde nasceram seus filhos, sendo que em virtude de partilhas e doações futuras fundaram-se novas Fazendas, Angahy, Traituba, Narciso, Jardim, Campo Bello, Cafundó, Atalho, Campo Lindo e Bella Cruz, hoje compreendidas em municípios de Carrancas, Minduri, Cruzilha e Baependi.

A privilegiada situação geográfica das fazendas, especialmente Favacho e Campo Alegre, localizadas à margem do Caminho Velho que ida de Paraty à Ouro Preto, fez com elas evoluíssem com rapidez, pois, além de exportar para a cidade do Rio Janeiro cavalos, fumo, mantimentos como arroz, milho, feijão, carne, forneciam tais produtos para os tropeiros que transitavam por aquele caminho, num intenso tráfego entre as Minas Gerais e a sede da colônia. O sucesso econômico, por óbvio, era proporcionado pela mão de obra escrava, presente em grande quantidade em todas as sedes. Consta que na Campo Alegre, em 1839 a escravaria atingia 103 negros e uma média de 30 nas demais.

O prestígio econômico deu ensejo ao prestígio político social, sendo que o filho caçula do patriarca, Gabriel Francisco Junqueira, enveredou-se para a política do Império, tendo sido eleito por três legislaturas, sob o pálio do Partido Liberal, Deputado Provincial junto à Corte, estabelecida no Rio de Janeiro, desde 1808. Gabriel, que residia na Campo Alegre, teve participação efetiva na Revolução Liberal de 1843, reunindo grande exército de negros e brancos simpatizantes na região de Baependi, para combater as tropas imperiais sob o comando de Duque de Caxias. Ainda hoje, nos arredores dessa cidade podem-se ver trincheiras de pedras erigidas pela "Coluna Junqueira". Apesar se fazer oposição ao Governo Imperial, primeiramente a Dom Pedro I, à Regência e a Dom Pedro II, em 1848 foi agraciado com o título de Barão de Alfenas.

Um trágico evento abalou consideravelmente a Família Junqueira em 13 de maio de 1833. Conhecido como "Massacre da Bella Cruz", "Levante da Bella Cruz", "Caso de Carrancas", "A Revolta de Carrancas", na verdade, o fato teve início na Fazenda Campo Alegre, estendendo-se por outras, dentre as quais, Jardim e Bella Cruz.

Marcos Ferreira de Andrade, historiador e conhecido professor em Universidades do Brasil, elaborou alentado estudo sobre o caso, a partir de pesquisas efetuadas nos originais do processo criminal instaurado após a tragédia, o qual se encontra digitalizado na sua totalidade, em São João Del Rey. Assim, segundo o historiador, naquele dia, um grupo de escravos, liderados por Ventura Mina, assassinou Gabriel Francisco de Andrade Junqueira, filho do Deputado, este ausente na ocasião, pois estava no Rio de Janeiro e aquele lhe sucedia na lida diária da Fazenda. Na sequência, o grupo tentou adentrar a casa grande para prosseguir na sina macabra contra os demais membros da família, no que foi contido por cativos fiéis e "capitães do mato".

Diante da resistência, os negros, agora com mais adesões obtidas junto à senzala daquele local, dirigiram-se à Fazenda Bella Cruz onde, com requintes de crueldade, mediante uso de paus, foices, machados e mesmo armas de fogo, agrediram até a morte todos os integrantes da família, desde Jose Francisco Junqueira, sua mulher, Manoel Jose da Costa e sua mulher Emiliana Francisca Junqueira, os filhos destes, um com cinco meses, outro com dois anos de idade e mais outros menores e idosos, totalizando nove pessoas. Na sequência os criminosos, a caminho da Fazenda Jardim, assassinaram Francisco da Costa.

O principal agressor e idealizador do massacre, o cativo Ventura Mina, foi morto em um dos embates com escravos na terceira fazenda, a Jardim, onde seu proprietário João Cândido da Costa Junqueira, alertado, havia erigido forte resistência.

Instaurou-se o devido processo criminal a pedido do Deputado Gabriel Junqueira junto à comarca de Carrancas, sendo que 16 dos criminosos foram condenados à morte por enforcamento, cuja execução ocorreu na Vila de São João Del Rey.

As causas desse massacre, ainda hoje são objeto de teses, pesquisas e estudos. Alguns entendem que a revolta ocorreu em virtude das condições precárias dos cativos nas referidas Fazendas, sendo que os líderes tinham conhecimento de situações semelhantes ocorridas em outros lugares da colônia e lutavam pela alforria, o que seria nos dias de hoje o denominado bullying. Há tese que indica Ventura Mina como antigo rei africano, portanto exercente de domínio sobre os colegas. Outra tese caminha no sentido de que o massacre teve motivação política, como represália de opositores do Deputado Gabriel Junqueira, integrantes do Partido Conservador, vencidos por aquele por grande maioria de votos nas eleições de 1831, fato que teria, inclusive aborrecido e considerado uma das causas da abdicação de D. Pedro I em abril daquele ano.

O certo é que, insofismavelmente, a Família Junqueira, com raízes em nosso solo sul mineiro, superou esse episódio e se expandiu pelo Brasil inteiro, principalmente no Estado de São Paulo onde são tidos como fundadores de cidades, como Ribeirão Preto, Orlândia, São José do Rio Pardo, Lins, Junqueirópolis e muitos outros rincões.

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*Advogado



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