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ISSN 1983-392X

O presente do corregedor

Marcos Mairton

Receber presente desembrulhado não tem graça. Confira a humorada crônica.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Consta que, em uma pequena comarca do interior do Nordeste brasileiro, o comando do que havia ali de Poder Judiciário estava sob os cuidados do doutor Bernardino. Aos cinquenta e três anos de idade, Bernardino era um dos muitos juízes cujos casamentos foram se desfazendo à medida que a carreira se construía. Mudanças frequentes de uma comarca para outra, dedicação demasiada ao trabalho, estresse, várias foram as causas que fizeram com que houvesse passado por três casamentos, todos encerrados prematuramente, até que desistira da vida conjugal.

Já havia quase cinco anos que vivia sozinho. Sozinho – entenda-se – não que tenha se tornado celibatário. Afinal, embora muitos digam que a magistratura é um sacerdócio, Bernardino era juiz, e não padre. Esquivava-se, portanto, de toda e qualquer possibilidade de relacionamento estável ou compromissos de exclusividade, mas não abria mão de suas experiências com mulheres dos mais variados perfis. O que ele não queria mesmo era casar de novo. Assim, tratava de encerrar qualquer namoro que durasse mais de dois meses ou quatro encontros, o que ocorresse primeiro.

Mesmo assim, uma jovem senhora acabou achando um furo nessa defesa. Aos trinta e nove anos, Maria do Carmo, chamada Carminha, viúva, mãe de dois filhos adolescentes, era uma bela mulher, e demonstrava, através de palavras, atos e omissões, que também não tinha interesse em casar novamente. Gostava de estar com Bernardino, de passear com ele, de ir com ele à capital, mas deixava bem claro que homem para dividir o teto com ela, só os dois filhos, e somente enquanto não casassem.

E foi assim, com esse compromisso de não ter compromisso, que o romance entre Bernardino e Carminha se foi prolongando. Já durava mais de seis meses, o que para ele era um recorde, desde a última vez que se separara.

Mas havia outro segredo para esse romance estar se tornando tão duradouro: era o sexo. Talvez fosse mais elegante dizer que o tal segredo estava na alcova, mas isto seria limitar a criatividade de Carminha, que adorava inovações quanto ao lugar onde se entregar aos prazeres carnais. Já haviam frequentado todos os motéis e hotéis da região, além de se aventurarem em lugares ermos, às vezes dentro do carro, às vezes sobre ele. Aliás, bastava que os filhos de Carminha viajassem à casa da avó - que morava na capital - para que a sala, a cozinha e até o jardim de sua casa virassem cenário para seus jogos sensuais.

No começo, Bernardino estranhou um pouco. Preocupava-se que alguém os visse e que isso gerasse algum comentário na cidade. Mas, logo se acostumou com a disposição de Carminha e passou ele mesmo a apreciar a brincadeira de fazer sexo em lugares exóticos. Resistia, porém, à ideia de praticar suas aventuras sexuais em seu gabinete, no fórum, embora Carminha tocasse no assunto com certa frequência.

– Não, Carminha. No fórum não. O prédio é muito pequeno, os servidores vão perceber e isso não ficaria bem. Além do mais, você conhece o ditado que diz: "Onde se ganha o pão não se come a carne".

– Pode ser depois do expediente, Dino, quando todo mundo sair... Embora que, com todos lá, seria mais emocionante! Você ainda vai ver. Você diz que não quer, mas depois é o mais animado.

E assim o tempo foi passando, até que Bernardino recebeu um comunicado de que haveria correição em sua vara. Juiz experiente e responsável que era, não tinha grandes preocupações em relação aos seus processos, mesmo porque na comarca não havia lá muito movimento, mas cuidou de se preparar para a chegada do corregedor.

Como a estrutura do prédio onde a Justiça estava sediada não era das melhores, a única sala onde o corregedor poderia se instalar com algum conforto era o próprio gabinete do juiz. Pelo menos tinha banheiro e ar-condicionado. Bernardino retirou então todos os seus pertences particulares, mandou fazer uma faxina especial na sala e até trocou o espelho do banheiro, tudo para que o corregedor se sentisse o melhor possível nos dias em que permanecesse ali.

O esforço de Bernardino valeu a pena. O desembargador-corregedor, um juiz de carreira nas proximidades da aposentadoria compulsória, era um homem religioso, adepto da Ordem dos Franciscanos, e preferia os ambientes rústicos ao luxo e à ostentação. Assim, sentiu-se à vontade no lugar que lhe fora reservado.

O tempo passou depressa e logo se chegou ao último dia da correição sem quaisquer intercorrências ou sobressaltos.

Ocorreu que, por esse tempo, Carminha havia feito uma visita à mãe, na capital, demorando-se ali por vários dias e retornando exatamente quando Bernardino estava dedicado a cuidar para que tudo corresse bem nos momentos finais da correição. Depois de quase quinze dias de viagem, ela estava realmente saudosa de seus encontros amorosos com Bernardino. Mal chegou à casa, banhou-se, perfumou-se, arrumou-se toda e telefonou para o namorado, com a intenção de avisar que queria vê-lo.

Mas ninguém atendeu. Tentou mais uma, duas vezes, e nada. Não suportando esperar, desligou o telefone e precipitou-se em direção ao fórum. A distância não era de mais que três quadras. Como todos já a conheciam ali, Carminha foi dando boa tarde e entrando, até chegar ao gabinete do juiz. Deu duas batidas na porta e abriu. Ninguém. Entrou na sala, atravessou-a e alcançou o trinco da porta do banheiro. A porta estava fechada por dentro.

Foi então que Carminha teve a ideia de fazer uma surpresa inesquecível para Bernardino. Trancou a porta da sala por dentro, tirou toda a roupa, deitou-se sobre a mesa do juiz, em decúbito frontal, com as mãos sob a cabeça, e ficou de olhos fechados, esperando ouvir o ruído da porta do banheiro se abrindo.

Não precisou esperar muito. Ao ranger da porta, disse languidamente, sem abrir os olhos:

– Amorzinho! Presentinho para você!

Ao ver a mulher deitada ali, nua, o corregedor, que saía do banheiro, quase desmaiou de susto. Ficou mudo por alguns instantes, até recuperar os sentidos e dizer vacilante:

– Com… Com licença.

E saiu da sala o mais rápido que pôde, tropeçando nas cadeiras e tirando o lenço do bolso para enxugar o suor.

Na saída, encontrou-se com Bernardino, que vinha apressado, advertido que fora por um servidor, da presença de Carminha em seu gabinete. Antes que Bernardino dissesse alguma coisa, o corregedor falou nervosamente:

– Doutor Bernardino, o senhor é um homem muito gentil, mas se era para exagerar no presente, que pelo menos mandasse entregar embrulhado. Boa tarde!

E foi embora para não voltar mais. O fato não foi mencionado no relatório da correição.

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* Marcos Mairton é escritor, compositor e juiz Federal em Quixadá/CE.






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