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À procura do bom senso

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Atualizado às 07:41

Neste último artigo do ano, levanto uma questão que deveria estar na ordem do dia: onde está o bom senso nesta nossa sociedade capitalista e democrática? Distorções, decisões absurdas com consequências disparatadas. E parece que vamos nos acostumando.

Bom senso é um conceito ligado às noções de sabedoria e de razoabilidade. Ele diz respeito a capacidade da pessoa de fazer bons julgamentos e escolhas levando em consideração a realidade social, natural e humana e também as normas legais, morais e costumeiras, avaliando causas e consequências.

Seria, posso dizer, uma forma de pensar ou filosofar natural do indivíduo na análise da experiência da vida cotidiana. É algo intuitivo e que envolve pensar a fazer a coisa certa.

Não se deve confundir bom senso com a ideia de senso comum. Este pode, às vezes, até refletir uma opinião errônea e preconceituosa sobre determinado objeto. Já o bom senso está ligado à ideia de sensatez.

Aristóteles dizia que o bom senso é um elemento central da conduta ética. Uma capacidade virtuosa de achar o meio termo e distinguir a ação correta.

Já apontei em outro artigo que se pode ter dificuldade de encontrar a inteligência humana. E o mesmo pode ser dito relativamente ao bom senso.

Vejamos mais uma vez a democracia, no incrível caso do Brexit, que está encalacrado. O resultado do referendo/plebiscito1 no Reino Unido que resultou no episódio da saída da União Europeia foi uma catástrofe.

Dos 46,5 milhões de eleitores, apenas compareceram às urnas 72,2% (33,5 milhões). Desses, 51,9% votaram pela saída do bloco europeu e 48,1% pela permanência. Feitas as contas, o resultado é que apenas 17,4 milhões de eleitores ou seja, 37,47% do total, votaram a favor da saída. "Ampla" minoria, portanto (e ainda por cima, segundo pesquisas, foram os mais velhos que votaram, deixando essa herança para os mais jovens).

Com tanta gente cuidando do mesmo assunto, com tantos pensadores ingleses, escoceses, europeus etc., como é que foram organizar um plebiscito, cujo resultado seria tão importante, com a possibilidade de que a decisão pudesse se dar com tão pequena margem de votos e sem levar em consideração a participação percentual dos votantes em relação à população? E ainda por cima num turno só?

Outro exemplo: o empresário Elon Musk está investindo cerca de 10 bilhões de dólares para levar alguns outros bilionários a passear até a lua2. No projeto intitulado Space X, o primeiro a se aventurar será o magnata japonês Yusaku Maezawa. O lançamento está previsto para 20233. Até esse ano de 2023, quantos seres humanos terão morrido por falta de alimentos, problemas de saneamento básico e coisas simples como ingerir água potável?

Pois é. Temos aviões supersônicos, espaçonaves que frequentam planetas distantes, bombas nucleares espetaculares (e perigosíssimas), mas não conseguimos combater simples mosquitos que picam e matam as pessoas (Sei que não é tão fácil combater esses "bichinhos", mas fica a constatação).

Houve avanços como aqui já coloquei. Você leitor, deve lembrar que, antigamente, era permitido fumar dentro dos aviões. Mas, claro, apenas em parte das poltronas. Por exemplo, da de número vinte até a número 40. Nas demais, não podia. Só esqueciam de dizer para a fumaça que ela ficasse alojada nos mesmos compartimentos. Era o mesmo em restaurantes.

E o irmão de meu amigo, que é engenheiro, teve sua carteira de habilitação suspensa por ter furado o rodízio algumas vezes no período de um ano. Chateado, cumpriu o ritual exigido para poder dirigir novamente. Quando foi ao posto do Detran, gostou do que viu: tudo se deu de forma organizada e rápida. Mas, não é que o funcionário fez com que ele escrevesse um texto a mão, a partir de um ditado? Ele perguntou: "Pra que isso?". "Para provar que o senhor saber ler e escrever". "Mas eu sou engenheiro. E, na verdade, tenho carteira de habilitação há 20 anos". Não adiantou, teve que escrever o ditado.

Incoerência e falta de bom senso. Se olharmos bem, encontraremos muitos exemplos em todo lado. É um bom exercício de observação. Há muita coisa ruim acontecendo pelo mundo afora e uma incrível falta de bom senso.

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1 Estou usando os termos de forma indiscriminada, embora haja alguma diferença entre eles: como se sabe, o plebiscito é utilizado para consulta sobre tema que esteja numa fase anterior à elaboração de alguma lei proposta pelo governo ou parlamento. Referendo é uma consulta popular, no qual a população se manifesta sobre uma lei ou ato constituído, ou seja, é uma votação convocada para ratificar ou rejeitar o que já existe.

2 Spacex, de Elon Musk, vai levar milionário e artistas para a lua. Há dúvidas se o custo será de 10 ou 5 bilhões de dólares. Ver próxima nota. Mas, claro, isso não importa muito.

3 Magnata japonês Yusaku Maezawa será primeiro turista lunar da SpaceX.