Quarta-feira, 17 de julho de 2019

ISSN 1983-392X

África do Sul Connection

por Saul Tourinho Leal

África do Sul Connection nº 34

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A coluna de hoje é dedicada a explicar as razões pelas quais os dois vizinhos – Zimbábue e África do Sul -, tomaram rumos tão diversos.

"Bem, eu não gosto de pessoas segurando a minha mão. Então, eu afastei a minha mão da dele e fui para a outra ponta do sofá", bufou Ian Smith, primeiro-ministro da então Rodésia, que exerceu cruelmente o poder entre os anos de 1964 e 1979, impondo, a cinco milhões de negros, o capricho racista de uma minoria branca. Smith referia-se à tentativa de reconciliação de Robert Mugabe, o primeiro negro a assumir, democraticamente, o poder no Zimbábue, em 1980.

A confidência, feita à escritora Heidi Holland, foi publicada no livro "Dinner with Mugabe: The untold story of a freedom fighter who became a tyrant". Logo após sua vitória nas urnas, Robert Mugabe propôs uma reconciliação ao ex-presidente Ian Smith, responsável pelos onze anos nos quais Mugabe esteve na cadeia. A humilhação de ver sua mão estendida acompanharia o governo de Mugabe, eleito, em junho de 2013, pela sétima vez, presidente do país, numa eleição marcada por acusações de violência, desrespeito a direitos, pouca transparência e fraude.

"Ele foi um bom presidente. Mas, em algum momento, mudou o rumo das coisas", disse-me o jovem de 24 anos, Joshua Muchara, enquanto servia um copo de suco de laranja no Richard's Bistro, onde trabalha, na Cidade do Cabo. Minutos depois, minha mesa recebeu a inesperada visita de uma garota simpática, com um sorriso largo e um inglês falado numa voz angelical. "Você quer saber sobre meu país?", perguntou-me Mary, 23 anos, vestida na farda do Richard's e usando uma discreta tiara branca sobre o cabelo. Antes que eu respondesse, ela continuou: "A crise econômica nos fez perder tudo. Eu larguei a escola e o sonho de fazer uma faculdade". Então, apareceu Lungile, com seu cabelo curto arrepiado e uma face com a pele macia: "Essa é a minha segunda semana aqui. Eu trabalhava em outro restaurante", disse ela, tímida. "De onde você é?", perguntei. "Zimbábue!". Joshua, Mary e Lungile, jovens negros zimbabuanos que tentam a vida na África do Sul, são frutos de uma jornada que precisa ser contada.

Desde 1980, o Zimbábue é governado por Robert Mugabe, um herói – líder guerrilheiro alçado ao poder em eleições livres -, que acabou com a supremacia branca e, depois, se transformou num autocrata rancoroso. Ele tem um início de caminhada tão esplendoroso como o de Nelson Mandela. Ambos são líderes africanos negros que desafiaram a prepotência da colonização e do apartheid. Mesmo com formação intelectual, passaram a travar uma luta contra o império valendo-se de táticas terroristas.

Robert Gabriel Mugabe nasceu dia 21 de fevereiro de 1924, em Kutama, a cerca de 100 quilômetros de Harare, capital do Zimbábue. Nelson Rolihlahla Mandela nasceu em Mvezo, em 18 de julho de 1918, na África do Sul. Eles cresceram sem a presença paterna e desenvolveram uma ligação muito forte com suas mães. Mugabe se casou pela primeira vez com Sally Hayfron, professora em Gana e grande entusiasta da luta por liberdade na África. O segundo casamento de Mandela foi com Winifred Madikizela, a Winnie Mandela, que tinha pendor por grandes batalhas.

Mugabe passou onze anos na cadeia, na província de Gwelo e foi impedido de ir ao enterro do filho, Nhamo Mugabe, em 1966. O mesmo aconteceu com Nelson Mandela, isolado por 18 anos em Robben Island sem ter podido comparecer ao funeral do filho, Madiba Thembekile, em 1969. Os dois, após conquistarem a liberdade, foram honrados por multidões às ruas. Nas eleições seguintes, livres e com participação negra, elegeram-se presidentes. Contudo, enquanto Mandela suportou o caminho da reconciliação, Mugabe sucumbiu e abraçou a revanche. Um acreditou e manteve uma Constituição livre. O outro, diante dos complicadores que a política lhe apresentou, preferiu a força.

Pelas mãos de Nelson Mandela seu país abraçou o perdão. "Peguem suas armas, suas facas, suas 'pangas', e joguem ao mar. Eles me deixaram preso 27 anos e eu os perdoei. Se sou capaz de perdoar, vocês também são!", disse Mandela, em cadeia nacional de televisão em 1990, quando a África do Sul se desmanchava em sangue na luta entre brancos e negros.

Essa chuva de perdão irrigou a Constituição sul-africana. Enquanto isso, o Zimbábue é o retrato do rancor racista. Um ódio inicialmente imposto pela minoria branca sob a liderança de Ian Smith. Depois, gradualmente empregado pela maioria negra sob o comando de Robert Mugabe. Hoje, zimbabuanos migram para a África do Sul em busca de prosperidade. Não o contrário.

Durante os primeiros anos do seu governo, Robert Mugabe implementou muitas políticas – principalmente educacionais – em atenção à comunidade branca. Havia uma intenção sincera de reconciliação. Ian Smith, seu algoz, circulava livre pelo Zimbábue e maquinava contra o governo.

Em 1985, uma eleição na qual Mugabe sagrou-se primeiro-ministro mostrou que os zimbabuanos brancos votavam fechados em Ian Smith. Dos 20 assentos no Parlamento reservados para eleitores brancos, todos foram preenchidos com membros do partido de Ian (Aliança Conservadora do Zimbábue) ou de seus aliados ("Grupo do Zimbábue Independente" e "Independentes"). Ficou claro que os brancos não votavam em Mugabe. Ele se sentiu rejeitado e prometeu se vingar: "Talvez a reconciliação que nós tentamos com os brancos tenha sido um erro", confidenciou ao seu então líder espiritual, o padre jesuíta Fidelis Mukonori.

Doía entender a lógica do voto da comunidade branca em Smith, mesmo com todos os seus esforços para não empreender qualquer tipo de retaliação. Ao mostrar ao novo presidente que gostavam de seu antigo líder, "os zimbabuanos brancos se colocaram como um grupo que preferia não apertar a mão de Mugabe, não porque ele não tinha conseguido fazer um bom trabalho, mas porque ele era negro". Foi quando as coisas começaram a mudar.

Em 2000, as urnas derrotaram Robert Mugabe, num referendo que visava a aprovação de uma nova Constituição para implementar uma reforma agrária racista. Mugabe implementou a política mesmo assim.

A Fast Track Land Reform Programme tirava as terras das mãos dos brancos e a entregava aos negros. De fato, o Zimbábue convivia com uma imensa concentração de terra nas mãos dos brancos que não abriam espaço para qualquer negociação. Para Mukonori, "você tem que entender a arrogância dos brancos rodesianos, a lógica da supremacia branca. Eles queriam um partido que garantisse a manutenção das terras em suas mãos, a base do seu estilo de vida. Mas eles não podiam enxergar que os negros também queriam isso", confidenciou à escritora Heilli Holand.

Contudo, Mugabe fez algo sem precedentes. Ele pôs fim a todas as fazendas responsáveis pela produção de alimentos. A tecnologia, expertise, logística e liderança dos brancos na agricultura começaram a fazer falta. A destruição da indústria da agricultura acabou com um setor que fornecia metade das divisas do Zimbábue. O resultado foi o colapso da economia, a expansão da fome coletiva, surtos de hiper-inflação e um índice de desemprego que bateu a casa dos 94%.

Robert Mugabe não é um estúpido. Não estamos falando de um ditador africano que pega em armas, luta por dinheiro ou come pessoas (alguns ditadores africanos, como Idi Amim, de Uganda, foram acusados de canibalismo). Mugabe é um intelectual que coleciona diplomas universitários. São sete ao todo, sendo que, dois deles, conquistados na cadeia: pedagogia, educação, inglês, artes, administração, economia, Direito, além do mestrado em Direito. O que deu errado, então?

Nelson Mandela sustentou seu compromisso com a reconciliação. Governou por quatro anos e entrou para a eternidade em dezembro de 2013, quando o mundo celebrou seu legado diante do encerramento de sua jornada entre nós. Robert Mugabe retribuiu na mesma moeda o que o governo racista de Ian Smith fizera. Ele completou 91 anos ocupando, desde 1980, o comando de um país isolado internacionalmente.

Esses dois líderes africanos começaram juntos suas jornadas por uma África melhor. Num dado momento, diante da bifurcação que o destino lhes apresentou, fizeram opções diferentes. Mandela seguiu o caminho da reconciliação na África do Sul. Mugabe não persistiu tanto quanto devia e se rendeu à revanche no Zimbábue.

O racismo de Robert Mugabe não expulsou somente fazendeiros brancos. Joshua, Mary, Lungile e todos os outros jovens negros zimbabuanos estão na África do Sul trabalhando por não terem encontrado no seu país uma oportunidade de felicidade. Ao final do expediente, eles embarcam rumo as townships [favelas sul-africanas] esgarçando ainda mais o que resta dos laços que foram cortados pelo revanchismo político sustentado por líderes que não souberam perdoar.

Saul Tourinho Leal

Saul Tourinho Leal é doutor em Direito pela PUC/SP, professor do IDP e autor de vários livros, dentre eles, "Direito à Felicidade", cujas pesquisas serviram de base para o voto do ministro Celso de Mello, do STF, no julgamento sobre as uniões homoafetivas. Foi professor visitante na Universidade Georgetown e funcionou como International Expert perante a Comissão de Implementação da Constituição do Quênia. Atualmente, mora na Cidade do Cabo, África do Sul, realizando pesquisas em sua área vinculada ao escritório Pinheiro Neto Advogados.