Domingo, 25 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Análise e Conjuntura Política

por Alon Feuerwerker – FSB Conjuntura

Os mistérios do tempo. O muito tempo de Alckmin na TV e o pouco tempo para o PT fazer Haddad

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

O debate sobre a eleição tornou-se nos últimos dias um debate sobre o tempo. Se o muito tempo de Geraldo Alckmin na TV e no rádio será decisivo para levá-lo ao segundo turno. E se o pouco tempo, talvez apenas três semanas, para o PT informar o eleitor que Lula é Fernando Haddad, ou o inverso, será suficiente para trazer ao ex-prefeito os votos necessários.

Vamos começar pelo tempo de TV. Claro que ter muito é bem melhor que ter pouco, ou quase nada. As ironias em contrário são só mais do velho "as uvas estão verdes". Quem não gostaria de ter mais presença no ar? A eleição de 2014 provou que tempo conta. Especialmente para atacar e enfraquecer o quanto possível adversários com quase nada de munição.

Mas mesmo 2014 mostrou que essa variável deve ser vista com inteligência. O PT prevaleceu sim então porque tinha muito tempo, mas principalmente porque usou a vantagem para consolidar uma narrativa verossímil, que tinha aderência à realidade. Pobres x ricos. Também porque os adversários adotaram a tática de acenar ao chamado mercado

Muito tempo é bom, mas não exime de precisar contar uma história com começo, meio e fim. Alckmin tem larga vantagem no quesito, mas precisa encontrar um jeito de sair da armadilha de ser visto como o candidato que vai continuar o programa do governo de Temer. Até porque ele é mesmo o candidato viável que mais carrega a esperança, ou o risco, dessa continuidade.

A campanha do PSDB está fazendo o possível, ao debitar na conta do PT a catástrofe econômica produzida em 2015/16. Até porque o governo era mesmo do PT. Emplacar esse discurso seria mais fácil se Dilma Rousseff ainda estivesse sentada na cadeira do Planalto. Mas obviamente não se quis arriscar deixar o petismo concorrer de caneta na mão. Tudo tem um preço.

Agora quem está lá é o aliado Temer e seu brutal déficit de imagem. Outro detalhe é que Dilma absorveu o passivo do petismo em política econômica, e deixou o ativo para Lula. Bem, mas foi Lula quem indicou Dilma. Seria algo que o ex-presidente precisaria explicar. Mas ele está preso e não o deixam explicar nada. E o candidato real, Haddad, deve menos explicações ainda no quesito.

E o PT? Precisará executar uma operação desafiadora, inclusive pelo ineditismo. Tem algum tempo de TV mas poucos dias para a missão, e enfrenta até agora uma Justiça hostil, que não deve estar feliz com a tática petista de quase desobediência civil. É razoável supor que o partido não voará em céu de brigadeiro quando quiser colocar suas mensagens no ar.

A atenuante das dificuldades do PT é que a legenda parece estar unida em torno da tática. Depois de alguma espuma no noticiário sobre as resistências a Haddad no Nordeste, o candidato de facto está há dias na região posando para imagens com os governadores dali. E não parece haver divergência no PT sobre o que fazer quando Lula for sacado da corrida.

Não se vê no petismo ninguém relevante pregando voto nulo se Lula não puder mesmo concorrer. Nem propondo descarregar em Ciro Gomes ou Marina Silva. Ou seja, se o PT terá pouco tempo para a transfusão, pelo menos não precisará desperdiçar uma parte preciosa desse tempo aparando arestas internas e com aliados. Não deixa de ser um alívio.

*

Jair Bolsonaro tem um problema aparentemente tão grande quanto o pouco tempo de TV. O noviciado em campanha presidencial. É coisa que costuma levar o sujeito a atravessar a rua para escorregar em casca de banana na outra calçada. Pela primeira vez nesta corrida, o candidato do PSL dá mostras de fragilidade e desconforto com a pressão.

Outro novato, Haddad, está por enquanto protegido pela candidatura de Lula. Mas é lógico supor que irá apanhar que nem gente grande nos debates e entrevistas a partir de quando for oficializado. É improvável que os adversários assistam ao desfile petista como quem acompanha embasbacado uma parada militar do Dia da Vitória.

Já os veteranos Ciro e Marina mostram-se à vontade. Não são alvo de ninguém. Resta saber se vão conseguir aproveitar a calmaria.

Até a próxima semana.