Segunda-feira, 23 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Apito Legal

por Roberto Benevides

Está chegando a hora dos boleiros

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Se fosse alemão ou italiano, como sugerem os sobrenomes Bledorn e Verri, Carlos Caetano seria reverenciado como um dos mais completos volantes do futebol moderno.

Afinal, sempre como líder do time e muitas vezes como capitão, Carlos Caetano Bledorn Verri foi campeão sul-americano e mundial de juniores em 1983, campeão da Copa América em 1989 e em 1997, campeão do mundo em 1994, campeão da Copa das Confederações em 1997 - e, em 1984, medalha de prata em Los Angeles, ainda hoje a mais alta honraria olímpica do mais vitorioso futebol de todo o mundo.

Tantas conquistas não bastaram para fazer do brasileiríssimo Dunga um ídolo no país que, segundo Tom Jobim, trata o sucesso alheio como ofensa pessoal. Pelo menos na mídia, Dunga ficou marcado como expressão do fracasso brasileiro na Copa de 90, a primeira que disputou e a única em que não chegou à final.

A explicação para o descompasso entre tantas glórias com a camisa da Seleção e o parco reconhecimento do país em que vestiu as camisas do Internacional, do Corinthians, do Santos e do Vasco talvez esteja nas palavras de um craque gaúcho, Luis Fernando Veríssimo, fã do volante combativo tanto quanto bom observador das sutilezas do futebol :

- Quando mata uma bola, Dunga dá sempre a impressão de que está matando seu antecedente direto, o boi.

Desde os tempos de jogador, o conterrâneo do cronista se destacou pela entrega, pela luta, pelo comprometimento com a equipe e com os resultados. Nem por isso se pode esquecer de que Dunga marcava bem, sabia sair com a bola da defesa para o ataque e passava muito bem. Não tinha, porém, o toque de bola refinado que encanta os brasileiros. Foi sempre um guerreiro. Jamais quis ser um artista. Se fosse alemão, teria sido craque. Brasileiro, é tratado como mero carregador de piano.

No entanto, sempre soube identificar o(s) artista(s) nos times em que atuou e sempre procurou ajudá-lo(s) em campo a fazer da arte da bola o caminho mais fácil para as vitórias. Romário, por exemplo, já disse muitas vezes o quanto deve ao capitão Dunga a sua atuação exuberante na Copa do Mundo de 1994. "A dungalogia tem suas sutilezas", ensina o especialista Luis Fernando Veríssimo.

O Brasil torce agora, nas vésperas de estrear contra a Coreia do Norte na África do Sul, que Dunga não tenha perdido como comandante do time o faro de seus tempos de volante para identificar os jogadores realmente capazes de desequilibrar um jogo de Copa do Mundo. Baixinho atrevido como sempre, Romário aposta nele. Rei Pelé, também. O Brasil vai precisar que Kaká e Robinho façam por nós o que Romário e Pelé já não podem fazer.

O apoio de dois dos maiores craques da história do futebol é exceção entre tantos observadores e palpiteiros que, diariamente, desancam o treinador. Uns reclamam de sua lista de convocados, outros não esquecem as camisas espalhafatosas dos primeiros amistosos da Seleção pós-2006, muitos reclamam da rude franqueza de suas entrevistas, quase todos lamentam a busca de resultados sem a preocupação de nos oferecer o futebol bonito, alegre e ofensivo que é mais praticado em nossas lembranças do que nos modernos estádios de uma Copa do Mundo.

O Brasil de Dunga joga um futebol de resultados - trombeteiam críticos de Norte a Sul, como se a Copa do Mundo fosse apenas um festival de toques sutis, dribles e tabelinhas e não uma competição em que a vitória vale três pontos e a derrota, a partir das oitavas-de-final, despacha o perdedor de volta para casa.

Como a maioria da torcida, ainda silenciosa, Dunga quer ganhar a Copa. Os muito críticos querem festa. Estão quase todos encantados com a bela estreia do garoto Messi, estrela de maior grandeza desta Copa, e a vitória argentina sobre a Nigéria por 1 a 0 graças ao gol bem trabalhado pelo trio Samuel, Heinze e Wolfgang Stark. O padrão festivo do time armado por Maradona, tantas vezes despreocupado na defesa, é o modelo que boa parte da mídia brasileira sugere ao cuidadoso Dunga.

Em vão. Dunga quer ganhar a Copa, só pensa em ganhar a Copa, trabalha unicamente para ganhar a Copa. Por isso é que foi escolhido para suceder a Carlos Alberto Parreira após o fiasco da Seleção na Copa da Alemanha. Era uma aposta de risco da CBF. Se desse certo nos jogos de preparação, chegaria à Copa; se não vencesse amistosos e competições preparatórias, seria substituído por um técnico mais experiente.

Deu certo. De agosto de 2006 para cá, além de três vitórias indiscutíveis sobre a Argentina (3 a 0 num amistoso em Londres, 3 a 0 na decisão da Copa América na Venezuela e 3 a 1 pelas Eliminatórias lá em Rosário), o Brasil de Dunga venceu África do Sul, Chile, EUA, Gana, Inglaterra, Itália, México, Portugal, Suíça e Uruguai, todos participantes desta Copa do Mundo.

Mais importante ainda : a Seleção ganhou os títulos da Copa América e da Copa das Confederações e classificou-se em primeiro lugar e antecipadamente nas Eliminatórias Sul-Americanas.

Há razões, pois, para que o mundo da bola enxergue o Brasil, mais uma vez, como principal candidato ao título. Não se trata apenas do reconhecimento universal à hegemonia histórica do Brasil nas Copas do Mundo, em especial dos anos 1950 para cá, mas da observação criteriosa do desempenho da Seleção que Dunga vem montando há quase quatro anos. Dunga garantiu em campo o emprego de técnico da Seleção na Copa do Mundo.

Agora, na África do Sul, tem de corroborar, em sete jogos, o favoritismo que todo o mundo da bola ainda atribui ao Brasil. Vai depender cada vez menos dele e de seu fiel escudeiro Jorginho e, como os demais milhões de brasileiros, torcer por Julio César, Maicon, Lúcio, Juan, Michel Bastos, Gilberto Silva, Felipe Melo, Elano, Kaká, Luis Fabiano, Robinho e companhia.

Está chegando a hora dos boleiros. A Coreia do Norte que se cuide. E a Argentina também, mas isso já é conversa para mais tarde.

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Confira a tabela da Copa do Mundo 2010 - clique aqui.

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Roberto Benevides

Roberto Benevides, jornalista, foi por muitos anos colunista e o editor do caderno de esportes de O Estado de S. Paulo, trabalhou também no JB, na Folha de S.Paulo, nas revistas Veja, Exame, Quatro Rodas, Placar e Época. Nos últimos dois anos, fez a coordenação editorial de uma coleção de 15 livros sobre esportes olímpicos publicada pelo editora do Sesi.