Sábado, 24 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Apito Legal

por Roberto Benevides

O que Messi vem fazer no Brasil?

segunda-feira, 17 de março de 2014

Ele vai fazer 27 anos no dia 24 de junho, véspera de Nigéria x Argentina, jogo que pode decidir a ordem de classificação das seleções do grupo F para as oitavas de final. Argentino nascido em Rosário, feito cidadão do mundo da bola em campos da Espanha, Lionel Andrés Messi é o mais consagrado craque da atualidade, mas tem muito a perder se não conquistar no Brasil o título de campeão do mundo. Pela terceira vez consecutiva o sonho lhe terá escapado.

Aos 27 anos, craques como Bobby Moore, Garrincha, Tostão, Maradona, Zidane, Andrés Iniesta eram campeões do mundo. Pelé era bicampeão e já tinha experimentado, em sua terceira Copa, a decepção de 1966. Ronaldo, reserva na campanha do tetra brasileiro em 1994 e vice-campeão em 1998, não tinha nem 26 anos ainda quando se consagrou como uma das principais estrelas da conquista do penta em 2002.

Se for campeão do mundo no Brasil, no entanto, Messi terá ilustre companhia nos almanaques do futebol: Sir Bobby Charlton foi ganhar o título somente em sua terceira Copa, a de 1966, quando já tinha quase 29 anos; Beckenbauer, vice em 1966 e terceiro colocado em 1970, foi campeão em 1974, com 28 anos, quase 29; Romário sagrou-se campeão do mundo em 1994, meio ano depois de festejar o 28º aniversário.

Há poucos dias, apresentado pelo portal Yahoo como comentarista contratado para os jogos da Copa, o português José Mourinho ensaiou tirar dos ombros de Messi a obrigação de conquistar, em sua terceira tentativa, o mais importante título do futebol para imediatamente ressalvar: "Não acho que tenha de ganhar com a Argentina para ser ótimo jogador, mas, há sempre um mas..." E desfiou uma curta lista de craques que se consagraram em definitivo ao ganhar o caneco da FIFA para encerrar o papo: "... todos esperam que Messi consiga o mesmo". Eis a verdade.

O craque do Barça vai disputar a Copa de 2014 sob pressão. Messi vem ao Brasil um pouco como nosso Gerson de Oliveira Nunes foi ao México em 1970.

Embora não tivesse o protagonismo do argentino, o craque brasileiro também se devia o título de campeão do mundo até para dissipar de vez certa desconfiança sobre a capacidade de repetir na seleção o futebol decisivo que sempre mostrara no Flamengo, no Botafogo e no São Paulo. Em 1966, atuou apenas na derrota por 3 a 1 para a Hungria, o suficiente para voltar da Inglaterra com a fama, injusta, de jogador covarde que inventara uma indisposição para não enfrentar Portugal no jogo que tirou o Brasil daquela Copa. Com 29 anos e meio, desmentiu tudo como um dos líderes da campanha do tri e ainda esnobou: "Nunca foi tão fácil ser campeão num campeonato tão difícil".

A carga sobre Messi é mais leve, mas não são poucos os argentinos que cobram dele uma série na seleção à altura dos feitos que o vêm transformando no mais importante jogador do Barcelona em todos os tempos – seis vezes campeão espanhol, três vezes campeão europeu, duas vezes campeão do mundo, para ficarmos apenas nos títulos mais importantes do futebol de clubes. Há dois anos, numa capa dedicada ao craque, a revista Time fez a intrigante pergunta: "Lionel Messi é o melhor jogador de futebol do mundo, possivelmente de todos os tempos. Então, por que os seus compatriotas não o amam?"

Os números de Messi em duas Copas do Mundo talvez respondam aos intrigados norte-americanos.

Na Alemanha, em 2006, quando fez 19 anos, jogou 15 minutos e marcou um gol nos 6 a 0 sobre Sérvia e Montenegro, mais 70 minutos no 0 a 0 com a Holanda e, pelas oitavas de final, 36 minutos nos 2 a 1 sobre o México. A Argentina caiu fora nas quartas, tendo sido derrotada pela Alemanha nos pênaltis após o 1 a 1 em 120 minutos de bola rolando.

Em 2010, na África do Sul, Messi participou das vitórias sobre a Nigéria por 1 a 0, sobre a Coreia do Sul por 4 a 1, sobre a Grécia por 2 a 0, todas na fase de grupos, sobre o México por 3 a 1, pelas oitavas, e do desastre diante da Alemanha nas quartas de final, quando a Argentina foi despachada da Copa por 4 a 0.

Tendo defendido a Argentina em duas edições, o cracaço que neste domingo se transformou no maior artilheiro da história do Barcelona não fez mais do que um golzinho em oito jogos da Copa do Mundo.

A performance não combina com o currículo de Messi e certamente ele tudo fará para conquistar em 13 de julho a única honraria que lhe falta no futebol. Pior adversário a seleção não poderia ter pela frente. Messi é uma ameaça maior ao sonho do hexa do que o timaço da Alemanha, a menos que o peso da cobrança lhe tolha os passos nos campos do Brasil.

A cor do futebol

De Steve McManaman, meia  inglês que foi bicampeão europeu no início dos anos 2000 com a camisa do Real Madrid e jogou uns poucos minutos na Copa do Mundo de 1998,  em entrevista ao site da FIFA: "O Brasil é o cenário perfeito para a Copa do Mundo. Quando penso nesse torneio, a primeira imagem que me vem à mente é a de Bobby Moore levantando a taça em 1966, é claro, mas a outra coisa de que me lembro instantaneamente é da camisa brasileira – o amarelo!"

O preço da paixão

Quem estiver interessado em acompanhar Chile x Austrália (dia 13 de junho), Rússia  x Coreia do Sul (dia 17), Nigéria x Bósnia (dia 21) ou Japão x Colômbia (dia 24), todos em Cuiabá, prepare o caixa: a diária média dos hotéis da cidade, no dia dos jogos, é de R$ 1.581,18, segundo levantamento do site de viagens TripAdvisor. Comparando: a diária média cobrada pelos hotéis paulistanos, nos dias de jogos da Copa, será de R$ 586,37.

Roberto Benevides

Roberto Benevides, jornalista, foi por muitos anos colunista e o editor do caderno de esportes de O Estado de S. Paulo, trabalhou também no JB, na Folha de S.Paulo, nas revistas Veja, Exame, Quatro Rodas, Placar e Época. Nos últimos dois anos, fez a coordenação editorial de uma coleção de 15 livros sobre esportes olímpicos publicada pelo editora do Sesi.