Sábado, 17 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Apito Legal

por Roberto Benevides

A Copa do Mundo é nossa. E daí?

segunda-feira, 14 de abril de 2014

A história das Copas mostra que nunca um continente emplacou três campeões seguidos. Aliás, os continentes, neste caso, se limitam à Europa e à América do Sul. Em 19 edições, os europeus levaram dez títulos – quatro para a Itália, três para a Alemanha, um para a Inglaterra, um para a França e um para a Espanha. Os sul-americanos ficaram com nove – cinco do Brasil, dois do Uruguai e dois da Argentina. A 20ª edição, no Brasil, vai empatar a disputa histórica ou alargará a vantagem que os europeus perderam em 1958 e só vieram a recuperar em 2010 com a Espanha?

Agora, a Espanha pode ser bi, o que daria à Europa o terceiro título consecutivo, pois a Itália foi a campeã de 2006. Aliás, as duas últimas finais só tiveram equipes europeias – Itália e França em 2006, Espanha e Holanda em 2010. Em toda a história, houve oito finais exclusivamente europeias e apenas duas sul-americanas, a última em 1950, no Maracanã, vencida pelos uruguaios, como os brasileiros estão cansados de lamentar. A decisão do título de 2014 com um novo Brasil x Uruguai só será possível se os dois times fecharem a primeira fase como líder de seus grupos, tarefa nada fácil para os uruguaios, que disputarão as duas vagas nas oitavas com ingleses e italianos.

Uma vitória europeia em campos brasileiros seria um desastre para o depauperado futebol sul-americano, progressivamente transformado em simples fornecedor de craques e promessas para mercados mais ricos e mais profissionalizados – não apenas da Europa, mas também da Ásia e, daqui a pouco, até da América do Norte. Ainda bem que a América do Sul tem boas chances de emplacar uma eletrizante decisão regional –Brasil versus Argentina. Ainda bem? Será que os brasileiros preferem o risco de entregar o caneco aos nuestros hermanos do que a uma seleção da Europa?

Para os europeus, um inédito êxito na América do Sul reforçaria o predomínio crescente de suas principais competições, em especial a Liga dos Campeões, no mercado bilionário do futebol, isolando cada vez mais o continente como força arrecadadora dos recursos que a FIFA teima em dividir com os clubes – o que, contraditoriamente, pode levar ao esvaziamento progressivo dos torneios entre seleções e, portanto, da própria Copa do Mundo.

Não é de hoje que os grandes clubes europeus se insurgem contra as competições que enchem os cofres das federações continentais e da FIFA graças às estrelas que são pagas por eles. Turbinar economicamente a Liga dos Campeões e os principais campeonatos nacionais da Europa é algo que os clubes evidentemente acolherão com alegria. Desfalcá-los durante dois meses a cada duas temporadas para que a FIFA e a Uefa, um pouco menos, arrecadem bilhões com a Copa do Mundo e a Eurocopa é um despropósito que os grandes clubes não vão aceitar para sempre.

Esta é uma discussão que nem sequer começou de verdade na América do Sul, onde um obscuro cartola paraguaio ou uruguaio tem mais influência na condução do futebol do que um Corinthians, um Flamengo ou um Boca Juniors. Talvez mais cedo do que se espera, no entanto, os grandes clubes sul-americanos comecem a entender que são os verdadeiros fazedores do futebol, mesmo que as principais estrelas das seleções já não vistam as suas camisas. Até por isso! Neymar é do Barça, claro, mas apenas porque o Santos, embora muito tentasse, não teve cacife econômico para bancar o garoto que nasceu para o mundo da bola na Vila Belmiro.

Nós, brasileiros, vamos torcer por uma seleção em que Júlio César também não é flamenguista, Daniel Alves não é do Bahia, David Luiz não é do Vitória, Thiago Silva e Marcelo não são do Fluminense, Luiz Gustavo não é do Corinthians de Alagoas e nem sequer chegou a passar por um grande time do país, Paulinho não é mais do Corinthians, Oscar não é do São Paulo nem do Internacional, Hulk fez apenas dois jogos pelo Vitória no Campeonato Brasileiro, e, de todos os titulares, somente o mineiro Fred, com a camisa do Flu, atua no país.

A situação da Argentina não é muito diferente. Quase todo o elenco do treinador Alejandro Sabella atua na Europa, começando pelo craque número 1, Lionel Messi, criado desde criancinha no futebol espanhol.

Será que a provável conquista de um décimo título da Copa do Mundo por uma seleção sul-americana ajudaria a atenuar este desequilíbrio de um mercado que se encaminha para consagrar a Europa como uma espécie de Primeira Divisão do futebol mundial, relegando a América do Sul a uma incômoda Segundona? Atenuar, talvez atenue. Difícil é recuperar um mínimo de equilíbrio na briga global enquanto o futebol sul-americano continuar sendo administrado pela cartolagem que há muito assola o continente.

Mesmo assim, a gente quer o hexa. E pouco importa de onde vem o adversário da final. Tanto faz bater um vizinho, como a Argentina ou o Uruguai, ou um visitante d’além- mar, como Alemanha ou Itália ou Espanha. O que o Brasil quer é gritar mais uma vez, a sexta em vinte chances: "a Copa do Mundo é nossa".

Talvez a gente possa depois reinventar o futebol brasileiro, criando condições econômicas e gerenciais que lhe permitam segurar por aqui as estrelas por ora destinadas a brilhar no bilionário futebol europeu. Será uma tarefa mais difícil do que ganhar a Copa.

Literalmente

Algumas preciosidades linguísticas flagradas por Clarissa Passos em cardápios bilíngues de bares e restaurantes brasileiros interessados em receber turistas durante a Copa do Mundo e detalhadas por ela no site Buzzfeed: against the brazilian beef significa contra-filé; the american language é a tradução de língua à americana; beer (it barks) é o jeito de pedir uma cerveja em lata. Para pedir um mate, a tradução é direta: kill. E tem loja de suco que erra no sabor em português, mas acerta na tradução: se quiser cocô, o turista deve pedir shit.

Padrão Fifa

Que botecos e restaurantes populares se valham da tradução automática do Google e derrapem no inglês é curioso, mas aceitável. Difícil de engolir é a agressão à língua portuguesa no site da Fifa, que registra assim uma frase do nosso Zico após visitar o Maracanã: "Está lindo, gostoso de frequentar e a áurea continuará sendo a mesma, novo ou velho. É o Maracanã de sempre". O que disse o maior artilheiro do estádio em todos os tempos, com 333 gols: "Está lindo, gostoso de frequentar e a auracontinuará sendo a mesma, novo ou velho. É o Maracanã de sempre".

Roberto Benevides

Roberto Benevides, jornalista, foi por muitos anos colunista e o editor do caderno de esportes de O Estado de S. Paulo, trabalhou também no JB, na Folha de S.Paulo, nas revistas Veja, Exame, Quatro Rodas, Placar e Época. Nos últimos dois anos, fez a coordenação editorial de uma coleção de 15 livros sobre esportes olímpicos publicada pelo editora do Sesi.