Sábado, 17 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Apito Legal

por Roberto Benevides

O Brasil ganha (ou perde) o hexa em São Paulo

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O futebol brasileiro perdeu na madrugada deste domingo, 1º de junho, uma de suas maiores referências: o potiguar Francisco das Chagas Marinho, conhecido em todo o vasto mundo da bola como Marinho Chagas, cracaço da lateral esquerda e do meio-de-campo que brilhou no Botafogo, no Fluminense, no São Paulo e no New York Cosmos, em companhia de Carlos Alberto Torres, Franz Beckenbauer, Johan Neeskens, Giorgio Chinaglia e Julio César Romero, o Romerito. Com a camisa da Seleção Brasileira, foi eleito o melhor lateral esquerdo da Copa do Mundo de 1974.

Ingênuo e brincalhão fora de campo, destro que dava refinadíssimo trato à bola no gramado, Marinho tinha 62 anos e morreu num hospital de João Pessoa, após passar mal num encontro com colecionadores de figurinhas da Copa. Na sexta-feira, dia 30, em entrevista a Kako Marques, no programa Globo Esporte, da TV Cabo Branco, deixou sua última mensagem: "O gol mais importante do Brasil na Copa será marcado pelo povo brasileiro. É o povo que vai dar o hexacampeonato à Seleção".

Marinho Chagas nunca foi um exemplo de sensatez, tanto que alimentava com água mineral o radiador do seu primeiro Mustang, mas estava certíssimo ao atribuir à torcida brasileira, como tanto quer Luiz Felipe Scolari, o protagonismo na campanha pela conquista do hexa. A decisão da Copa será no Maracanã em 13 de julho, mas o Brasil disputa o título de 2014 já no dia 12 de junho em São Paulo. "A seleção a ser batida é a Croácia", definiu o próprio Felipão ao convocar os 23 jogadores há quase um mês. E é na abertura da Copa que o Brasil tem de conquistar o Brasil.

São Paulo não é uma província futebolística tradicionalmente disposta a tratar bem a Seleção. Muitas vezes por bairrismo, outras por enviesada paixão clubística, quando não por quase atávico mau humor, os torcedores paulistas nunca pouparam a Seleção e seus craques. Em 2012, no emblemático 7 de setembro, quando Mano Menezes ainda era o técnico, o ídolo Neymar foi uma das vítimas preferenciais das vaias de boa parte dos 51.538 pagantes que assistiram no Morumbi ao 1 a 0 sobre a África do Sul.

Foi a última vez que o Brasil jogou em São Paulo. De lá para cá, em amistosos ou em jogos da Copa das Confederações, a Seleção foi bem recebida em Belo Horizonte, no Rio, em Porto Alegre, em Brasília, em Fortaleza e em Salvador, algo tão importante para os bons resultados dos últimos tempos quanto a presença da dupla Carlos Alberto Parreira/Luiz Felipe Scolari no comando técnico.

Agora, falta à dupla de comandantes, ao craque Neymar e companheiros conquistar o amor de São Paulo. A primeira oportunidade é o amistoso desta sexta, dia 6, contra a Sérvia, novamente no Morumbi. A segunda é a abertura da Copa, no dia 12, contra a Croácia, no... opa! ia dizendo: Itaquerão... na Arena Corinthians. Na terça, 3, certamente os goianos tratarão bem a Seleção no amistoso com o Panamá.

São Paulo tem de adotar a Seleção, de preferência já no jogo treino da sexta, com o carinho e o entusiasmo que a torcida dispensou a Neymar e companhia na Copa das Confederações, reservando as poucas vaias da abertura para governantes e cartolas. O Brasil tem de acolher o Brasil, mesmo que 19 de nossos 23 jogadores atuem no exterior e somente o goleiro Victor Leandro Bagy jamais tenha defendido uma equipe de outro país. Marinho tinha toda razão: "É o povo que vai dar o hexacampeonato à Seleção".

Econometria...

Você acredita em previsões de economistas?

Pois o banco de investimentos Goldman Sachs acaba de publicar um extenso relatório, todo em inglês, que coloca o Brasil como superfavorito à conquista do título de campeão mundial em 13 de julho. Segundo os economistas, a Seleção tem 48,5% de chances de chegar ao hexa. Em segundo lugar, aparece a Argentina, com apenas 14,1%.

Em 2010, os economistas do Goldman Sachs também previram o Brasil campeão, com 13.76% de chances. Em segundo lugar, estava a Espanha, com 10.46%. No campo, deu Espanha. O Brasil caiu fora nas quartas de final, eliminado pela Holanda, que foi a vice-campeã, mas estava em sexto lugar na lista de favoritos do banco.

Em 2006, quem era o favorito? Sempre o Brasil, daquela vez com 12.4% de chances. E, mais uma vez, a Seleção não passou das quartas, abatida pela França, que também foi vice-campeã, embora fosse a quarta colocada entre as equipes apontadas como favoritas. E o pior: a Itália, campeã, era a nona colocada, com apenas 5.3% de chances.

Você acredita em previsões de economistas?

... e fé

Por aqui, o Itaú desenvolveu "um modelo econométrico considerando os fatores quantificáveis que acredita serem fundamentais para a determinação do sucesso nas Copas do Mundo: 1) a qualidade atual da seleção; 2) a história do desempenho da seleção na copa do mundo; 3) o apoio dos fãs". O estudo, também em inglês, é menos ambicioso, porém. Apenas indica as prováveis semifinais: Brasil x Alemanha e Espanha x Argentina.

Talvez os economistas nem desconfiem, mas o empresário Walther Moreira Salles, cujos herdeiros têm boa fatia das ações do Itaú, tratava o futebol com sabedoria bem mais brasileira. Afinal, era botafoguense. Assim, na Copa de 1970, aproveitou o fato de que o caçula João Moreira Salles, então com oito anos, tinha ido ao banheiro no exato momento em que Rivellino empatou o jogo de estreia, que a Tchecoslováquia começara ganhando com um gol de Petras e acabou perdendo por 4 a 1, e o obrigou a ver do banheiro todas as demais partidas do Brasil na Copa.

E o Brasil ganhou o tri, você sabe, vencendo os seis jogos.

Lição de casa

Informa Mônica Bergamo em sua coluna na Folha de S. Paulo do dia 27 de maio, terça-feira: "A investigação do Ministério Público de São Paulo para verificar se houve racismo na escolha de Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert para serem os apresentadores do sorteio da Copa deve resultar em uma proposta à FIFA".

O promotor Christiano Jorge Santos propõe, segundo a colunista, que "critérios de diversidade racial sejam levados em conta nos próximos eventos do Mundial". O que quer o promotor: "A ideia é que se respeite a proporcionalidade de cada cor na população brasileira".

E se a FIFA propuser respeitar a mesma “proporcionalidade” adotada pelo Ministério Público de São Paulo em seus quadros?

Copa é coisa de homem?

O Lake Villas Charm Hotel, de Amparo, a 130 km de São Paulo, anuncia um Dia dos Namorados com "futebol e romantismo para agradar a todos". E detalha no material de divulgação: "Os homens podem acompanhar a abertura da Copa do Mundo na sala de cinema, com poltronas Lafer, canapés e prosecco. Já as mulheres vão adorar curtir o destino perfeito para proporcionar dias inesquecíveis a dois, com direito a Spa, alta gastronomia e as mais belas paisagens".

A força da grana

Dois dias antes de anunciar que vai deixar o STF até o fim de junho, Joaquim Barbosa concedeu uma entrevista a Aydano Motta, publicada no Globo de sexta-feira, 30 de maio, em que garante ter sido "o que hoje chamam de segundo atacante", "sempre pela esquerda", "muito rápido", que "chutava com as duas". Aydano quis saber:

– O senhor, em algum momento, teve o sonho tão brasileiro de ser jogador?

– Não, nunca. Achava que não dava futuro, sempre achei. Os jogadores daquela época não ganhavam dinheiro como os de hoje. Os craques daquela época, quando não são pobres, vivem em situação muito modesta.

O ainda presidente do STF tem razão: enquanto muitos jogadores que deram ao Brasil os cinco títulos mundiais morreram ou sobrevivem em meio a grandes dificuldades econômicas, ele pode curtir a precoce aposentadoria integral no apartamento que comprou, há dois anos, em Miami.

Tabelinha

Manchete do Estadão deste domingo, 1º de junho: "Black Blocs prometem caos na Copa e contam com PCC".

Fim de papo

"Precisamos de um árbitro europeu. Os árbitros europeus têm mais empatia com o futebol inglês do que com bailarinas como Luis Suárez" – Stephen Hawking, o badalado cientista britânico, revelando-se, em 'estudopara uma casa de apostas, tão conhecedor dos segredos do mundinho da bola quanto dos grandes mistérios do universo

Roberto Benevides

Roberto Benevides, jornalista, foi por muitos anos colunista e o editor do caderno de esportes de O Estado de S. Paulo, trabalhou também no JB, na Folha de S.Paulo, nas revistas Veja, Exame, Quatro Rodas, Placar e Época. Nos últimos dois anos, fez a coordenação editorial de uma coleção de 15 livros sobre esportes olímpicos publicada pelo editora do Sesi.