Terça-feira, 20 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Apito Legal

por Roberto Benevides

O Brasil é a Seleção ou é o Neymar?

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A última vez que o Brasil foi derrotado ao estrear numa Copa do Mundo aconteceu em 1934. Faz 80 anos, portanto. Da década de 30 do século passado para cá, o Brasil empatou os jogos de estreia nas Copas de 1974 e 1978 e venceu todos os demais, incluído o 1 a 0 sobre a Croácia, nosso próximo adversário, em 2006.

Nem por isso a estreia em 2014, na quinta-feira, deve ser tratada com despreocupação. Ao apresentar seus 23 escolhidos para as sete batalhas do hexa, Luiz Felipe Scolari foi tentado por vários entrevistadores a analisar as dificuldades de disputar o título com as grandes seleções da atualidade, como Alemanha, Argentina e Espanha, mas resistiu sabiamente: "A seleção a ser batida é a Croácia".

Se há uma coisa que nunca rendeu uma Copa ao Brasil é o otimismo antes que a bola comece a rolar. Quatro dos cinco títulos mundiais conquistados pela Seleção foram precedidos da desconfiança generalizada da torcida e da crítica, por vezes cruel, de quase toda a imprensa. A exceção foi o bi no Chile, em 1962. O time era quase o mesmo de 1958.

Chegou a hora de mudar isso. Conquistar o hexa em casa significará o inédito encontro entre o otimismo antecipado e a vitória na final de 13 de julho. A história do futebol brasileiro pode ganhar um capítulo realmente inédito.

Há razões, não apenas históricas, para o otimismo, embora falte a este time de 2014 uma trindade do porte de Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Rivaldo, destaques do penta conquistado na Ásia em 2002.

Na Seleção atual, craques indiscutíveis, pelo menos até que se encerre o jogo decisivo de 13 de julho, são Neymar e Thiago Silva. Desde que tomou forma, no entanto, o time de Felipão tem ótimo retrospecto em campos brasileiros. São nove vitórias em dez jogos disputados de 2 de junho do ano passado, quando empatou no Rio com a Inglaterra por 2 a 2, até agora, incluídos entre os derrotados mais quatro campeões do mundo – a França, em amistoso, a Itália, o Uruguai e a Espanha, na Copa dos Campeões.

Entenda-se, pois, o otimismo dos brasileiros com a nossa Seleção. Se não contamos ainda com tantos supercraques acima de qualquer dúvida, temos alguns candidatos a sair da Copa com o prestígio nas alturas, como o zagueiro David Luiz, o lateral Marcelo, o volante Paulinho, o meia Oscar, se retomar a pegada, e o atacante Hulk. O Brasil também vai depender muito deles, tanto quanto dos veteranos Júlio César e Fred.

Antes que a bola comece a rolar na Copa, a grande dúvida é: o Brasil é a Seleção ou é o Neymar? É os dois. No jogo-treino com o Panamá, foi predominantemente Neymar. Contra a Sérvia, foi mais Seleção. Sofreu em equipe. E foi também o Brasil de Fred e Thiago Silva.

O 1 a 0 saiu graças a um gol de centroavante, viram alguns. E foi, mas foi sobretudo um gol de time. Um gol a dois, mas um gol de time. Thiago Silva avançou com a bola pela direita, da intermediária olhou rapidamente a posição do pessoal de ataque, enxergou o aceno de Fred pedindo o passe longo até a esquerda da meia-lua, enrolou um pouco para que o centroavante saísse do impedimento e, enfim, fez o lançamento enviesado e perfeito. Fred ajeitou a bola no peito, livrou-se de dois, ainda levou um chega pra lá que o jogou no chão e, mesmo caído, trocou de pé para conscientemente tocá-las para as redes. Um gol assinado por Thiago e Fred. Eles se conhecem. Um gol de time.

É disso que o Brasil precisa. Não dá para escolher. O Brasil é a Seleção. O Brasil é Neymar. Já no dia 12 vamos precisar de um time consistente e um craque fulgurante. E do reforço da torcida, claro. Sem tal combinação, o sonho do hexa será um pesadelo.

Bruxa?

A Espanha já tinha perdido Thiago Alcântara antes mesmo de fechar a lista dos 23 e por pouco não ficou sem Diego Costa. A Alemanha perdeu Marco Reus antes de embarcar para o Brasil. A França não terá Franck Ribéry. O México veio sem Luis Montes. A Itália não pode trazer Montolivo. A Colômbia, sem Falcao Garcia, ficou também sem Aldo Ramirez. E o português Cristiano Ronaldo, eleito o melhor do mundo em 2013, chega baleado para disputar a Copa.

Repórteres e analistas têm repetido sem parar que "a bruxa está solta".

Para os que ainda acreditam em bruxaria, sugiro ler a entrevista que o fisiologista Turíbio Leite me concedeu antes da Copa de 2006 e foi publicada pelo site NoMínino no dia 12 de junho, exatos oito anos antes de o Brasil estrear em 2014.

O grande problema é o calendário do futebol.

A conferir

Previsão do técnico José Mourinho, no portal Yahoo, sobre as 16 equipes que se classificarão para as oitavas de final: Brasil e México; Espanha e Holanda; Costa do Marfim e Grécia; Itália e Inglaterra; França e Suíça; Argentina e Nigéria; Alemanha e Portugal; Rússia e Bélgica.

Beckenbauer x Neymar

O alemão Franz Beckenbauer, que divide com o nosso Zagallo a condição de únicos campeões do mundo como jogador e técnico, estreou sua coluna sobre a Copa, na Folha de S. Paulo, com uma grande dúvida sobre Brasil de Felipão: "como uma equipe relativamente jovem conseguirá enfrentar a pressão, que crescerá dia após dia"?

O Kaiser chega a dizer: "Mesmo Neymar, que no Barcelona se acostumou ao ritmo de jogo europeu, continua a ser um jogador jovem, de 22 anos, apesar de toda a sua experiência. Quanto a isso, talvez convocar Kaká para a Seleção tivesse sido uma boa ideia. No caso dos demais jogadores brasileiros, não estou certo de que sejam capazes de aguentar a pressão".

Dois dias antes da coluna, publicada na quinta-feira, dia 5, Neymar já havia respondido aos que insistem nessa história de pressão: "Além de estar acostumado com pressão desde menino, estar na Copa do Mundo era o meu sonho. Agora chegou o momento! Então, por que eu vou ficar pensando em pressão? O sonho virou realidade. Eu vou desfrutar. Vou ser feliz dentro de campo".

Treineiros

Metade dos técnicos da Copa vem de apenas cinco países.

Quatro são alemães: Joachim Low (Alemanha), Jurgen Klinsmann (EUA), Ottmar Hitzfeld (Suíça) e Volker Finke (Camarões).

Três são italianos: Cesare Prandelli (Itália), Alberto Zaccheroni (Japão) e Fabio Capello (Rússia).

Outros três são portugueses: Paulo Bento (Portugal), Carlos Queiroz (Irã) e Fernando Santos (Grécia).

São também três os argentinos: Alejandro Sabella (Argentina), Jorge Sampaoli (Chile) e José Néstor Pekerman (Colômbia).

Embora tenha entregado o comando de sua seleção a um argentino, a Colômbia também terá três treinadores na Copa: Jorge Luis Pinto (Costa Rica), Luis Fernando Suárez (Honduras) e Reinaldo Rueda (Equador).

De todos os 16, somente três são candidatos ao título: Joachim Low, Cesare Prandelli e Alejandro Sabella. Na briga pelo caneco, estão também nosso Felipão e o espanhol Vicente del Bosque, que brigarão para igualar o feito do italiano Vittorio Pozzo, único técnico duas vezes campeão do mundo, em 1934 e 1938.

Trabalho escravo

Na mesma quinta-feira, dia 5, em que o Congresso promulgou a PEC do trabalho escravo, como bem registrou Migalhas, finalmente uma instituição pública do Brasil se deu conta do absurdo que é, hoje em dia, a utilização do chamado ‘trabalho voluntário’ na Copa do Mundo.

A procuradora Carina Rodrigues Bicalho moveu, na 59ª Vara do Trabalho do Rio, ação civil pedindo que todos os selecionados para o programa de trabalho voluntário sejam contratados – com carteira de trabalho assinada.

São 14 mil voluntários espalhados pelas 12 cidades-sede da Copa.

A ação chega um tanto tarde, mas realmente nada justifica que a FIFA, cuja previsão de lucro com a Copa no Brasil beira os US$ 4 bilhões, utilize voluntários para trabalhos que deveriam ser remunerados. O voluntariado fazia sentido há muito, muito tempo, quando a Copa ainda não era um negócio bilionário.

Fim de papo

"Só me interesso pela Seleção se joga bem. O patriotismo pelo patriotismo não me pega. O meu patriotismo se chama Flamengo".Ruy Castro, a quem o futebol só tem dado tristezas ultimamente, como se pode conferir na tabela do Brasileirão, em ótima entrevista a Hugo Daniel Sousa, publicada no jornal português Público em 1º de junho

Roberto Benevides

Roberto Benevides, jornalista, foi por muitos anos colunista e o editor do caderno de esportes de O Estado de S. Paulo, trabalhou também no JB, na Folha de S.Paulo, nas revistas Veja, Exame, Quatro Rodas, Placar e Época. Nos últimos dois anos, fez a coordenação editorial de uma coleção de 15 livros sobre esportes olímpicos publicada pelo editora do Sesi.