Terça-feira, 25 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Tantas Emoções

"Mulher de Tiger Woods pede US$ 300 milhões no divórcio."

Dos jornais

Tenho notado que nos últimos tempos estou mais chorão do que quando tinha mais cabelos e a cor deles era outra. Isso não condiz com meu currículo, eu que sempre me ufanei de tratar dos dentes sem anestesia. A própria dentista um dia ficou pálida diante dessa minha resistência, sugerindo, discretamente, que um bom psiquiatra daria jeito na coisa. "Seu colega fulano de tal (e me deu o nome completo dele, que não mais está em atividade por aí e, por isso, não poderá confirmar o que eu digo) toma anestesia antes de entrar na sala. Sem estar anestesiado ele não cruza aquela porta!", segredou-me ela, apontando a entrada fatal. Referindo-se justamente a alguém que tem como lema – ele é e sempre foi juiz criminal – "réu inocente, pena mínima!"

Não chego ao ponto do caboclão Zuia (curioso apelido de alguém chamado Jesus), lá de São Pedro, que havendo acordado certo dia com dor de dente, não teve a menor dúvida: pegou do alicate e, anestesiado apenas por um gole a mais de cachaça, arrancou o próprio molar sem a menor cerimônia. E rindo, com os poucos dentes que lhe restavam, adicionou: "Quer saber? Como a dor não passava, arranquei também o do lado dele". Diante do Zuia, me sinto meio maricas indo ao dentista para fazer algo que qualquer um pode fazer em casa mesmo.

Não choro com beijos de novela, como o Zeca Baleiro, por vários motivos, sendo o mais relevante este: eu não vejo novela. É como a história do soldado do Napoleão que dizia ter dez motivos para não ter disparado o canhão, sendo o primeiro deles a falta de pólvora. "Sendo assim, está dispensado, que eu não tenho tempo a perder com os outros nove motivos", teria dito o caporal corso ao trêmulo subalterno.

Quanto às novelas, bem que tenho tentado acompanhá-las, confesso, até mesmo por dever cívico. Mas quando vejo certas atrizes vestidas como grande dama paulista, mas incluindo "x" no plural de todas as palavras, meu cérebro tem um tilt, entende? Tento entrar no clima, mas não tem jeito.

Passo então para os programas esportivos. E eis-me de olhos marejados vendo a final de uma partida de golf. O Tiger Woods está a um ponto do primeiro colocado e está agora no green para dar um put em direção ao hole dezoito. Ele precisa fazer um birdie para alcançar o primeiro colocado e, assim, levar a partida para o play off. É um put de apenas nove jardas, esclarece o locutor, que tem como assessor ninguém menos do que o neto do D. Pedro II, aquele que era filho do outro mas tinha estampa de avô dele.

Se você não tem ideia dessa distância, pois só assiste as pedaladas do Robinho, imagine que a distância entre a bola em que o Tiger vai dar sua tacada e o 18th hole é a mesma que separa o batedor de falta da barreira. Pois ele faz o put e a bola vai rolando de mansinho pelo green. O suspense é tal que eu fico imaginando onde estava o Hitchcock que não usou isso em um de seus filmes. Nem ele nem seus inúmeros imitadores. Vejam que cena: nós da platéia sabemos que dentro do buraco 18 há um dispositivo que, tocado pela bola, acionará uma bomba que está instalada no palanque onde o primeiro ministro de Israel e o presidente da Organização Palestina estão sentados, numa pausa a mais na 54ª rodada de negociações de paz para o Oriente.

Pois a bola do Tiger Woods vem descendo lentamente o green, traçando aquele caminho que vai diminuindo, pouco a pouco, a vida dos dois líderes mundiais. O Obama também está no palanque, mas isso não tem tanta importância. Pois a bola se aproxima lentamente, em câmara lentíssima, como aquela que o Brian de Palma, um dos inúmero sub-Hitch, utilizou na cena da escadaria no Intocáveis, que, por sinal, tomou emprestada, sem a menor cerimônia, do encouraçado do Eisenstein. A bolinha branca, cor da paz, corre pelo campo verde, cor da esperança, eis a mensagem subliminar da cena, emoldurada por dúzias de violinos. Um close ao rés-do-chão (pausa cultural: em Portugal o andar térreo é indicado, nos elevadores, pelas iniciais RC; quando interpelei o lusitano, dizendo ser mais lógico usar o T, de térreo, ele me ensinou que lá o rés-do-chão é ladrilhado, pá) mostra o buraco, que parece enorme, e a bolinha, vindo de lá para cá. Ela se aproxima do tal buraco e para exatamente na borda. Alguma formiga, contratada pelo Greenpeace, impediu que o desastre ocorresse.

O birdie não foi alcançado e o Tiger deverá conformar-se com o segundo lugar. Ele atira o boné, que por sinal traz o seu logotipo, no chão, simbolizando a instrumentalidade dos seres humanos diante das forças da natureza. Aquilo que ele supõe ser um fracasso é, na verdade, a vitória contra o terrorismo, pois logo chega o pessoal do FBI, que recolhe a bolinha e mostra aos atônitos players do que é capaz a maldade humana. Que, felizmente, tem contra si a organização e a inteligência que, ao fim e ao cabo, acabam vitoriosas.

Enquanto isso a mulher do Tiger contratava detetives para saber a quem mais ele anda mostrando o taco.

Responda: dá pra não chorar diante disso?

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

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