Segunda-feira, 17 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Escatologia Cinematográfica

Para muita gente, desenho animado é coisa para criança. Ligam a televisão e deixam a criançada assimilando aquele monte de informação dada pela babá eletrônica. Meus netos veem umas coisas horrorosas, com figuras distorcidas, cujas histórias não têm pé, cabeça nem rabo. E gostam. Até esponja de limpeza virou personagem desses desenhos televisivos!

Há muitos anos, quando essa nova proposta estética ainda não tinha chegado, havia um personagem que era um ratinho super-rápido, que era chamado pelos primos, camponeses mexicanos e pobres, que eram maltratados pelo gato. Por que um bicho repelente como o rato se torna tão simpático nos desenhos animados, chegando a encantar-nos com suas habilidades culinárias, é coisa que ainda não descobri. Vejam o caso do Ratatouille. Mas estou tentando.

Se não me engano, eu falava do Speedy González e suas corridas para cima e para baixo, ao som de um gritinho de auto-estímulo: Ándale!, ándale! Arriba!, arriba! Em certo episódio, quando recebe a carta dos primos convocando-o para dar mais uma lição no malvado vilão, ele está fazendo serenata para uma bela ratinha, balançando na rede e tocando violão. Que música ele cantava? Seu tema musical. Ou seja, este:

"La cucaracha,
la cucaracha,
ya no puede caminar,
porque no tiene,
porque le falta,
marijuana pa fumar."

Edificante, né? Claro que você não acredita nisso. Pois lhe exibo a evidência um. (Clique aqui)

Consta que teremos agora o Speedy González em filme, talvez 3D, quando, por força de seus hábitos pós-modernos, a cada tragada entrará pela sala de exibição adentro, dando sustos na gurizada pela sua rapidez e susto nos pais da gurizada por causa da causa de sua rapidez.

Direis que nos bons tempos do Walter Elias Disney não havia nada disso, pois os desenhos eram ingênuos, autênticos contos de fada, tudo em 2D.

Em primeiro lugar, que é um conto de fada? Meu neto, de 3 anos de idade, dia desses chegou-se para uma tia velha e lhe sapecou nas ventas: "Eu não gosto de você porque você é velha e feia". Procure um conto de fadas em que a bruxa seja moça e bonita. Quando muito você encontrará três velhinhas gordinhas e simpáticas como as fadas madrinhas da Gata Borralheira. Se prestarmos atenção nos desenhos animados, veremos que aquilo sim é que é um festival de posturas politicamente erradas, como o sadismo do Tom & Jerry, do Pica-pau ou seja lá de que herói for. "Eu vou te matar" dizem as crianças, fazendo caras e bocas, imitando o Ben 10. Quem é ele? O herói de um desenho horroroso, que não chega aos pés daquele cujo pacato personagem enchia-se de músculos quando exclamava "Eu tenho a força!", coisa da infância de meus filhos.

Graças à tecnologia, os desenhos animados de agora são mais apreciados pelos adultos do que pelas crianças. Hoje, os meninos que salvaram a Pixar, dando um lucro inimaginável ao Steve Jobs, dono da Macintosh e sucessor do rei Midas, não precisam ter preocupações econômico-financeiras pelas próximas três ou quatro gerações, pois estabeleceram um nicho simplesmente inesgotável. Veja-se esse incrível Wall-e (clique aqui) que chega a ser dark, em sua visão do futuro, concretizando o 2001 do Kubrick.

Não bastasse isso, lá vem o Avatar, mostrando que, com tecnologia de ponta, nem se precisa ter escrúpulos em copiar cenas e mais cenas de tantos filmes que nossos olhos já viram vezes e vezes. Os fãs de Apocalipse Now (clique aqui) que o digam. Até o militar fanático é o mesmo.

 

Busca verbete por título

A B C D E F G H I J L M N O P Q R S T U V X Z

* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.