Domingo, 15 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Douce France

«Me voici de retour des vacances. Que de belles choses cet mot ne me rapelle-t-il pas!»

Do meu Premier Livre de Français

Sou do tempo em que o chamado american way of life ainda era coisa para norte-americanos apenas. Esse estilo de vida materialista, em uma sociedade que, paradoxalmente, fala tanto em Deus, até na nota de dólares ele aparece, é uma das grandes contradições das religiões ocidentais. "Money, money, money makes the world go round, world go round, world go round" cantava o Joel Grey no filme Cabaret, interpretação, aliás, que lhe valeu o Oscar, a mostrar o verdadeiro Deus dos nossos brothers.

Se estão lembrados, no filme Syriana, Oscar de melhor ator coadjuvante para o sobrinho da Rosemary Clooney, embalado por cuja voz dancei em muitos bailinhos na juventude, falo dela não dele, um dos personagens lhe diz ao George Clooney, com todas as letras: "Se não fosse a corrupção os Estados Unidos não teriam chegado aonde chegaram no mundo e nossa economia não seria o que é hoje". Claro que a história se passa antes da marolinha atual.

Não digo que a França tenha sido, ao longo da História, um primor de moral nas relações internacionais, mas a globalização, com o logotipo do McDonald’s e da Coca Cola chegando até remotas tribos africanas, levou consigo ao mundo o relativismo ético: eles matarem nossos soldados é uma provocação inadmissível; nós matarmos os civis deles, ainda que com napalm, é war casualties. Mera casualidade, como se diz na tradução equivocada de "pessoas feridas na guerra". Então eu já não vi air stamp ser traduzido por "estampa voadora", em lugar de "selo aéreo"? É o inglês do futuro, como dizem alguns estudiosos.

O fato é que, na minha juventude, talvez por força da cultura humanista francesa, tínhamos mais esperança do que muitos jovens de hoje. A vida, afinal de contas, não era nem é em technicolor como aparecia nos filmes norte-americanos, fossem os musicais alienantes da MGM, fossem filmes desbotados como os da Republic Pictures e seu trucolor, mas em preto e branco, como aparece nos filmes noir, palavra francesa que está viva até hoje, para confirmar o que eu digo. O que motivou a arguta observação da Thais, ainda criança, vendo um álbum de fotografias de tios e avós: "Mas como os antigos eram pálidos!"

Meu pai, que não havia feito nem mesmo o curso ginasial, cismara de aprender francês. Como se aprende francês, sem ter dinheiro para pagar um professor? Compra-se uma boa gramática, um dicionário bilíngüe e mãos à obra. Jamais havendo saído do Brasil, sua pronúncia era zero, mas seu vocabulário era mais extenso do que o filho universitário metido a besta.

Talvez tenha vindo de seu exemplo minha atração pelos livros, discos e filmes franceses. Yves Montand falando do mar, "qu’on voit danser"; Charles Trenet louvando nossa "douce France, cher pays de mon enfance"; Gilbert Bécaud perguntando, sartrianamente: "et maintenant, que vais je faire de tout cet temps que sera ma vie?" eram um colírio para meus ouvidos. Sem falar no biquinho da Brigitte Bardot, que descobriu nossa praia de Búzios e ficou folle. Eu quis dizer louca e não sanfona, minha senhora. Muitos homens depois, ela descobriu que todos eram uns chatos e, chato por chato, preferiu seus chats. Gatos, of course.

A primeira lição do meu primeiro livro de francês abria com a mesma abertura que se leu lá em cima, a saudar as férias, essa palavra que nos recordava coisas tão belas.

E havia os filmes, sempre em preto e branco, como a trilogia do André Cayatte sobre o sistema judiciário francês; o Rififi chez les hommes, dirigido pelo Jules Dassin, que nos escandalizava com a exibição de um crime perfeito, sem imaginarmos que isso, com o passar do tempo, viraria profissão; Les diaboliques, dirigido pelo Henri-Georges Clouzot, que tinha no elenco nossa Vera Amado, mulher dele e filha do embaixador Gilberto Amado, irmão do Jorge, veja a senhora como o mundo é pequeno.

Verdade que eu não podia ver os peitos da Martine Carol balançando ao vento, pois naquele tempo certos filmes franceses eram proibidos para menores de 21 anos. Antes disso, rapaz não via peito de moça não senhora. A senhora acredita nisso? E havia o vozeirão do Jean Gabin, que eu imitava com certa facilidade, dirigindo caminhão carregado de nitroglicerina no Salaire de la Peur. Será que era ele mesmo? Vou conferir com o Cláudio Pucci.

Deu-se então que a professora de francês, no cursinho preparatório para o vestibular, resolveu, certo dia, cobrar como andava nossa pronúncia. Cada aluno leria dois ou três parágrafos de um livro de texto e ela iria obrigando os leitores a capricharem no biquinho para pronunciar corretamente o u francês. Sussurrei a um colega, talvez o Mané Alonso, mais tarde insigne falencista: "agora vou imitar o Jean Gabin". E assim fiz. Quando chegou minha vez, pensei numa cena do Touchez pas au grisbi, sendo eu o Jean Gabin dando um esporro daqueles no Lino Ventura, valendo-me de caras e bocas. Com a cena na tela do meu cérebro, li o trecho que me competia exagerando a mais não poder nas oxítonas, nos RRs e nos UUs. "Arretez, arretez, s’il vous plaît" diz ela. Depois de me mandar parar a leitura, ela me pergunta, assim sem mais nem menos, a mim que mal conhecia a Praia Grande, quase me fazendo cair da cadeira: "quanto tempo você morou na França?"

Vejam o que é um bom estelionatário, coisa, aliás, que o Gabin interpretava muito bem, ao passo que o Lino Ventura quase sempre era o flic, isto é, o tira encarregado de prendê-lo.

C’est la vie.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


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Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

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