Quarta-feira, 23 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Conheça-se!

Se você está lendo este texto é porque está diante de um computador. E ele está ligado. Certamente você não está de pé. Você já se deu conta de quantas operações foram necessárias para chegar a isso? Aposto que não.

Sugiro-lhe o seguinte: façamos de conta que em teu cérebro há um botão com a indicação rewind. Aperte esse botão para rebobinar a fita. Dê o stop quando você estiver do lado de fora do cômodo onde está o computador. Nesse momento você decidiu que vai ligar o computador. Em razão disso, seu cérebro mandou uma ordem a seus pés, para que eles se movimentassem adiante, alternadamente. Em certo momento, seus olhos enviaram um raio visual que bateu numa porta e voltou aos teus olhos. Dali ele seguiu em direção ao cérebro, onde um decodificador traduziu: "porta fechada". O mesmo decodificador enviou uma mensagem a outro departamento do teu cérebro, que remeteu uma ordem a um dos teus braços (o cérebro sabe qual), que se dobrou ligeiramente para cima, até que a mão tocasse na maçaneta da tal porta. Outra ordem fez a mão girar para a esquerda ou para a direita, de acordo com a ordem dada. Ato contínuo, por força de uma nova ordem, a porta foi empurrada pela mesma mão e você entrou no escritório (ou no quarto, ou na sala, ou onde você havia colocado o tal computador, coisa que o cérebro também sabe).

Talvez a porta já estivesse aberta. Recebendo essa informação, o teu cérebro acessou algo como aqueles funcionários de aeroporto que levantam um bastão aceso, orientando o piloto para não errar o pouso, que é para você saber se e como teu corpo passará entre os dois batentes. No nosso caso, se esses dois funcionários cerebrais não forem acionados, poderá te acontecer o que já aconteceu comigo: indo ao tal escritório de madrugada, não acendi a luz do corredor para não incomodar quem dormia. Resultado: os meus funcionários cerebrais não puderam levantar os bastões de luz e eu meti a testa na quina de um dos batentes, o que produziu barulho, rompimento de supercílio, explicações, sangramento e band-aid.

Você nota que a moça da limpeza aspergiu no escritório algo com cheiro de eucalipto. Eucalipto? Quem te disse que esse cheiro é de eucalipto?

Você senta-se numa cadeira e tuas nádegas remetem uma reclamação ao cérebro: "isto não está confortável". O cérebro envia uma ordem a uma das mãos (ele sabe qual), ela vai até um pouco abaixo do assento da cadeira e o regula de tal maneira que as nádegas enviam outra observação: "assim está bem".

Teus olhos enviaram um raio visual até o computador, o raio retorna, vai até o decodificador, que traduz: "computador desligado". Imediatamente é enviada uma ordem a uma das mãos (preciso dizer que o cérebro sabe qual?), que avança um dos dedos (o cérebro sabe qual!) em direção a um botão, que é comprimido, acendendo-se com isso algumas luzes. Essas luzes tocam teus olhos (o Cearucho poderá esclarecer como é isso lá com ele), que enviam uma mensagem ao tal decodificador: "computador ligado". Em razão disso, o cérebro envia uma ordem a uma das mãos (a mesma de antes), que pousa sobre um mouse. Um dos dedos (aquele mesmo) acessa um dos botões e, em razão disso, um dos ícones que aparecia no monitor do computador transforma-se em uma tela com letras, palavras, frases e figuras. Talvez até música.

Tudo isso havia acontecido e você nem se dera conta disso. Por que?

O que eu pretendo mostrar é que há uma semelhança muito grande entre o nosso cérebro e um computador. Por menos que nós percebamos isso, ambos trabalham com o déjà-vu. Ou seja: você digita uma palavra e o computador protesta: "isso está errado!" Como ele é educado, ele diz isso sublinhando a tal palavra em vermelho. Que quer dizer essa anotação vermelha debaixo daquela palavra? Quer dizer que ele ainda não havia visto palavra igual àquela. Ora, o que o computador ainda não conhece é algo que não existe.

Conosco será diferente?

Releia o texto. A certa altura eu fiz uma indagação: "Quem te disse que esse cheiro é de eucalipto?" Você só dirá que aquele cheiro corresponde a eucalipto se no arquivo do teu cérebro houver um registro dizendo que tal cheiro corresponde a eucalipto. Não é bem um "já visto anteriormente", mas um "já sentido anteriormente". O que mostra uma pequena diferença entre nosso cérebro e o computador; enquanto o computador lida com a visão e com a audição, pois ainda não temos programas com cheiro nem conseguimos saborear os doces e salgados que ali são exibidos, nosso cérebro registra tudo o que os cinco sentidos lhe remetem. Nihil est in intellectu quod non prius in sensibus. Lembra?

Vejamos isso.

Aquilo que aparece no monitor do computador é um conjunto de pontinhos, os tais pixeis, que, combinando-se, formam símbolos. Esses símbolos serão letras, números e figuras.

Faça um teste: aplique o zoom máximo sobre a letra P, por exemplo, no tamanho máximo. Você verá que esses pontos (ou pixels) ficam à mostra nas curvas dentadas da letra. São pontos quadrados, para se encaixarem um ao lado do outro. Quanto mais forte for o zoom, mais destacados ficarão os pixels e, em conseqüência, menos nítida aparecerá a letra, o número ou a figura.

Estudos recentes sugerem que em nosso cérebro acontece algo semelhante. Se alguém aproximar um objeto de cheiro forte de teu nariz e você estiver de olhos vendados, você conseguirá dizer que objeto é aquele? Sim, se você tiver arquivado em seu cérebro tal cheiro com o respectivo nome. Um déjà-vu olfativo, se me permite. Se, nas mesmas circunstâncias, alguém colocar uma colher de doce em tua boca, você conseguirá dizer que doce é aquele? Sim, se você tiver arquivado em seu cérebro tal gosto com o respectivo nome. Um déjà-vu gustativo. O mesmo ocorre com a identificação de um som e a identificação pelo tato.

Ao que se supõe, esse cheiro, esse sabor, essa figura, esse som ou essa imagem tátil já existentes no cérebro, tanto quanto ocorre no computador, são arquivados em "pixels". Se o cérebro, cotejando os elementos daquilo que é mostrado com aquilo que ele já traz arquivado, identificar a identidade de todos os elementos, ele informa o nome do arquivo. Alguém, obviamente, somente dirá "isso é som de flauta" se tiver no arquivo cerebral um som de flauta. É possível que ele, erroneamente, chame de "som de flauta" um som de oboé, instrumento que ele desconhece. Se ele disser que é som de cuíca, procure um otorrino.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

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