Terça-feira, 17 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Placas

 

"Além de políticos e militares, a Revolução Constitucionalista de 32 - movimento armado ocorrido no Estado de São Paulo, entre os meses de julho e outubro de 1932, que tinha por objetivo a derrubada do Governo Provisório de Getúlio Vargas e a promulgação de uma nova Constituição para o país - foi marcada pela ação de voluntários, que em grande parte pertenciam à Faculdade de Direito do Largo de São Francisco."

Migalhas
(clique aqui)

Moro num 11° andar. Bem defronte de minha varanda nasce e morre uma ruazinha, aí dos seus dois quarteirões, se tanto, que tem o pitoresco nome de Caboquenas. Não sei bem quem ali terá sido homenageado pela Câmara local. Teria sido ele algum militar? Um professor universitário? Um banqueiro? Ignoro. Ora, se é para dar àquela insignificante rua o nome de alguém desconhecido, por que não o de alguém não tão insignificante quanto ela e seu nome atual? Por que não lhe dar, num futuro que espero distante, o nome de alguém que, sentado na varanda, entre os vasos de orquídeas parafusados na parede, olha para o nada enquanto redige mentalmente sua próxima crônica semanal? Com a palavra o Paulo Frange, que, além de ser um dos mais laboriosos vereadores de São Paulo, tem a vantagem de ser meu amigo, e saber muito bem que nossos amigos não têm defeitos; e, quanto a nossos inimigos, de nada lhes serve termos qualidades.

Aqui em São Paulo, aliás, algumas placas contendo o nome da rua, praça ou avenida traz um indicativo sob o nome: jornalista, escritor etc. Não sei bem qual o critério que leva alguém a escolher determinado bairro para homenagear determinada pessoa. Meu pai, por exemplo, revolucionário de 32, sim, senhor, é nome de rua no bairro da Mooca, talvez porque foi lá que lhe nasceu um dos filhos. O esclarecimento não consta da placa respectiva, que poderia esclarecer: pai de fulano de tal, batizado na Igreja de São Rafael.

Recentemente houve um charivari dos diabos na USP por causa de umas placas que andaram colocando em portas da tradicional Faculdade de Direito do largo de São Francisco (clique aqui), as quais, até então, só abrigavam nomes de antigos professores, bote antigos nisso!, sob o subjetivo critério do merecimento. Agora o critério seria objetivo, segundo seu diretor anterior: pelo preço módico de R$ 2.000.000,00 algum respeitável morto poderia ter seu nome encimando uma daquelas portas, mesmo que jamais tenha dado, ali ou alhures, ao menos uma única palestra.

Vejamos a biografia de um dos mais recentes agraciados. Indo à Wikipédia, ficamos sabendo que "Pedro Conde, nascido Pietro Conde (Itália, 1922), formado em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi um destacado banqueiro brasileiro. Nos anos 80 foi um dos mais ativos investidores das bolsas brasileiras. Nos anos 90 vendeu o seu banco, o BCN, para o Bradesco, ficou ainda no conselho do banco, mas logo faleceu." Epa! A placa, pelo jeito, foi colocada em faculdade errada, se é que deveria estar em alguma faculdade e não num panteão destinado aos nossos grandes empresários.

Qual a explicação para a contemplação de figuras públicas como essas, postas ao lado das venerandas figuras que já lá estavam antes de eles nascerem? Eis o que disse, segundo Migalhas (clique aqui), seu ex-diretor, responsável pelo chapéu na mão: "Em 2007, a Associação dos Antigos Alunos, a diretoria e o centro acadêmico haviam encetado campanha para a obtenção de fundos para dotar a faculdade de salas de aulas modernas. A campanha pedia contribuição de R$ 1 mil de cada antigo aluno, mas apenas cerca de R$ 650 mil foram arrecadados. Surgiu a possibilidade de que dois doadores construíssem cada qual uma sala. O documento foi assinado pela Associação dos Antigos Alunos, pela diretoria e por representantes de agremiações discentes." Repare na sutileza: "o documento". Qual? Note que não se alude a fundamento legal, algo estranhável vindo de um ex-juiz de Direito, que conhece de cor e salteado o art° 458 do Código de Processo.

Segundo o mesmo informativo, Pedro Conde Filho, ex-aluno da faculdade, disse lamentar a reação dos alunos e afirma que não esperava os protestos contra o nome de seu pai. "A faculdade precisa se modernizar, mas o Estado não tem condições de arcar com isso. Por que ex-alunos bem-sucedidos seriam impedidos de colaborar? Muitas faculdades, no Brasil e no mundo, adotam esse modelo. Agora, não dá para pedir contribuição e não dar nada em troca", diz Conde Filho.

Ou seja, segundo o próprio filho do banqueiro, não se cuidava de homenagem, mas de um autêntico do ut des, como diziam os romanos. Dou-te isto para que me dês aquilo, no dizer de qualquer de nossos civilistas.

Minha perplexidade decorre de minha notória ingenuidade, para não dizer ignorância. Até aqui eu havia suposto que a estátua que se vê na entrada e que desde tempos pré-históricos tem um cigarro aceso colocado por algum gaiato entre os dedos, de há muito amarelados, fosse para lembrar aos alunos daquela faculdade a figura de alguém que se destacou na área jurídica. Quem foi ele? Um tal José Bonifácio, o Moço, sobrinho-neto do outro, o Velho. Vamos, por amor ao tratamento igualitário dos envolvidos, algo que o filho do tal banqueiro certamente sabe chamar-se isonomia, à mesmíssima Wikipédia, para sabermos quem foi o eterno fumante: "Foi professor de direito na escola de Recife e depois em São Paulo, tendo sido titular da cadeira de Direito Criminal e da de Direito Civil. Teve como alunos figuras como Rui Barbosa, Castro Alves, Joaquim Nabuco e Afonso Pena." Nada mau, não achas? Quanto alguém terá pago para ter ele um busto de corpo inteiro logo ali na entrada da nossa velha e sempre novidadeira Faculdade?

Quanto ao José Bonifácio, o Velho, diz a mesma enciclopédia que foi tutor de outro Pedro, cujo nome jamais poderia caber numa placa de porta de sala de aula. Ou de rua: Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, filho de Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon. Conhece ? (clique aqui) Se uma placa comum não sai por menos de R$ 2.000.000,00, evidentemente com financiamento bancário, imagine-se por quanto sairia uma placa em que coubesse o nome do tal tutelado. Nem pensar.

Há nessa questão de venda de placas um pormenor que todos os envolvidos deixaram de lado ou não perceberam. Quando se coloca uma placa com o nome do Barão de Ramalho, por exemplo, implicitamente se está colocando também uma placa invisível, com dizeres como: "Faça como eu fiz, dedique-se, estude e também terá alunos como Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e Afonso Pena." Se, atendendo a sugestão já feita por quem conhece do assunto (clique aqui), vier a ser colocada um dia uma placa com o nome do ex-aluno José Celso Martinez Correa, da gloriosa turma de 60, também se estará colocando a segunda placa invisível que, se conheço bem a irreverência do Zé Celso, teria estes dizeres: "Passei cinco anos aqui e eles não me serviram para nada. Melhor fazer como o Paulo Autran."

Bacana, né? (clique aqui)

Talvez valesse a pena levar-se o mote para um comercial, projeto que meu amigo Gomes Filho acaba de fazer abortar ao revogar a portaria do diretor anterior: ir de metrô à Praça da Sé e, dali, ao Largo de São Francisco: R$ 2,70; ter o nome na porta de uma sala de aula da Faculdade de Direito da USP: R$ 2.000.000,00; merecer, por seu currículo, que seu nome seja dado a uma sala de aula da velha e sempre nova Academia das Arcadas: não tem preço.

Busca verbete por título

A B C D E F G H I J L M N O P Q R S T U V X Z

* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.