Quarta-feira, 19 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 4 de março de 2011

Cordelismo

A rigor, a expressão literatura de cordel refere-se aos livrinhos que, nas feiras nordestinas, eram (e creio que ainda são) pendurados em cordinhas e nos quais há narrativas com ilustrações feitas por artistas locais, à moda de gravuras.

Não sei bem quando começou isso de recitar à maneira dos repentistas nordestinos. A lembrança mais antiga que tenho é de uma reunião de amigos que programaram uma quinzena de férias com as respectivas famílias. Alguns de nós deliberaram fechar um hotel de beira-mar em Santa Catarina, composto de uns tantos chalés. Coincidentemente, o proprietário tinha na família uma juíza, pessoa muito simpática, e um advogado, falante como todos os advogados. O nome dele era Lênine e apenas por isso havia sido recolhido à prisão por alguns dias, ao tempo da gloriosa de 64, até os militares descobrirem que o verdadeiro comunista nunca havia estado no Brasil. "Se alguém deveria ser preso por causa do meu nome, esse alguém é meu falecido pai" dizia o advogado, com toda procedência.

Alugado o hotel todo, rateamos entre nós o custo disso e lá fomos com mulher e filhos. Nessa quinzena criaram-se ou solidificaram-se grandes amizades, especialmente por causa da facilidade das crianças de se entrosarem, além do fato de as esposas conhecerem-se melhor.

Durante uma churrascada, o Gilberto Valente, que eu já conhecia da Faculdade, pôs-se a arreliar os presentes, ao som do seu inseparável pandeiro, imitando o que fazem os cantadores nordestinos nas feiras. Todos riam, mas nenhum tinha coragem de responder aos seus versos. Quando ele se chegou à nossa mesa, ocorreu-me de replicar os versos provocativos dele. Fui ovacionado, pois estava, de certa forma, lavando a honra de todos. Ele treplicou e eu, empolgado, sapequei nova resposta rimada. Aquilo foi longe, ao som do pandeiro e da cerveja.

Depois disso, em mais de uma oportunidade atrevi-me a retomar aquela forma de versejar, empregando, sempre que possível, o linguajar inculto dos cantadores nordestinos.

Quando o Migalhas noticiou que certa senhora estava a processar o dono de um galo, porque este perturbava a sensível vizinha, que trabalhava em casa, isso mereceu este comentário:

Briga de Galo

Eu prefiro um cocorico
a buzina de artomove.
Cum isso nem se comove
quem só pensa em ficá rico.

A Natália Teodoro,
qui trabaia no quintá,
qué fazê o galo calá,
e apresenta o seu choro.

Oça aqui dona Natália:
o galo tomém trabáia:
é ele que acorda o sór.

Eu sei bem do que eu falo
que dinhêro vai pagá-lo
por cantar em dó maior?

Zé Preá e Ontõe Gago são os nomes de guerra de dois amigos nordestinos, ambos amantes desse tipo de desafio. Trocaram farpas rimadas e eu entrei na contenda com estas apaziguadoras estrofes:

Pra Ontõe Gago e Zé Preá

Ocêis dois para com isso!
Gente mais da muderninha,
tão procurano é inguiço
seus vendedô de farinha!

Nordestinos mais coquete,
falano coisa difíci
pra não dizê só tolici
só mostrano gabolici
com isso de Internete.

Onde puséro o cordé?
Cadê nossos repentista?
ão pareceno mané
achano que são artista!

Essa globalização
matô a nossa curtura.
Diga lá: quem mais atura
aicecrim de rapadura
e caubói lá no sertão?

Tenho uns amigos gaúchos que me convidam com insistência para ir ao Sul saborear um bom churrasco com eles e conhecer os Sete Povos das Missões. Uma paulista que lá esteve saiu corrido. O gaúcho, quando chegou o hóspede, disse ao empregado da instância: "Dê-lhe a janta e depois mate." Eu, hein?

Por motivos vários, isso ainda não foi possível, mas deve concretizar-se ainda neste ano. Ou no próximo, que ainda estou na ponta dos cascos. Na troca de correspondência, um deles, da família Maia, fez uma sábia advertência: "Quem é coxo parte cedo". Tomei isso como um mote e fiz-se esta

Homenagem a um gaúcho

"Quem é coxo parte cedo",
frase mais do que batuta.
Um elogio te concedo:
tu és um filho da luta!

Já tem Maia no pedaço
botano sua cuié,
traz a espada de bom aço
vem tarveis com a muié.

Dança o shótis ou baião,
o amigo do nordeste?
Puxa gaita ou rabecão
gaúcho do sudoeste?

Pra saudar nossa amizade,
e abraçar a rapaziada,
eu canto Mário de Andrade
com sua viola quebrada.
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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

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