Quarta-feira, 16 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Crimes da modernidade (Os)

 

"Quinto andar. Artigos femininos!" exclamou o ascensorista, como se falasse com os botões à sua frente. A moça de rabo de cavalo, blusinha curta, ligeira barriguinha aparecendo antes de a calça comprida jeans começar, foi cavando, em silêncio, seu caminho por entre os demais passageiros e deu de cara com o homem grisalho que tentava entrar antes de esperar saírem os que iriam sair.

"Sóri" disse ele, com sotaque de Piracicaba, afastando-se de lado. Ela nem levantou os olhos, passou por ele e seguiu em frente. Ele desistiu de entrar no elevador, rodou nos calcanhares e passou a caminhar ao lado dela. "Que que faz esse cara no setor de artigos femininos?" perguntou ela a si mesma. Tudo o que ela não queria era uma companhia masculina. Andava deprimida depois de mais um rompimento de uma relação sentimental, como se diz hoje. Acabara de descobrir que o primo de seu noivo, com quem ele morava há algum tempo, era algo mais do que apenas primo do seu noivo.

Depois de muito toc toc duplo no corredor vazio do shopping, ele arriscou: "quén ai peiú som cófi?" Ela deu um meio sorriso, desejando por um fim naquilo. "Uai nóti?" respondeu.

Ali mesmo no corredor havia uma coleção de duplas sentadas em torno de mesinhas minúsculas, olhos nos olhos, independentemente de gênero, cor ou idade. Tudo muito moderninho, como pensou a moça. Também se sentaram, e o rapaz, como nos velhos tempos, levantou o braço, para chamar a atenção do garçom. Quando o rapaz chegou, ela viu que, na verdade, era uma moça. Ela olhou a garçonete, procurando não exibir o seu espanto, e pediu primeiro, pensando no "leids fârst", que nem sabia se ainda existia aqui ou alhures. "E seu pai? Que vai querer?" disse a atendente. Antes que a moça esclarecesse o equívoco, ele pediu "cófi e pau de queiju", dando depois um meio sorriso à moça, como se aquilo fosse uma homenagem a ela.

Enquanto a encomenda não chegava, ela foi examinando cada uma das duplas que, voz baixa, trocavam juras de amor ou receita de bolo. Fora criada por uma avó tradicional, dessas de frequentar missa, em lugar de barzinhos, como hoje é moda, e isso certamente lhe dera uma visão deturpada do mundo onde viveria. Pensava que pensava, quando seu companheiro de mesa esclareceu, agora sem sotaque nenhum.

No mês passado ele estava no mercado municipal quando viu no final do corredor um amigo da época de escola, que não encontrava há séculos. Como usa óculos de grau, tipo fundo de garrafa, chegou perto, para não se meter em confusão. Feliz com o reencontro, aproximou-se dele, de braços abertos, exclamando:

- Oswaldo, sua bichona! Há quanto tempo!

E foi com a mão estendida para cumprimentá-lo. Percebeu então que o Oswaldo o havia reconhecido, mas, antes mesmo que pudesse chegar perto dele, viu seu braço sendo algemado.

- Você vai pra delegacia!, disse-lhe o policial que faz ronda no mercado.

Sem entender nada, ele tentou argumentar:

- Mas o que eu fiz de errado? Dei assessoria a alguma empresa quando era deputado? Matei minha amante há mais de dez anos? Assediei minha camareira? Matei 8.000 muçulmanos na Bósnia? Levei o Mappin à falência?

- Homofobia! Bichona é um termo pejorativo. O correto seria chamá-lo de homossexual grande. Crime inafiançável.

Nessa hora, antes mesmo de ele defender-se, o Oswaldo interferiu tentando argumentar:

- Que é isso, meu chapa. O quatro-olhos aí é meu amigo antigo de escola. A gente se chama assim na camaradagem mesmo!

- Ah, então você estudou vários anos com ele e sempre se trataram assim?

- Isso, doutor. É coisa do tempo de criança!

Nessa hora o policial já emendou a outra ponta da algema no Oswaldo:

- Então você tá detido também.

Aí foi a vez de o outro intervir:

- Mas, meu Deus, o que foi que ele fez?

- Bullying! Chamar alguém de "quatro-olhos", por vários anos, durante todo o tempo de escola, é bullying. Também inafiançável.

Oswaldo então se desesperou:

- Que é isso, seu policial! A gente é amigo de infância! É um desses amigos de quem perdi o contato mas estimo até hoje. Vim aqui comprar umas carnes para um churrasco com outro camarada, nosso colega, que pode confirmar tudo!

Nessa hora ele viu o Jairzinho chegando perto, com uma posta de alcatra na mão. Sem entender nada, ao ver o Oswaldo algemado, o Jair chegou falando, no seu jeito debochado:

- Que porra é essa, negão? Que foi que tu aprontou aí?

E aí não houve jeito. Foram os três parar na delegacia e estão respondendo a processos por homofobia, bullying e racismo.

"Nos dias de hoje é um perigo abrir a boca. Melhor fingir que sou norte-americano", explicou ele à moça. "Pior é que no carnaval conheci um baiano em Salvador que é uma glória. Que Pelé, que nada. Aquilo é que é um superdotado." Olhou para um lado, depois para o outro. "Chamar alguém de baiano pode?"

A moça saiu correndo em direção ao fim do corredor, onde havia uma janela escancarada. O que ela não sabia é que logo abaixo da janela havia uma plataforma que, certamente, ampararia seu corpo se por ali ela se atirasse.

Com agradecimento à Dalila, pela sugestão.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

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