Sábado, 15 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A erudição nossa de cada dia

"O filho do erudito disse sua primeira palavra: Progenitora!"

Millôr Fernandes

"Embora a noção de certo e errado tenda a diluir-se cada vez mais com o avanço dos estudos da linguística, pouca gente duvida de que devemos continuar nos orientando pela variedade culta da língua".

Josué Machado, Língua sem vergonha

Quando escrevi sobre o linguajar culto e a linguagem informal, houve quem me censurasse pela galhofa de falar em "Direito Favelário", o que sugeriria que os que moram nas favelas são criaturas culturalmente inferiores. Fui politicamente incorreto, enfim.

Meu dileto amigo João Carlos Martins (clique aqui), cuja vida profícua dá não só livros como filmes, realiza um trabalho admirável na periferia de São Paulo, especialmente na favela de Paraisópolis (clique aqui), uma cidade de lata num dos bairros mais chiques desta capital. Graças a ele, milhares de jovens estão a descobrir a música clássica, talvez até como opção de vida profissional, como aqueles que já lograram obter bolsa de estudo e já se encontram no Exterior aprimorando-se. Por que "no Exterior"? Responda quem puder.

Seria para perguntar: um fato como esse demonstra que todos os moradores da periferia conhecem música clássica? Quantos moradores de favela tocam violino? Sabem distinguir uma valsa de Chopin de um minueto do Mozart, se é que Mozart escreveu algum minueto?

O leitor mais crítico certamente responderá que a maioria dos universitários também não saberia fazer tal distinção, o que nos levaria para o início do problema: o que se ensina hoje aos alunos, seja da escola primária, seja das universidades? Como se aprende a gostar de música clássica?

No meu tempo de escola, para usar a surrada ressalva, aprendíamos latim e música no ginásio. Hoje a palavra ginásio está ligada apenas ao esporte e ali não se toca música, a não ser, vez ou outra, o hino nacional brasileiro, que os jogadores fingem cantar, mascando chiclete.

Enquanto isso, de que modo os chamados "meios de comunicação" desempenham o seu papel de veículos de disseminação de cultura, como tantos deles se intitulam?

Leio no caderno Paladar, do jornal O Estado de São Paulo, que certo vinho "é bem apinozado, expressivo, algo de tostado no nariz, madeira presente e bem integrada. Na boca tem boa acidez, corpo delicado, complexidade e suculência, taninos delicados".

Depois da leitura desse instrutivo texto, que certamente não foi escrito por algum jurista, tanto eu como qualquer morador da periferia estamos em melhores condições de apreciar um Sang de Boeuf, safra 2010. Ou não? Quantos universitários estão em condições de entender o que disse o especialista? A quem ele dirige seu texto?

Continuemos.

Leio no primeiro caderno do mesmo O Estado de São Paulo: "Prova da Unicamp foi para gênios". No mesmo caderno, página de rosto, leio: "A presidente Dilma Rousseff já prepara a primeira bondade de seu governo". A palavra bondade não vem em itálico nem entre aspas, o que já é estranhável, pois se trata de evidente crítica ao governo. O que nos interessa, porém, é o que vem a seguir: "A idéia é elevar o valor máximo dos imóveis financiados pelo programa Minha Casa Minha Vida em grandes centros urbanos".

O que o jornalista pretendeu dizer é que o governo federal autorizou o financiamento também de imóveis que valham mais de R$ 130.000,00, até o limite de R$ 170.000,00. Ou seja, o governo federal não elevou "o valor dos imóveis financiados", como diz o jornalista, mas o valor do financiamento. Em suma, a julgar por esse exemplo, o jornal tem motivos para considerar que só gênios serão aprovados nos exames da Unicamp. O redator desse texto certamente não o seria.

Esse fenômeno, que diz mais com dificuldade em raciocinar do que com desconhecimento da língua, ocorre diante de nossos olhos todos os dias, especialmente quando a emissora de televisão, para ganhar tempo, coloca nos noticiários, além da imagem, um texto correndo da direita para a esquerda, onde se lê coisa como "Fulano chegou na cidade" ou "a estação do metrô será entregue daqui há dois meses". "Há"? Veja o DVD do filme Becket, por mim citado outro dia, e descobrirá que quem redigiu as legendas em português não conhece próclise nem mesóclise. E você, conhece? Algo como "Eles não enganarão-me" aparece ali amiúde, agredindo os ouvidos de quem ainda tem sensibilidade para essas coisas. Há algum departamento do Governo Federal a quem se possa denunciar tal crime contra a língua pátria? Talvez o Ministério Público, sob o tópico "crime de lesa-pátria". Duvido que haja, até porque não haveria político preparado para presidi-lo.

Isso lembra o caso de um grupo de professores que foi ao encontro ("ir de encontro a alguém" é trombar com ele, ressalvo) do Secretário da Educação. Foram atendidos por ele, que deu a palavra ao chefe do grupo. "Viemos aqui à vossa presença para reivindicarmos melhores salários", teria dito o orador. O secretário, ofendido com o emprego do verbo no passado para referir-se a um fato presente ("vimos aqui" ou "aqui estamos") ter-se-ia levantado e respondido: "Vieram e não me encontraram". E saiu da sala.

Recentissimamente, o segundo colocado na eleição para prefeito de São Paulo, logo que anunciado o resultado e certamente sem tempo para consultar algum assessor, saiu-se com esta: "Agradeço os companheiros, agradeço os partidos que me apoiaram, agradeço meus familiares". O candidato Fernando Haddad, mesmo tendo sido ministrro da educação, não distingue objeto direto ("agradeço o presente recebido") de objeto indireto ("agradeço ao Papai Noel a vitória que me caiu no colo").

Já citei em outra ocasião o caso do horto florestal de Campos do Jordão, onde uma advertência diz ser proibida a entrada de animais domésticos. Se eu levar um leão, o porteiro será obrigado a deixar-me entrar com a fera? Na verdade, o que se quis dizer foi: "É proibida a entrada de animais (irracionais), ainda que domésticos". Difícil, não?

Quando uma tabuleta diz que o elevador não funciona por estar em "manutenção" ("ato ou efeito de manter"), quem conhece o significado do verbo manter ("fazer perdurar um determinado estado") sabe que ele nunca mais poderá ser acionado, pois continuará indefinidamente com o defeito que o impede de funcionar. Era isso que o autor da placa queria dizer?

Por falar em elevador, entro num edifício onde nunca estive antes e leio uma advertência (baseada em lei!): "Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo se encontra no local". Consulto o porteiro: "Como eu nunca estive aqui antes, o senhor pode informar-me se esse elevador ainda é o mesmo que estava aqui dantes?". Ao que me consta, mesmo é aquele "de igual identidade; não outro", segundo me ensinam os dicionários. O que a palavra mesmo manda verificar é se não mudaram o elevador que ali havia antes.

Enquanto isso, outro dia, quando perguntaram ao Felipe (clique aqui) se ele já havia comido aquele bolo, o garoto, com seus cinco anos e meio, não deixou por menos: "Se eu tivesse comido, ele não estaria mais aí".

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.