Sexta-feira, 19 de abril de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Chic Buarque

“Saudade é o revés de um parto/ saudade é arrumar o quarto/ de um filho que já morreu”

(Francisco Buarque de Hollanda)


Eu seria pouco original se começasse uma crônica sobre o Chico dizendo que esse moço tá diferente. Pudera, tomando kir no Les Deux Magots e lendo Baudrillard a bordo do Bateau Mouche até eu. Eu nem precisaria morar na Ille de Saint Louis, ali onde só os chiques e novaes, como a minha amiga Noca, compram apartamentos. Ser esquerdista na França até o Sartre, meus caros. Vinhos excelentes, comida boa, companheira compreensiva com tuas puladas de cerca. Que mais queres? E, além disso, quando calha, o dia todo no Roland Garros, vendo o Nadal ajeitar as meias antes de sacar, ou aplaudir o Federer ganhar mais uma partida de tênis, com aquela fleugma suíça. O único problema do Sartre foi que bateu um ar nele durante um certo jogo e cada olho ficou fixado num dos jogadores. Ele conseguia, a partir daí, assistir a uma partida de tênis vendo os dois jogadores ao mesmo tempo, sem ter de estar movendo a cabeça daqui pra lá, de lá pra cá, como nós, pobres mortais. Un œil sur le chat, l’autre sur le poisson, como diria o Chico, agora metido a falar francês. Songes et mensonges, sei de longe e sei de cor. Quando ele canta “acorda, acorda, acorda” ele talvez esteja querendo dizer "d’accord, d’accord, d’accord", depende de quem ouve.


Dizia-se que ele era o maior letrista que o Brasil já produziu. Suas definições de saudade são, simplesmente, irretocáveis. Falo agora do Chico, é claro.


Quando, porém, não tinha o Edu Lobo ou o Tom Jobim na cozinha, suas músicas eram enfadonhas. Pois ele levou a crítica a tal extremo que hoje compõe umas quase dodecafonias que nem ele mesmo consegue decorar. “Confesso que a primeira vez que cantei esta música estranhei muito”, diz ele ao fim de uma delas, coisa assim de um John Cage, no seu mais recente e badalado show.


O show que ele apresenta nem é francês, é britânico, de tão sóbrio. Ao fim das músicas, palmas, muitas palmas, como se tivéssemos acabado de ouvir a Kiri Te Kanawa cantando Messa di Requiem, do Verdi. Ou o Bocelli interpretando o Nessum Dorma. Lá pelas tantas ele repete aqueles requebros desajeitados que ele já havia apresentado em shows anteriores com o falecido mestre Marçal, uma espécie assim de passo de gafieira para japonês ver. A falta de jeito para a coisa continua a mesma. Morrendo o Marçal, bota-se ali outro mangueirense e o contraste está feito. Ebony and ivory, com se fossem nossos Paul McCartney e Michael Jackson. O príncipe Charles samba melhor.


O antigo agitador de massas, que chamava revolução de carnaval e mandava os militares calarem a boca valendo-se de uma homofonia, deu lugar a um tranqüilo avô de três ou quatro netos, alguns deles composições do Carlinhos Brown. O rosto triste, de alguém que talvez esteja pensando “qual, este país não tem mesmo jeito!”, aquele fiapo de voz anasalada de sempre, barriga nenhuma e um par de orelhas que aumentaram de tamanho devido ao rigoroso regime alimentar, “seulement caviar et champagne, monsierur Chico?”, está ali no palco, vendendo saúde.


Sou, confessadamente, uma das milhares, talvez milhões, de viúvas do nosso carioca, como era conhecido na rua Maria Antonia, lá se vão muitas decepções, inconformado com essa besteira de ele querer falar em Benjamins e outras cidades visíveis. Quem não cantou o “quem sabe faz a hora não espera acontecer”, como fez o Abílio Neto, não sabe a efervescência que era aquilo, no tempo em que ser de esquerda era algo um pouco mais do que se chamar Zagallo. Os teóricos diziam, e nós acreditávamos, que o socialismo era o filho bastardo do capitalismo. Pois não é que o filho acabou parindo um pai ainda pior do que ele! Está aí a família Bush que não me deixa mentir: o atual Bush é aquela cara que algum conhecedor da teoria do Lombroso classificaria de. O pai dele o Michael Moore já mostrou quem foi naquele filme em que. E o pai de um a avô do outro? Gente finíssima! Prescott Bush robbed Geronimo's tomb and brought his skull and bones to Yale, diz sua biografia, orgulho do neto, certamente. Violar túmulo de um herói indígena para exibir os ossos como troféu de guerra. Só mesmo um Bush! O bisavô do homem acho que comia criancinha, mesmo sem ser padre.


Agora, falando sério, eu preferia não falar. Ou dizer, como o Chico, alô, liberdade, levanta, lava o rosto, fica em pé; como é, liberdade? Vou ter que requentar o teu café?
Quem de nós, os eternos quixotes, não está de acordo em que se deve sonhar mais um sonho impossível; lutar, quando é fácil ceder; vencer o inimigo invencível; negar quando a regra é vender?


Melhor que copiá-lo será, porém, plagiá-lo. Querem homenagem maior do que o plágio? O lado comercial da Maria da Graça Meneguel certamente fica comovido quando ela topa com a utilização do seu conhecido apelido sendo utilizado por donos de bares e toca contratar advogados e doutoras Dalilas para fazer o moço mudar de apelido. Xuxa, no Brasil, só ela! diz, toda imperial. Mas, lá no fundo, é aquela vaidade que vem à tona. A mesma que eu senti quando uma nossa ex-empregada doméstica nos veio mostrar seu Adautinho, uma graça de garoto, em cuja produção, aliás, eu em nada contribuí.


Pois aí vai o plágio que ofereço ao Chico, a quem rendo as homenagens que ele merece, até porque já murcharam tua festa, pá, mas, certamente, esqueceram uma semente nalgum canto do jardim:

“Andou só por andar, como se fosse autômato.

Num banco de jardim, permaneceu estático.

Pensar, já não pensava. O pensamento, errático,

voava, além de si, como de um ser sonâmbulo,

que traz atrás de si como visões oníricas.

Chorou gotas de dor tendo um sabor insípido;

co’a manga da camisa recolheu as lágrimas;

sentiu dentro de si um mal-estar famélico,

a cara transmudou-se num rostinho angélico

e foi pro barracão, pra tapear as vísceras.

Sonhou matar a fome, então, nuns seios túrgidos.

No catre remendado ele se achou um príncipe:

por manto de arminho ele vestiu a túnica,

que fora do seu pai, quando servira o Exército,

morrera e lhe deixara como herança única.

Buzinas na avenida ressoaram lúgubres:

do sonho não voltou porque morrera eufórico.

No rosto inda se via um como riso cínico,

no gesto inda se via uma postura cívica.

Viveu só por viver, como se fosse autômato.

Sonhou sonhos de cor, tendo visões angélicas.

No catre remendado o pensamento errático

voava além si, pra tapear as vísceras.

Pensar, já não pensava, pois morrera eufórico.

Morreu como viveu: permaneceu estático.

Num banco de jardim ele se achara um príncipe.

Passara pela vida como fosse sândalo:

aos golpes da miséria sucumbira impávido.

Morreu só por morrer, como se fosse errático.”

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.