Sexta-feira, 19 de julho de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

Frases

"... que seja infinito enquanto dure."
(Marcus Vinicius de Melo Moraes)

Há bons poetas, bons contistas, bons romancistas e bons frasistas, que os franceses chamam de phraseurs, o que também significa tagarelas, a mostrar que isso não foi inventado pelo Millôr Fernandes, o soi disant filósofo do Méier, que também se intitula um escritor sem estilo. Quem conhece sua biografia sabe que isso é apenas uma boutade, para continuarmos a homenagear a França. Ele poderia repetir o Paulo Autran: "Ensaiei anos a fio até conseguir ser espontâneo no palco".

Se é verdade que mais valem duas abelhas voando do que uma em minha mão, também mais vale uma frase razoável em minha cabeça do que duas boas frases em cabeça alheia. Eis o princípio que preside esse ramo que é menos da literatura e mais do atrevimento literário. Quando eu disse "dize-me com quem andas e eu lhe direi quem és" houve quem me corrigisse, pois não é isso o que o ditado diz. "Ditado" é o nome que se costuma dar a algumas dessas frases, que valem mais para mostrar a criatividade do autor do que pela verdade que encerram. "Do prato à boca, lá se vai a sopa", como diria algum candidato depois de abertas as urnas.

Quando alguém diz que "nem tudo o que reluz é ouro" eu replico: em compensação, nem tudo que não reluz não é ouro. E daí? "Quem tudo quer, tudo perde" foi o conselho que a mãe do Bill Gates deu ao filho. Grosseiro como ele só, ele limitou-se a dizer-lhe que "a conselhos loucos, ouvidos moucos", inventou a Microsoft e deu no que deu. Eu queria ver a cara da velha sábia hoje.

Há juízes que condenam até a mãe, sob o argumento de que dura lex, sed lex. Outros são capazes de absolver até mesmo um desafeto, dizendo que summum jus, summa injuria, o que mostra que há latins para todos os gostos. "Jura novit Curia" é uma mentira deslavada que qualquer advogado já comprovou a mais não poder. O que nos leva ao mestre Millôr: "a verdade é uma só: todos mentem!"

É verdade que "quando um não quer dois não brigam"? E se esse um for o árbitro da luta? Sabendo que "Deus ajuda a quem cedo madruga", o madrugador, que havia perdido a carteira, descobre que quem a encontrou foi um preguiçoso que passou pelo mesmo local muito depois dele. Fatalmente ele indagará: quem está ajudando a quem?"Quem canta, seus males espanta"? ou "Quem canta seus males, espanta"? Nunca uma vírgula valeu tanto!

Há frases que pedem complementação. "Água mole em pedra dura tanto bate até que fura, ou apenas espalha gotas pra todo lado". "Dê-me um ponto de apoio, uma alavanca e um bom salário e eu moverei o mundo". "Chuva miúda não mata ninguém, a menos que esse alguém escorregue na calçada molhada, caia e bata a cabeça no chão". "Um raio não cai duas vezes no mesmo local, a não ser que esse local seja um pára-raios". "Quem cospe pra cima, lhe cai na cara, a menos que o cuspidor tenha o bom senso de não ficar ali". "Jogo é jogo, treino é treino, bola é bola, grama é grama, chuteira é chuteira".

Os melhores veiculadores de frases são os pára-choques de caminhão. Ou seus pára-lamas. O que nos permite saber que "mulher e estrada são iguais: quanto mais curvas, mais perigosas". "Passa o dia na cerca, não me dá o menor prazer, mas eu como para que meu vizinho não coma. Estou falando do xuxu." "Conduzido por mim, guiado por Deus e xingado por quem eu fechar". "Se casamento fosse bom não precisava de testemunha". "Na minha casa me espera uma loira gostosa." "Sogra é que nem cerveja: boa mesmo só estando gelada em cima da mesa."

Eu mesmo cheguei a escrever um livro com essas gracinhas, que denominei Livro das Sínteses. Ali pus coisas como "Quem nasceu primeiro? O ovo ou a tartaruga?". "Sibéria: o clima não compensa". "Eu, pobre de mãos; tu, rica de seios". Lá pelas tantas, eu disse que o importante não é tanto saberem se eu acredito em Deus; importante é Ele acreditar em mim. Minha vaidade pela autoria durou até o dia em que dei com essa frase, escrita quase literalmente, num livro do Mário Quintana, autor de pérolas como "a esperança é um urubu pintado de verde", livro que ele havia publicado muito antes de eu inventar isso.

O que apenas me confirma aquilo que diz o Ontõe Gago, ou, se não foi ele, algum conterrâneo dele, talvez o Zé Preá: "indéia é ca nem pássaro: avoou, quem pegar é dele!"

Pior que esses plágios involuntários é tentar lembrar quem foi mesmo que disse esta ou aquela frase. Por exemplo:

Uma voz feminina pergunta languidamente: "Vai doer, doutor?" Como a porta do consultório dentário está fechada, a que cena isso corresponderia, na sua imaginação?

"Tire já a mão daí!" é algo que está sendo dito por alguém do sexo feminino. É a mãe mandando o filho tirar o dedo do nariz ou a secretária não gostando das intimidades pretendidas por seu chefe?

"Não conheço esse homem!" foi dita por Pedro Barjonas, ao ser indagado por uma serviçal se conhecia Jesus, ou foi dita pelo Lula quando prenderam mais um membro de seu estafe?

"Vim, vi e venci" foi coisa do Júlio César ou foi o Alckmin saindo da convenção do PSDB?

"Você pode enganar a todos por algum tempo; enganar a alguns por todo o tempo; mas não poderá jamais enganar a todos por todo o tempo" foi dita pelo George Washington a um dos seus ministros, ou pelo Cristóvão Buarque quando foi demitido por telefone do Ministério da Educação?

"A sorte está lançada!". Esta é fácil. É do Presidente candidato depois que resolveu não ir ao debate na TV. Errado? Foi o mesmo Caio Júlio César, ao dispor-se a ir!

"Não concordo nada com o que dizes, mas defenderei com minha vida o teu direito de dizê-lo". Isso foi coisa do Voltaire ou do Márcio Thomaz Bastos?

"Só lamento deixar este governo antes desse rato!". A frase foi dita pelo Danton, referindo-se ao Robespierre, que acabava de mandá-lo para a guilhotina, ou seu autor foi o Zé Dirceu?

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.