Sábado, 21 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Telefonema

Ouvi certa ocasião um palhaço, desses que se apresentam em teatro sem a cara pintada nem nariz vermelho e se denominam humoristas, perguntar ao auditório se alguém ali sabia quem havia inventado o primeiro telefone. Primeiro? As pessoas, de modo geral, numa hora dessas fazem uma cara de gente inteligente, superior, imagine só perguntar uma banalidade dessas a alguém como eu!, que, por sinal. Em suma: não sabem a resposta. E ele dizia que o autor da proeza havia sido o Alexander Graham Bell, famoso inventor nascido em, e que também. Sendo que o primeiro a receber um telefonema foi ninguém menos do que o pai do Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon. Alguém ali sabia de quem ele estava falando? Agora as caras ficaram mais inteligentes ainda, pois, qual o brasileiro que sabe que o popular D. Pedro I tinha um nome que mais parecia lista de chamada de jardim de infância?

Eis o que ele queria dizer: D. Pedro II foi um dos primeiros na História a ser importunado por uma chamada telefônica. D. Pedro II vocês sabem quem foi, pois não? Era aquele velhinho que parecia avô do pai dele. E que tinha uma filha, a Bebel, mocinha travessa, que ele deixava tomando conta da casa quando ia dar suas voltas pela Europa, muito antes de o Juscelino ser chamado de cruzamento de locutor de rádio com aeromoça, tanto viajava o homem, dono de uma voz maviosa, falo do velho Jusça, com a qual cantava as senhoras todas que se dispunham a acompanhá-lo na próxima contradança, pé-de-valsa famoso que era, como então se dizia. Eles ainda não conheciam o Lula, evidentemente.

Pois o D. Pedro barbudo foi o antecessor deles todos. E deu-se que, numa de suas sortidas literárias, pois ele era amigo do famoso fulano, do célebre sicrano e por aí vai, todos morando na Europa, a Bebel resolveu receber em audiência uns donos de escravos que foram levar-lhe um pleito dos mais justos: “criança trabalha, ilustre princesa?” Claro que não, disse ela, ponderada que era. “Velho trabalha?” Igualmente não, respondeu ela, mais ponderada ainda do que a Branca de Neve. “Pois, então? Por que é que eu, que sou o dono do escravo saudável que trabalha, da escrava saudável que também trabalha e ainda faz hora extra na minha cama, tenho de estar pagando comida para as crianças e os velhos que não me retribuem com nada aquilo que gasto com eles? E olha que ainda admito que eles durmam no estábulo, com os outros animais, desde que não os importunem com seu ronco, é claro, sem cobrar aluguel por isso, ilustre princesa.”

A moça, que era a encarnação da ponderação, resolveu, em vista disso, dispensar os velhos e as futuras crianças de morarem na casa dos donos de escravos. Pronto: estavam inventadas as favelas do Rio de Janeiro! E isso se chamou Lei Áurea, não como homenagem a alguma cozinheira imperial, como se poderia pensar, mas porque os donos de escravos puderam, graças a isso, aumentar suas reservas auríferas, o popular l’argent, como lhe chamava o culto pai da mencionada princesa, francófilo dos mais fanáticos. Dinheiro, bufunfa, grana diríamos nós, pobres mortais.

Pois o tal palhaço, depois dessa proveitosa aula de História, fazia nova pergunta: e quem foi que inventou o segundo telefone? As pessoas, cada vez mais inteligentes, se entreolhavam: segundo? Claro, dizia ele. Se não fosse inventado o segundo telefone, como é que o Graham Bell iria saber que o primeiro funcionava? (Aplausos!)

Pois era de um telefonema que eu queria lhes falar. Atendo a tal chamada telefônica dizendo o convencional “Pronto!”. E logo me dou conta de que jamais alguém me explicou porque se deve dizer “Pronto!”, com ponto de exclamação e tudo. Nem por que motivo do outro lado alguém deve dizer “Alô!”, também com a mesma e necessária exclamação, além de inicial maiúscula como aquela. Em Portugal, como sabeis, o que lá se diz é: “Está lá?”. E o de cá certamente responde: “Acabei de sair, pá!”

Podia ser pior. O Albert, por exemplo, que estava na Alemanha, telefona à esposa, que é juíza no Brasil. Atende a “secretária do lar”, como lhe chama a dona da casa, mulher finíssima, incapaz de melindrar a moça com o popular “empregada doméstica”, onde já se viu? “Chame o Constança que eu prrecisa falar co a ela”, diz ele, naquele sotaque de quem mora no Brasil somente há dezoito anos. “Momentinho”. E a Zenóbia vai até o cabeleireiro, três ou quatro quadras adiante, dizer à patroa que o patrão.

Falemos do meu telefonema passivo, antes que a página se acabe. Mania de tergiversar! Logo eu, que nem sei bem o que isso quer dizer! Atendo com a atenção costumeira e a pessoa do outro lado me vem com aquela pergunta que 78% das pessoas costumam fazer em momentos tais, segundo o Datafolha: “Adivinha quem está falando?” E eu respondo da maneira mais lógica que me ocorre: “Do lado de lá ou do lado de cá?” Ele se ofende: “Do lado de cá, é lógico!” E eu aí tenho condições de finalmente dar a resposta correta: “É você. Acertei?”

Era o meu filho, que me queria dizer que estava naquele preciso momento atravessando a rue não sei de quê. Rue? “Pois é, velhão. Estou aqui com a Flávia passando uns dias no Marine National Park, estivemos na baía Lazare, visitando o musée Devoud’s e agora estamos indo almoçar na Île Round.”

Acho que meu filho endoideceu. Você não ia passar as férias na Bahia? “Aquilo gorou, velhão, e resolvemos vir para as Îles Seychelles. Estamos em Mahe. Eme a agá e. Mahe, sacou?”

Sento-me no primeiro banco de jardim que encontro para tentar concatenar as idéias, dispensando as pernas de andar, pois deveria movimentá-las uma depois da outra, coisa que me ocuparia grande parte do cérebro, de que eu preciso todo neste momento solene. Essas crianças! “Amanhã vamos para Praslin, velhão.” Mas isso é nome de cidade ou de remédio, filho?

Eis aonde eu queria chegar. O Graham Bell, que deveria ter ficado restrito ao sino que tinha no nome, me resolve inventar um meio de comunicação que, em tese, serviria para fazer as pessoas se comunicarem melhor. E que ocorreu? Exatamente o contrário, a chamada reversão de expectativa: você fica sabendo que seu filho está do outro lado do mundo não porque ele te avisou com um mês de antecedência que iria para lá, tempo mais do que suficiente para você abrir o mapa-múndi e ficar sabendo onde aquele pestinha vai se meter desta vez. Nada disso. Você nem tem tempo de ficar preocupado, pois sabe-se lá se ele não estará novamente circulando todo fagueiro, como da outra vez, pelas montanhas do Tibé, com ar rarefeito e tudo, pisando gelo que, com aquele sol forte do meio dia, logo logo virará água e ele há de se esborrachar lá embaixo, no meio daquelas pedras, está vendo aqueles pedregulhinhos lá no fundo do vale? pois é disso que eu estou falando. Se ele despencar daqui de cima, não morre na queda, morre de fome durante o percurso até o fundo do vale. E eu aqui no Brasil sem poder fazer nada, nem mesmo dar-lhe os inúteis conselhos que todo pai deve dar a seu filho, mesmo sabendo que ele, sabiamente, levará isso à conta de preocupação de gente que não tem mais nada que fazer. Gente velha é assim mesmo!

Pois agora me toca terminar mais cedo esta caminhada, procurar na Internet um mapa-múndi eletrônico que me mostre qual o tamanho da preocupação que tenho de ter desta vez.

Filhos, melhor não tê-los, dizia o poeta. Se os tiver, que não usem telefone celular, completo eu, suspirando.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


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