Quarta-feira, 19 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Circus nº 23

É Natal

“Tocam sinos/ pequeninos/ sinos de Belém/ já nasceu/ Deus menino/ para o nosso bem”

(Versão nativa do Jingle bells)

O fato de o Natal ser celebrado no mesmo dia em que teria nascido Jesus de Nazaré é apenas uma coincidência, pois um fato nada tem a ver com o outro. Aliás, se nem o ano exato em que Jesus nasceu nós sabemos, que dizer de dia e mês? São comemorações inteiramente distintas, que a malícia de alguns religiosos e a esperteza dos comerciantes fizeram coincidir, como se uma coisa estivesse ligada a outra. Imagino o que aconteceria se a seleção brasileira de futebol tivesse ganho algum campeonato mundial no dia 25 de dezembro. Certamente muitos padres diriam que aí está uma prova definitiva de que Deus é brasileiro! E tome manjedoura adornada com o auri-verde pendão de minha pátria.

Meu querido Eduardo Galeano nos lembra que o local onde Jesus teria nascido era e é um deserto semi-árido, onde jamais caiu um só floco de neve. E, no entanto, fomos ensinados desde criança a comemorar esse nascimento enfeitando pinheirinhos com flocos de algodão, imitação caseira da garoa consolidada pelo frio que teria caído sobre a famosa manjedoura. O que é a História, escrita pelos interesseiros!

Ele poderia ter dito também que a cor da roupa do Papai Noel, dito lá no alto do continente Santa Claus, foi imposta pela Coca Cola, “patrocinadora oficial do Natal”, para que, assim como a criança mija pavlovianamente quando você abre a torneira do banheiro, nós também nos lembraríamos daquele refrigerante quando víssemos o velhinho de barbas brancas descendo pela chaminé de nossa tropical casa. Chaminé?

E ele poderia ter acrescentado que o velhinho, que no Chile é chamado Viejito Pascuero, teria sido inspirado em São Nicolau, um bispo nórdico que gostava tanto de criança (Epa!) que costumava distribuir brinquedos entre elas no fim do ano. Isso pouco tinha a ver com o nascimento de Jesus, tanto que na Itália os brinquedos são (ou eram, antes da influência dos neo-colonizadores, pais da famosa aqua nera del’imperialismo, como diz o Armando, acima citada) distribuídos no dia de Reis, em falsa lembrança ao fato da visita dos magos à manjedoura, a que se refere a tradição cristã, algo que na Bahia é chamado de sincretismo religioso e aqui nem sei se merece o nome. Como isso chegou aos publicitários norte-americanos, que, juntando o útil ao agradável, acabaram contaminando uma data religiosa, é coisa para não admirar. O fato é que Saint Nicholas, Saint Nick, Father Christmas, Kris Kringle, Santy ou Jolly Old Elf tornou-se Santa Claus, uma corruptela do nome do tal bispo: Sinterklaas, uma síntese de Sint Nicolaas. Em inglês, Saint Nicholas.

O fato é que, no espírito do show-business natalino, um shopping center de São Paulo, desses que promovem periódicos sales, com mercadorias em off, e que não usam o sistema delivery, contratou rapazes e moças, fantasiou-os como príncipes, princesas, fadas, gnomos e elfos, espalhando-os pelos pisos do edifício, forçando a construção de um “ar natalino”. Dois deles passam por mim e se dirigem a um grupo de moças, que eles saúdam alegremente. Elas, com o ar aborrecido de quem havia sido interrompido quando cuidava de assunto importante, recuam, deixando-os passar por elas, sem nada dizerem. Eles apressam o passo, dirigindo-se sabe-se lá a quem ou aonde.

Mais adiante, ouço uma saudação às minhas costas: "Olá! Como vai?" Viro-me, pensando dar de cara com o Luiz Flávio, que, tendo morado na Espanha por alguns meses, ainda nos pergunta, com sotaque da Universidade Complutense, “¿Que tallllll?”, mesmo quando não estamos em alguma assambléa. Não era ele. Era um "príncipe", saudando uma garota de uns cinco anos, que, na companhia dos pais, olhava, muito assustada, para o moço fantasiado. Os pais não mostravam o menor entusiasmo pela presença de Sua Alteza, que permanece com meio sorriso no rosto, enquanto o trio se afasta, sério.

Desço alguns lances de escada e agora é uma fada e sua acompanhante, ambas devidamente paramentadas, que tentam arrancar um sorriso do japonesinho que se esconde entre as pernas dos pais. Os japoneses limitam-se a conservar a expressão que têm todos os japoneses. Reparo que por ali pessoas vão e vêm, com o mesmo aspecto que têm as pessoas que vão e vêm pelo viaduto do Chá durante os dias da semana. Ou pela rua Direita. Saio do shopping com a sensação de que os contos de fadas não estão com nada. Ainda se fosse a "Liga da Justiça"... Essa, certamente, como diria um de meus netos, é dez.

À noite, eu e minha mulher vamos a um determinado restaurante, no bairro dos jardins, onde se realizará uma "festa de confraternização" patrocinada por uma entidade a que pertencemos. É uma casa minúscula, cujo proprietário aproveitou todos os espaços para colocar mesas e cadeiras, só sobrou o teto e parte das paredes. Quando a pessoa sentada às suas costas vai levantar-se, a cadeira dele esbarra na tua, exigindo que você comprima a barriga contra a mesa para que o vizinho possa sair. Estivesse ali o Malheiros Filho ... Os grupinhos vão-se acomodando como dá, ocupando as separadas mesas. Um sinalzinho de mão ou um beijinho enviado com dois dedos sobre os lábios é a saudação dos que se conhecem. Cada um se serve junto a um balcão situado em ponto estratégico da casa, algo nada diferente do “por quilo” da semana. Com o passar do tempo, alguém se levanta, ergue e balança o braço direito, dando um lento giro no corpo, em sinal de que se está retirando. É um ritual que faria orgasmar um Roberto da Matta. O ritual se repete de tempos em tempos, até que uns poucos nos reunimos na calçada, em frente ao restaurante, onde cada um paga pelo estacionamento do seu carro, que fica ali aguardando, com aquele ar de quem fica aguardando automóvel nos demais dias do ano.

Ali, um casal, desenxabido, pergunta pela confraternização que iria haver. “Já houve”, diz alguém, sarcástico, às nossas costas.

O ar cansado dos que esperam o manobrista trazer o automóvel não deixa dúvida quanto a isso: aquilo foi apenas mais um cumprimento de ritual, mais um compromisso como tantos que nos haviam ocupado durante o ano prestes a findar-se.

Uma senhora suspira e comenta que ainda lhe falta cumprir um derradeiro ritual: preparar a ceia de fim de ano, recepcionando "aquele bando" que devorará em menos de 10 minutos o que ela levou horas para preparar. E mais uma vez eles se levantarão da mesa sem uma palavra de elogio ou de agradecimento. “Nem a tirar a mesa eles ajudam”, suspira ela.

Penso ouvir lá longe algum anjo tocando harpa. Reconheço a música: djingo bél. E noto que a harpa, como certos uísques, é paraguaia, tocada pelo Luiz Bordón.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

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