Domingo, 16 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Esperança

E aí, quais são tuas expectativas para 2007? O Millõr Fernandes já solucionou o problema dele: neste ano não vai ler jornal, nem revista, nem ver noticiário de televisão. Sendo ele o famoso filósofo do Méier, certamente sabe o que dizem seus colegas: aquilo que você não conhece não existe.

Um de meus temores quando escrevo é que, pelo fato de usar, por vezes, certos argumentos com ênfase excessiva, acabe dando ao leitor jovem uma visão amarga da vida, que, no limite, significa desesperança. Muitos confundem ter esperança com ser otimista. A diferença, porém, entre o otimista e o pessimista é mínima: o primeiro acha que se morre porque se havia nascido; o segundo acha que nascemos para depois morrermos. Já o realista simplesmente dirá que tudo tem início e fim. Nenhum dos três nega o fato óbvio: a cada dia estamos mais longe do berço e mais próximos da sepultura. Você discorda disso?

A quem me cobra por isso, transmito uma mensagem enviada por uma amiga, pela Internet, na qual ela recorda que, há alguns anos, nas olimpíadas especiais de Seattle, também chamadas de Paraolimpíadas, nove participantes, todos com deficiência mental e/ou física, alinharam-se para a largada da corrida dos cem metros rasos. Ao sinal, todos partiram, não exatamente em disparada, mas com vontade de dar o melhor de si, terminar a corrida e ganhar a prova.

Todos, exceto um garoto, que, logo no início da caminhada, tropeçou no piso, caiu rolando e começou a chorar. Os outros concorrentes, tomando conhecimento do incidente, fizeram o que pessoas “normais” certamente não fariam: diminuíram o passo e olharam para trás. Vendo o garoto no chão, pararam e voltaram todos eles até onde ele estava caído. Todos eles! Uma das meninas, com Síndrome de Down, ajoelhou-se, deu um beijo no garoto e disse: "Pronto, agora vai sarar". E todos os nove competidores deram-se os braços e andaram juntos até a linha de chegada. Você chorou com isso? Eu também. Outros chamarão isso de pieguice. Rótulos. Eu prefiro registrar que a Internet serve para algo mais do que ser usada para os desocupados nos enviarem piadinhas calhordas. Ou obscenidades.

As pessoas que viram a cena repetem essa história até hoje. Por quê? Certamente porque, lá no fundo, nós sabemos que o que deveria importar nesta vida, mais do que ganhar sozinho algum prêmio, é ajudar os outros a vencer, mesmo que isso signifique diminuir o passo e mudar de curso. Uma mudança de rumo voluntária e consciente, que substitua a vida desumana que tantas vezes nos parece haver sido imposta “pelas circunstâncias”, quando abrimos mão de valores que nos são fundamentais para mantermos aquela que nos parece a rota adequada e da qual não deveríamos jamais abdicar.

Por algo que não se pode chamar de coincidência, necessitando de ir a dois consultórios médicos diferentes num breve período, lá encontrei duas revistas diferentes com a mesma matéria de capa: a procura da felicidade. Em ambas são entrevistadas pessoas comuns, mas também pessoas especiais, como são os psicólogos e os psiquiatras. A tônica é sempre a mesma: a vida que a sociedade contemporânea está produzindo é fonte de stress e, no limite, alguma forma de desequilíbrio mental. Cedo ou tarde pagamos um preço elevado por cedermos a isso que se chama “vida moderna”. E o resultado é a sensação de vazio existencial. Isso poderia ser diferente?

Sei que não é fácil fazer alguma coisa quando se vê (e se vê isso cada vez mais) pessoas abrindo sacos de lixo à procura sabe-se lá de quê. A cena nos causa engulhos e nos sentimos impotentes diante de dramas como esse. Ou vemos pessoas saudáveis que, em lugar de estarem assaltando ou vendendo drogas, como tantas outras, limitam-se a recolher latas vazias e sacos de papel, que venderão por preços irrisórios. Alguém reconhece a difícil opção que essas pessoas fazem?

Cada um de nós teria, certamente, casos e mais casos para contar a respeito disso. O que importa, creio, é que não podemos mais permitir que em nome de um absurdo progresso (que, em nosso país, ainda privilegia tão poucos) as desigualdades sociais aumentem de forma galopante, atingindo-nos fundo, ainda que indiretamente, pois somos beneficiários diretos desse sistema injusto. Você não?

Que nos fique, pelo menos, o direito de nos indignarmos e tentarmos, a todo custo, manter a esperança em dias melhores. Esperança, essa plantinha teimosa que insiste em nascer nas impensáveis rachaduras do duro cimento das ruas. E que, por vezes, nos faz fazermos coisas que contrariam o pensamento vigente.

Essa imagem da plantinha foi apresentada por mim no discurso de encerramento do VI Encontro de Tribunais de Alçada ocorrido em Belo Horizonte em 1982, causando um impacto que eu não poderia esperar. Até o Sydney Sanches se utilizou dela depois, sem me pagar direitos autorais. Muita gente se lembra mais disso do que da tese que apresentei, em nome do TACRim, a qual, aliás, não tinha nada de extraordinário. Foi aprovada e virou lei 20 anos depois menos por sua novidade e mais pela acomodação daqueles que diziam estudar o processo penal.

Você certamente terá algo semelhante a contar. Talvez não o faça por temer a crítica dos que o achariam “exibido”. Você pauta sua vida pela opinião alheia? Se o besouro ouvisse os cientistas, não teria tentado voar, pois, anatomicamente, isso é impossível. Como não sabe ler, ele consegue voar!

Vou mais longe: nos últimos dias do ano que passou, vi uma orquestra sendo regida por um maestro de longos cabelos brancos, que não trazia batuta na mão. Olhando bem aquelas mãos crispadas, reconheci ali o ex-pianista João Carlos Martins. Você sabe a história desse homem?

Pianista aplaudido no mundo inteiro, um dos maiores que o mundo já produziu, ele sofreu inúmeros acidentes que culminaram por comprometer-lhe os movimentos da mão direita. Uma queda num jogo de futebol, uma operação e um assalto quando ainda convalescia. Cirurgias e tratamentos diversos que não serviram para muito. A mão direita estava perdida. Ele, então, passou a tocar piano apenas com a mão esquerda. Chegou a lançar um disco com áreas escritas apenas para aquela mão. A insistência dele e o tamanho do esforço causaram-lhe um novo drama: perdeu também o movimento da mão esquerda, graças a um tumor que ali se alojou. Certamente muitos de nós chegariam à conclusão de que a música era em sua vida um capítulo encerrado. Seja feita a vontade de Deus! É partir para outra.

Pois ele, levando em conta seu capital acumulado ao longo de tantos anos, que é o seu profundo conhecimento musical, não entregou os pontos. Resolveu tomar aulas de regência, aos 63 anos de idade, e trocou o teclado do piano pelo pedestal da regência, dando-nos um tocante exemplo de vida. Neste início de ano fez sua primeira regência no Carnegie Hall, Nova Iorque, onde tantas vezes já se havia apresentado como pianista, um dos mais completos intérpretes de Bach que o mundo já produziu.

Aliás, há um DVD que merece ser visto: Martins' Passion, que é a narrativa da paixão, no sentido de calvário, desse homem extraordinário, que, entre outras coisas, deu aula de música a internos da Febem, coisa que muito juiz e promotor poderia ter feito e nunca se lembrou de fazer. Se estiver desanimado ou se achar que 2007 será igual aos demais anos que tanto nos decepcionaram, chame os amigos e ponha o DVD pra rodar. Garanto que não vai decepcionar-se.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.