Quarta-feira, 16 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 16 de março de 2007

Agressividade

Os jogadores cercam o juiz da partida de futebol e um deles lhe desfere uma cabeçada no rosto, pouco lhe importando que a cena esteja sendo registrada pela televisão, o que o fará ser suspenso por vários jogos. Jovens despejam tiros contra seus alvos, pouco lhes importando a vida alheia nem o risco que correm? Dá para explicar isso?

Se nós nos dispusermos a estudar a origem e a motivação dos esportes, veremos que todos eles estão, invariavelmente, ligados a fatos naturais da vida do homem, sendo, quase sempre, resultado de uma sublimação daquela natural tendência para a prática de atos agressivos. Ou seja, a substituição de algo menos aceitável por algo mais aceitável socialmente. Seria cômodo ilustrar isso com o óbvio esporte do boxe, onde, sem subterfúgio algum, temos a briga entre dois homens. A correspondência entre a agressividade natural e a agressividade sublimada é evidente, até porque as normas de civilidade exigem que os punhos sejam cobertos por uma luva acolchoada, que se poderia indagar se são assim para proteger o rosto de quem apanha ou o punho de quem bate. Sintomaticamente, nos tempos pós-modernos as luvas estão sendo abolidas.

O arremesso de lança, eufemicamente chamada dardo, considerado um dos jogos olímpicos, tanto quanto a disputa de arco e flecha e o tiro ao alvo não estão aí para nos indicar que o espírito do caçador, que se eternizou nas pinturas rupestres, continua dentro de cada um de nós? Que outra explicação se daria para esses enfadonhos esportes?

E já que falamos em jogos olímpicos, qual a origem da mais clássica das provas olímpicas, a corrida da maratona? Segundo reza a lenda, após uma árdua batalha na região de Marathon, quando os persas acabaram desistindo de invadir a Grécia, no ano 490 a.C., o soldado Filípedes foi encarregado de avisar os seus compatriotas da vitória dos atenienses. Para isso, correu cerca de 36 quilômetros, para levar a boa-nova. Depois de fazer o feliz anúncio, morreu de exaustão. Aquela prova seria uma homenagem àquele herói grego e, portanto, recordação de uma batalha sangrenta. Lembrar para esquecer.

Inúmeros esportes coletivos são disputados em torno de uma bola. E que é a bola senão a simbolização da cabeça do adversário? A vontade de chutar a cabeça do adversário é sublimada e, com isso, chuta-se uma representação dela. Mal comparando, é como se faz no dia de Judas. Verdade é que muitas vezes chuta-se também o adversário.

Admira, pois, que os meios de comunicação reajam com tanta indignação diante da chamada violência nos estádios de futebol. Um pouco mais de atenção àquilo que ali é representado mostraria que não estamos diante de algo tão extraordinário assim. É campo de futebol como poderia ser campo de batalha. Campo cá e campo lá.

Realmente, quando uma tribo pretendia partir para a guerra, a primeira preocupação era pintar o corpo com cores muito vivas, o que, evidentemente, também estava sendo providenciado pela tribo adversária. Para que isso? Para que, durante a refrega, o guerreiro não perdesse tempo tentando descobrir se a cabeça em que pretendia desferir o golpe de borduna pertencia a alguém de sua tribo ou da tribo adversária. Pela diferença de cor da tintura essa dúvida não teria mais razão de ser, ganhando-se tempo precioso e evitando-se o resultado do chamado fogo amigo. Eis a origem das cores das camisetas.

Hoje, graças ao avanço da civilização - pelo menos é assim que se costuma referir à passagem da Humanidade dos estágios anteriores para o atual -, não mais temos tantas guerras de tribos (hipoteticamente falando, caro leitor, pois não sou tão ingênuo assim). Mas o homem conserva em si a natural agressividade, a necessidade de conquista, a força que o empurra para a luta. Que fazer com essa força? Sublimá-la.

O que acontece nas disputas coletivas é precisamente isso: cada tribo veste um uniforme que distingue seus componentes dos componentes do outro time. Em lugar de lutar-se para conquistar a cabeça do adversário, ela já vem trazida pelo árbitro: a bola. E o juiz está ali para evitar que a agressividade se transforme em violência.

E se isso não é bastante para convencer meu prezado leitor, responda: por que motivo, ao fim de um campeonato de futebol, o vencedor ganha uma taça? Trata-se, ainda uma vez, de uma cerimônia simbólica: originalmente, era na taça que os vencedores bebiam o sangue dos vencidos, para se apropriarem do espírito dos derrotados, da coragem por eles demonstrada na luta. Por vezes, em lugar de taça, o vencedor leva uma salva, uma bandeja de prata. Não se esqueça que foi numa bandeja de prata que a cabeça de João Batista foi ofertada por Herodes a Salomé. Aliás, na missa dos católicos se bebe sangue e se come carne, segundo nos diz o sacerdote.

Se uma partida de futebol contém, como estamos convencidos de que contém, os mesmos ingredientes de uma guerra entre tribos, com as alterações introduzidas pela civilização, a agressividade que ali é descarregada é a mesma força natural, o empenho em vencer a morte, pois toda vitória é sempre, em síntese, um triunfo da vida contra a morte. Ora, enquanto a guerra está limitada pelas quatro linhas do campo de luta e sob o controle de um juiz, essa agressividade é geralmente contida pelos cartões amarelo e vermelho. Exagerarei se recordar que o de cor de sangue indica que o guerreiro está fora da luta, como se tivesse morrido? Esse simbolismo certamente não passou pela cabeça de quem escolheu essa cor para o cartão, mas que seguramente estava guardado em seu mundo inconsciente lá isso estava. Com o hábito de os torcedores usarem a mesma camisa do seu clube - isto é, também se prepararem para a guerra -, o confronto entre torcidas, agravado pela instituição das torcidas uniformizadas, como desdobramento da tribo, tornou-se inevitável. Agora não estamos mais diante de uma luta de onze contra onze, mas de um número incontável contra outro número incontável. Será de admirar que de uma guerra dessas surjam mortos e feridos?

A violência, portanto, a nosso ver, nada mais é do que a agressividade mal administrada. Quando sabemos que todo ser vivo é dotado de agressividade, fundamental para a preservação do indivíduo e de sua espécie, temos duas alternativas para evitar que ela se torne violência: ou bem nos utilizamos das soluções radicais, como aquela proposta por Anthony Burguess, em seu livro, magistralmente filmado por Stanley Kubrick, ou bem tratamos de criar mecanismos de sublimação dessa agressividade, reeducando o ser humano, sem transformá-lo na laranja mecânica do livro. O marginal juvenil Mike Tyson tornou-se o campeão mundial de boxe Mike Tyson.

O tipo de mega-cidades que permitimos que se fossem formando tornou-nos todos membros de um enorme formigueiro. Olhe um formigueiro e veja se consegue distinguir ali a formiga Dolores da formiga Anastácio. Veja a praça da Sé ou uma favela do Rio de Janeiro a partir de um helicóptero e não verá ali pessoas individualizáveis. Ali não vivem indivíduos, mas meros números estatísticos. Logo, não pode haver inter-relacionamento próprio de seres humanos, mas de meros insetos. Que diferença faz se, para manter a ordem, policiais disparem suas armas contra suspeitos, provocando a morte de alguém pelas fatídicas balas perdidas, da mesma forma que, para matar baratas, eu uso veneno que, por fatalidade, acaba sendo comido por meu cachorro? No fundo, é a mesma coisa. Morre o cão por fatalidade e por fatalidade morre a pessoa alheia ao tiroteio.

Os administradores de nossa sociedade, no entanto, têm preferido tapar os olhos e os ouvidos para essa realidade. Qualquer um de nós sabe que deixar crianças ao abandono pedindo moedas junto a semáforos ou nos vendendo bugigangas é colaborar para que se tornem malandros. Reparem na carinha cínica que elas fazem quando nos pedem esmola. Permitir que jovens aprendam com os líderes criminais qual o padrão de conduta próprio de adultos, em lugar de lhes darmos algum modelo de convivência social, só pode levar à formação de novos líderes. Líderes de quê?

Ocorre que quando aquelas crianças ou estes jovens resolvem praticar aquilo que permitimos que eles aprendessem nas ruas e no abandono, fala-se em diminuir a idade da imputabilidade penal, o que, em termos práticos, significa punirmos crianças e jovens pelo abandono a que os havíamos condenado. Baixemos para 16 anos a idade limite. Por que não 14 anos? Ou 12? É só questão de tempo.

E apela-se para um argumento irrespondível: ou fazemos isso ou o medo nos manterá cada vez mais reféns dos criminosos, qualquer que seja a idade deles, com o onipresente risco das balas perdidas.

Mutatis mutandis, é o mesmo que fazemos quando as formigas nos invadem o jardim ou os ratos e as baratas nos invadem a casa porque negligenciamos as regras de higienização. Não teria sido melhor que houvéssemos limpado melhor a casa?



Do livro Violência no Esporte (autoria coletiva), aqui ampliado.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


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