Terça-feira, 25 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 30 de março de 2007

Chico Louco

Chico Louco era o singular apelido do magistrado, nome que dispensa maiores explicações, sendo famosa na comarca a motocicleta com que Sua Excelência cruzava as ruas da cidade, passando vezes e vezes diante do quartel local, sempre em alta velocidade, para ser homenageado com os cumprimentos do soldado de plantão na fronteira guarita, o qual lhe batia sonora continência, juntando estrondosamente os dois cascos tal como lhe determinava o RDE, a cada vez que isso se dava. E ele que não o fizesse! Se não for eu a quem ele irá saudar para justificar o soldo recebido?

Estando a acumular comarcas no período de férias, visitava-as a bordo de sua Harley Davidson devidamente equipado como convém a quem se dispõe a tal aventura que insta não dar azo às Parcas para não abrir vaga na carreira precipitadamente para gáudio de seus queridos colegas como dizia Sua Excelência e punha aquele belo capacete que parecia ter saído da falecida cabeça de algum soldado ariano do III Reich. E havia advogados que aceitavam carona no incômodo veículo, olha a temeridade! como o doutor fulano, que, no entanto, não conseguiu chegar a seu destino porque, respeitoso em demasia, furtou-se de circundar a cintura de Sua Excelência com os necessários braços que manteve ao vento até que numa curva vencida com franco exibicionismo por parte do piloto Sua Senhoria estatelou-se no asfalto, fato singular e inesperável de que Sua Excelência só tomou conhecimento quando, ao estacionar sua possante máquina na garagem do fórum do seu destino, deu pela ausência do causídico. Ingrato! Nem despedir despediu-se!

Em sua comarca, como em muitas mais, a sexta-feira era destinada a trabalhos burocráticos forma eufêmica de dizer que o juiz não aparece no fórum, em nome da chamada semana inglesa ou das inúmeras sentenças em atraso que insta por em dia e como fazê-lo tendo de atender partes e advogados? E foi precisamente numa sexta-feira que o doutor sicrano, titular do conhecido escritório de advocacia sicrano e associados, sendo estes inúmeros, mais os não associados também inúmeros e os inúmeros estagiários e inúmeras estagiárias, ditos solicitadores acadêmicos naquele tempo, desceu de um táxi aéreo no aeródromo local que ele não era homem de vencer distâncias de automóvel, mesmo porque a despesa seria lançada na conta do augusto cliente, sendo que o fato de o próprio titular do escritório e não algum dos inúmeros associados ou dos inúmeros advogados não associados ou ainda algum dos inúmeros estagiários, ditos então solicitadores acadêmicos, não o terem feito já era indicação da magnitude da causa e do poderio econômico do cliente.

Chegado ao fórum, o ilustre advogado, desses de chamar desembargador de você, ali não encontrou vivalma para espanto seu que supôs haver chegado ao local em dia de feriado municipal, o que logo foi desmentido pelo porteiro que lhe explicou que Sua Excelência estava fora em correição. Mas cuida-se de medida extrema urgente e inadiável que insta seja submetida a Sua Excelência de imediato, sem tardança alguma. A correição é no cartório da dona Geny diz o porteiro com seriedade. E onde fica esse cartório senão no fórum como os demais? Esse fica num local mais retirado como esclareceu então o porteiro, o senhor tem de pegar um táxi e ele lhe conduz até lá, sugeriu ele a errar a flexão do objeto direto como se indireto ele fosse.

E o nosso advogado que chama desembargador de você foi até o centro da cidadezinha onde perguntou: quem saberá levar-me ao cartório de dona Geny e todos eles disseram qualquer um de nós e ele escolheu o carro mais confortável e com ar condicionado sem atentar para isso de primeiro aquele, eu estou pagando eu escolho, e o carro mais confortável levou-o por estrada de terra até um local onde se avistava um sobrado situado no alto de uma pequena elevação ricamente gramada, com uma discreta rampa que levava até à porta principal do edifício, rampa essa cercada de flores que me pareciam ser petúnias não tenho muita certeza talvez alamandas.

E ele agora tira do bolso direito interno do bem cortado paletó a carteira de couro alemão e procura ali umas notas para pagar o taxista que lhe estende a palma da mão direita, deixe-se disso é por conta da casa. Por conta da casa? Isso mesmo, tenha uma boa tarde e aproveite.

E o advogado com a pasta de couro também alemão debaixo do braço cruza o belo portal do sobrado e é atendido por uma bela moça que lhe diz em que posso servi-lo? Dona Geny por gentileza! Quem deseja? Diga que é o doutor sicrano, advogado em São Paulo, que tem uma petição para despachar em regime de urgência com. Um momento, um momento, diz ela e se põe a subir a escada de mármore que havia à esquerda, com corrimão vazado que permitia ao importante advogado apreciar as belas pernas da moça, o que para ele não era muita novidade porque em seu escritório para serem admitidas como estagiárias as moças deviam de.

Pode subir, doutor, pode subir. A voz feminina vinha lá de cima e não pertencia à moça que o atendera e ele agora está a subir a mesma escada, sem mostrar suas feias pernas porque o terno de tropical inglês impede a exibição delas, para sorte de eventuais espectadores, e logo ele está lá em cima, sendo atendido por uma senhora um tanto gordita cabelos louros penteados com laquê colares e mais colares de falsas pérolas a cobrir-lhe o gordo pescoço, sendo que a falsidade das pérolas foi o juízo que ele fez, além de um decote que se poderia chamar de generoso não mais do que isso, o que lhe trouxe à mente a velha anedota da mulher peituda com decote vasto onde homenageava em um broche o quadro célebre do Leonardo da Vinci, ali reproduzido em miniatura. Ao que ela lhe perguntou ao homem que não lhe retirava os fixos olhos dos peitos: o senhor está admirando a Ceia do Senhor? Não, estou é admirando os seios da senhora!

Acompanhe-me, doutor, acompanhe-me. E eles seguem pelo corredor acarpetado com uns desenhos de flores que se repetem a cada passo que eles dão até uma porta lá no fundo, em que ela bate duas vezes com dois dedos dobrados, com delicadeza, entre entre, e agora a mulher abre a porta em que havia batido delicadamente por duas vezes com os dedos dobrados e faz um sinal solene ao advogado que trata desembargador de você, indicando-lhe que entre, o que ele faz e ela fecha a porta sem entrar.

O advogado agora está com o chapéu de autêntico panamá na sua mão direita dele pasta de couro alemão em baixo do braço esquerdo também dele a olhar curioso as paredes daquela sala onde faunos e sereias dançam alegremente, ele não imagina como sereia poder dançar sem ter pernas mas é isso que as pinturas sugerem sendo que as pinturas parecem ter sido feitas por algum artista local, coisa que não se confundiria jamais com as pinturas das paredes da Igreja do Santíssimo Sacramento, no Vaticano, para citar apenas uma, que ele visitou naquele Ano Santo, como representante da Ordem dos Advogados, ele que é congregado mariano e membro da Sacrossanta Ordem dos Templários, partícipe desde remotos anos da anual festa dedicada a Santo Ivo, com direito de publicação da conferência então feita, dita homilia, no boletim da AASP, em folhas destacadamente azuis, e que jamais havia suposto entrar em uma sala tão insólita como aquela, sendo insólita a palavra de que ele se utilizou quando, em reunião ordinária, narrou a seus inúmeros associados aquela incrível aventura de que fora protagonista.

E a petição, foi despachada ou não foi? Calma, calma, uma coisa por vez, diz ele, fazendo uma pausa para tomar um gole da água que o aguarda ao lado, em copo de cristal da Boêmia onde quer que seja isso e lhe pergunta aos colegas são servidos? E uns dizem sim e outros dizem não e a maioria fica silente esperando o resto da história.

Pois não doutor foi a voz que ele ouviu, o que muito o encabulou pois, a falar verdade, não havia reparado que havia um homem naquela incrível sala. Um homem inteiramente nu, se permitido for imaginar, pois da cintura para baixo ele estava protegido por uma alvíssima espuma de sabonete Phebo, se não me falha o olfato, já que se encontrava o tal homem sentado dentro de uma banheira, mais exatamente um arremedo de um nipônico ofurô, tendo na boca um charuto certamente vindo de Havana se não lhe falham as narinas profissionais do doutor sicrano ele mesmo um fumeur de bons charutos o que ele faz no clube destinado especificamente a isso, fiquem os senhores sabendo! e aquele olor que lhe era muito familiar, pois charuto não tem cheiro mas olor, como ele disse aos colegas que se divertiram muito com a tirada, não fosse ele o chefe deles todos, e o homem do charuto na boca diz novamente pois não pois não.

Quer dizer que o senhor? Doutor, estamos perdendo tempo, diz o homem nu enquanto enxuga as mãos em uma toalha felpuda branca branca como a fumaça do charuto, e logo lhe diz o senhor tem uma caneta aí doutor, que a minha ficou no paletó. Pois não, pois não, diz o doutor sicrano tirando sua caneta preta do bolso do paletó e entregando-a ao homem sentado dentro do ofurô, que repara que ela tem uma estrela branca nos fundos externos da tampa, e com a outra mão o homem do charuto pega a petição e, com incrível perícia, escreve ali mesmo jota conclusos com urgência dia tal do mês tal e ano tal e assina com aquela assinatura escandalosa que ocupa quase meia página, ressalvado o exagero, e devolve a caneta, que olha demoradamente antes de entregar com a petição ao advogado que viera da capital e que agora vai pedir à secretária da dona Geny que lhe chame um táxi por obséquio, que o vai levar de volta ao fórum, onde ele protocolarizará, como dizem os pernósticos, aquela petição, se fosse para receber um despacho desses qualquer estagiário poderia ter vindo resmunga ele que depois irá com o mesmo táxi até o aeródromo onde o aguarda o aviãozinho Bandeirante que o levará de volta à capital, onde, dentro de alguns dias, ele encontrará os amigos desembargadores no reservado restaurante do Jockey Clube, ali na rua Boa Vista, prédio onde também ficava naquela época, não sei hoje, o escritório do Pinheiro Neto, onde trabalhava aquela bela loira a doutora Noêmia, conhece? aos quais começará dizendo vocês não sabem o que me ocorreu nesse fim de semana!


 

- Do livro Menas Verdades (no prelo)

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A B C D E F G H I J L M N O P Q R S T U V X Z

* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.