Terça-feira, 24 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Foi bom pra você?

 

"O Papa, com sua autoridade de representante de Deus na face da Terra, decreta que todos os Papas são representantes de Deus na face da Terra."

(Do Livro das Sínteses)

Houve tempo em que a Terra era o centro do Universo. Depois se descobriu que ela não estava com essa bola toda, não passando de mais um planeta a girar em torno de uma estrela que também não estava com aquela bola toda, quinto lugar na classificação universal de estrelas, segundo decisão unânime dos jurados. E também se chegou à conclusão de que o sistema planetário não passava de uma reunião de umas insignificantes bolinhas situadas ali no extremo sudoeste de uma miríade de estrelas, não deixo por menos que as estrelas da Via Láctea o merecem, cada uma certamente com seu sistema planetário próprio, o que só fez aumentar o complexo de inferioridade dos terráqueos, tidos e havidos, por eles próprios, como os únicos animais inteligentes no Universo a pensar que são os únicos animais a pensar. E veio aquele filósofo grego, como é mesmo o nome dele ?, a dizer que se as vacas e os elefantes soubessem pintar, certamente pintariam Deus com corpo e cara de vaca. Ou de elefante. E tome hereges na fogueira ! Como se aquilo que se pensa valesse mais do que a realidade sobre a qual pensamos.

Corta para o consultório do doutor Sérgio Guimarães, ginecologista. Ali está um rapaz, o que causa estranheza ao médico, não esclarecesse o tal moço que o doutor foi-lhe recomendado por dona fulana de tal, tia da comadre dele e cliente do médico. É que, casado há pouco mais de um ano, está com um problema sério: sua mulher quer porque quer que ele a satisfaça sexualmente todas as noites. Todas ? Sim, senhor: todas. Eu chego morto de cansaço, com esse trânsito maluco, e tudo o que eu quero é uma sopa quentinha e um bom sono. E lá vem ela com suas cobranças. Eu tenho cura, doutor ?

O médico chama ao consultório a mulher do rapaz aflito, que confirma a história. "Mas a senhora tem desejo sexual todas as noites ?" indaga o Sérgio, arregalando-se. Claro que não, diz ela. "Mas ?" É que minha mãe me disse que se eu não satisfizer ele todas as noites ele vai procurar outra. "Mas ele não agüenta mais isso, minha senhora ?". Agora é a moça que arregala os olhos: nãããão ? Ai que bom!

Câmera no consultório da conhecida psicóloga freudiana Cláudia Amaral. Ali está uma senhora, casada, mãe de um casal de filhos, e que tem com o marido uma empresa comercial que vai de vento em popa. Depois que nasceu a filha, porém, a mãe nunca mais sentiu desejo sexual. "Se é que havia sentido antes", diz ela. Nem pelo marido, nem por outro homem. "Nem por mulher ?" Ela faz uma careta que a psicóloga conclui significar "não". A cliente não pode nem imaginar estar nua diante de outra pessoa, inda mais um homem. Inda mais fazendo aquelas coisas. E faz uma cara de nojo.

Deu-se, porém, que, havendo saído de férias com o casal de filhos, ela não resistiu à curiosidade comercial e abriu a página de mensagens eletrônicas do seu sócio, para saber como vão os negócios que lhes são comuns. E deu com um estranho diálogo dele com uma amiga comum deles, a interlocutora a elogiar a decoração do quarto, a maciez da cama e a qualidade do edredon. "Do meu edredon, Cláudia !" Separa ou não separa ? De um lado, o marido tinha razão em procurar outra, diante da repulsa ao sexo que a paciente relatava a sua psicoterapeuta. Ou trazer outra para o tálamo conjugal, como lhe dissera o advogado consultado. "Acho até que teve um filme com esse nome, foi não ?" Por outro lado, há a relação comercial, de que ela não pretende abrir mão. E, pior de tudo, a filha, que padece de epilepsia, é ligadíssima ao pai. Uma separação seria um desastre.

Indago de ginecologista e de psicóloga se eles têm dados estatísticos a respeito disso que se poderia rotular de "conseqüências danosas da super-valorização do sexo no casamento", algo próximo daquilo realizado pelo casal Kinsey, que, nos anos 40/50, entrevistou mais de 20.000 pessoas para tentar conhecer o comportamento sexual dos norte-americanos. "Nem pensar", respondem ambos. "Esqueceu que vivemos no Brasil ?" Lembro-lhes, então, que o Alfred Kinsey não era médico nem psicólogo: era entomologista. Estudar abelhas, formigas e seres humanos não faz grande diferença para um verdadeiro cientista.

O "tálamo conjugal" do advogado me faz pensar em quantos operadores do Direito, especialmente os juízes, conhecem algo de paleontologia, de antropologia, de sociologia ou de psicologia. Vejam as perguntas que são feitas nos concursos para ingresso na Magistratura e tirem suas conclusões. Que sabem a respeito desse misterioso desejo que algumas pessoas têm de conviver com outra e com ela ter intimidades que satisfaçam a ambas ? Sabem, quando sabem, aquilo que lhes diz a lei. Acaso reparam eles que essa lei é fruto de uma anacrônica moral judaico-cristã, que ainda contempla o dever de "não cobiçar a mulher do próximo" ? Esse conceito tem dois dados significativos: primeiro, só o homem tem desejos; segundo, a mulher é de propriedade do homem, tanto quanto a vaca, o arado e o computador. Matrimônio, isto é, os cuidados da casa e seus pertences, é coisa de mulher (matris munus, isto é, tarefa da mulher), da mesma forma como a formação do patrimônio é coisa de homem (patris munus, encargo do pai). A sabedoria divina, que perpassa os tempos, desconhece que hoje a mulher puxa o arado ao lado do seu marido (cônjuge significa estarem ambos, como um par de bovinos, sob a mesma canga ou mesmo jugo). "Quem não for como eu sou, que se case. Melhor casar do que abrasar-se" dizia o fariseu Saul de Tarso, rebatizado Paulo ao cristianizar-se. Vá à I Carta aos Coríntios, capítulo 7, versículos 7/9 e confira. Em bom português: um mal menor. Ou um remédio, remedium concupiscentiæ, como recomendou o Papa Pio XI.

E os juízes se põem a aplicar normas que não são estatuídas a partir da análise científica da realidade, num processo indutivo, como faria um entomologista, mas que são impostas pela superior vontade divina, interpretada por quem se arvora seu representante terráqueo.

As revistas mundanas declaram que a atriz fulana, que, no mês passado se havia casado com beltrano, resolveu ficar com sicrano, que à sua vez, parece que. Enquanto isso, um líder religioso diz que o segundo casamento é isto e mais aquilo, coisa que pode dizer respeito aos que aceitam sua autoridade única e tão somente, se é que os seus subordinados espirituais levam a sério seus anacrônicos conceitos. Ele procura decretar nos dias de hoje o que deve ser a união amorosa de duas pessoas da mesma forma como antes se decretava qual dos corpos celestes deveria ocupar o lugar de destaque na miríade universal, valha repetir a rara palavra que o assunto merece. E tome pedido de perdão a Galileu Galilei depois de 300 anos, quando ele, possivelmente, já não os poderia conceder.

E os psicólogos certamente agradecem o aumento da clientela.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


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Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

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