Quarta-feira, 21 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Nomes

"A Juíza da comarca de Castro, no Paraná, autorizou o registro de uma criança com o nome de Lehgolaz, personagem da saga Senhor dos Anéis".

(Dos jornais)

Deu na televisão: uma senhora pretendia pôr na filha o nome Dgiúlia. A cartorária esclareceu que o nome correto é Júlia. Ela queria o nome italiano. Então é Giulia. Também não serve, porque a filha seria da mesma forma chamada de Júlia, e ela fazia questão da pronúncia italiana. Acho que havia ouvido em uma novela. Então não pode. Pode, não pode, foram falar com o curador de registros, que subscreveu o veto. Aí ela foi consultar o juiz de direito, que, educadamente (tudo estava sendo televisionado, pois não ?), ponderou que, de modo geral, os pais, quando escolhem o nome para o filho ou a filha, pensam mais em si do que no destinatário do nome. Em razão disso, muita gente, quando adulta, procura o juiz para mudar o nome. Como reagiria a filha tendo um nome incomum desses ? Nem precisa ser incomum. O Zico, o famoso Galinho de Quintino, idolatrado no Japão, como jogador e como técnico de futebol, dia desses, disse pela televisão que se arrepende amargamente por haver posto seu nome no primeiro filho que lhe nasceu. O rapaz, que joga futebol, não consegue errar um passe que lá vem cobrança. E o Júnior, o tal filho, ali do lado, contando casos e mais casos desses, a aumentar as culpas do ilustre pai.

Mas vamos aos nomes insólitos. Para quem já teve aluna, filha de eslovacos, chamada Biruta, nada pode surpreender. Uma outra aluna, professora primária, exultou com a aula relativa à possibilidade da mudança de nome, quando o portador esteja sendo por ele submetido a vexame, pois tinha uma aluna chamada – acreditem ! - Disneylândia. Quando a professora fazia a chamada, a portadora daquela enormidade se escondia sob a carteira. Encaminhei-a depressinha ao curador de menores local.

O cartório eleitoral é fonte permanente de esdruxularias dessas. Quem foi ou é juiz eleitoral tem muito a contar a respeito. Principalmente eleitores nascidos em cidades onde os cartorários são tão ou mais ignorantes do que os pais do registrado. Que tal uma eleitora chamada Cornustíbia ? Procure no TRE de São Paulo e lá encontrará tal nome, ainda que, a esta altura, a eleitora, que residia em Paulo de Faria, já deva ter morrido, pois são passados quase quarenta anos de nosso encontro e o conhecimento de tal fato. Talvez o pai quisesse prestar alguma homenagem ao chifre e à perna de alguma vaca, ou algum boi. Sabe-se lá ? Perguntem ao Homar Cais, que é daquela região. Aliás, o pai dele, quando o batizou, imaginou que ele seria professor de Direito do Mar, pois não ?

É sabido que o pai do Millôr Fernandes jamais quis pôr esse nome incomum no filho. Ocorre que, já rapaz, o filho do seu Fernandes teve acesso ao seu registro de nascimento, lavrado a mão. E viu que o cartorário, como tantas vezes ocorre, ao cortar a letra "t" de Milton, levou o risco para longe da base vertical daquela letra, parecendo ser um acento circunflexo sobre a letra seguinte. Estava criado, graças à imaginação do grande humorista, o nome Millôr, ao mesmo tempo que desaparecia para sempre o até então Milton Fernandes.

Muito juiz paulista já despachou petição assinada por um advogado de nome Nerço que, certamente por algum motivo nobre, se recusou a corrigir a falha cartorária. Talvez em homenagem à simplicidade do pai ou da mãe que o registrou. Poderia ele ter feito como o cliente daquela advogada que pediu alteração do registro, dando lá seus motivos. Indo ela a cartório, para saber como andava o pedido de alteração do registro do nome de seu cliente, chamou a atenção dos circunstantes pelo espaço enorme que colocou entre o nome e o sobrenome do interessado, quando indagou do escrevente: "Veja aí como anda o processo de retificação de nome de Adolfo (pausa longa) Dias". A primeira impressão era de que ela houvesse esquecido o nome de família do seu cliente. Pronunciando-se, porém, com naturalidade o nome completo do interessado se descobre o cacófato que deve ter sido invocado para a alteração pretendida. Adolfo José Dias, por exemplo, resolveria o problema do rapaz, como concluiria qualquer juiz sensato. O mesmo que, certamente, transformaria esse Nerço no correto Nelson, se é que se pode usar o adjetivo.

Por falar em homenagem, o médico Adauto Rocha, profissional muito respeitado nesta Capital, confessou-me que seu nome lhe fora dado em razão de um tio, monsenhor na região de Ipauçu e Santa Cruz do Rio Pardo. Pois meu pai, um anticlerical convicto que morou por aquelas bandas, quando lhe nasceu o primeiro rebento masculino, homenageou o mesmo padre, que, a julgar por tal fato, deveria ser, deveras, um santo.

Pois esse nome também é, ele mesmo, uma homenagem. Diz a lenda que, quando S. Félix estava sendo executado numa fogueira, apareceu um doido querendo saber do que se tratava. Foi-lhe explicado que o homem que ali ardia era um cristão que se havia recusado a renegar sua fé. Daí sua execução. Pois o tal forasteiro, dizendo ser também cristão, fez questão de morrer junto com o santo, queimado na mesma fogueira. Qual o nome dele ? Ninguém jamais soube. Como aquele cristão morreu junto do mártir, sendo seu sacrifício "acrescentado" ao do santo, foi batizado, post-mortem, de Adauctus, particípio de adaugeo, es, ere.

Já falei de meu querido amigo Maurício de Oliveira, cuja voz emocionava tantos ouvintes da Rádio São Paulo, dentre os quais a genitora da Leda Magalhães. Pois fez e faz até hoje par com a Lenita Helena, a grande dama das novelas radiofônicas. Pois não é que acabo descobrindo, depois de quarenta anos de amizade, que a Lenita jamais foi Lenita, muito menos Helena ?! Na realidade, deram-lhe o inusual nome de Sidéria, que seria corruptela de outro não menos incrível: Sidélia, que mais parece, com todo respeito, nome de remédio. O Otávio Gabus Mendes, ou outro desses monumentos, vetou aquele nome sugerindo-lhe que arranjasse outro. Pois foi de uma sobrinha que ela tomou o nome com o qual seria eternizada nas rádio-novelas.

E há também o caso do Dácio de Arruda Campos, juiz famoso em São Paulo, pois era tido e havido por comunista, embora fosse apenas um grande gozador, que jamais pôs em risco as instituições do país. Prova maior de seu não-comunismo era o fato de ser articulista do conservador Estadão, onde escrevia sob o pseudônimo de Mathias Arrudão. O que não impediu que a visão caolha de algum patriota conseguisse sua cassação em 1964, talvez por ter escrito um livro, hoje mais atual do que nunca, intitulado: "A Justiça a serviço do Crime". Em lugar de uma medalha no peito, deram-lhe um pijama e um par de chinelas, em nome da "segurança nacional". Pobre país !

Pois o Dácio havia chegado à comarca há bem pouco tempo quando foi procurado pelo titular do cartório do registro civil, que tinha um problema para resolver. "É que apareceu lá um camarada querendo registrar o filho com um nome estranho e o doutor Eiriri me havia recomendado que, em casos como esse, eu viesse falar com ele antes de fazer o registro. Como o doutor Eiriri não está na comarca, eu vim consultar o senhor a respeito". O Dácio arregala os olhos: "E quem, por acaso, é esse doutor Eiriri? Que eu saiba, isso é nome de uma cascata, na rodovia Rio-Santos". O escrivão não se faz de rogado: "Doutor Eiriri Carvalho é o curador de registros da comarca, Excelência. Ele sempre fiscaliza os nomes esdrúxulos que querem botar nos filhos". E o juiz, com toda sua bonomia, decidindo a dúvida de pronto e legislando para o futuro: "Olha aqui, meu rapaz. Se a comarca tem um curador de registros chamado Eiriri, você registre tudo o que aparecer no teu cartório".

Busca verbete por título

A B C D E F G H I J L M N O P Q R S T U V X Z

* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.