Segunda-feira, 14 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Estufas

 

“Podrán cortar todas las flores, pero no podrán detener la primavera.”

Pablo Neruda

Na minha juventude, os chargistas publicavam desenhos gozando os hippies. Um homem barbudo, vestindo camisolão, vagava pelas ruas, carregando uma tabuleta: "Arrependei-vos enquanto é tempo. O fim está próximo !" E nós todos ríamos daquilo.

Bons tempos !

Meio século depois, talvez nem isso, e estamos todos sentindo os efeitos do chamado superaquecimento de nosso planeta. Neve em Buenos Aires, calor na Escandinávia, moças usando minissaia na Sibéria, frio insuportável em São Paulo. É só sintonizar a televisão e lá vem alguém mostrando que os barbudos da tabuleta não estavam tão errados como nossa superioridade cultural imaginava. Hoje em dia, o tal efeito estufa serve até como pretexto para vender automóvel. À prova de tsunamis e vendavais !

Em matéria de estufa, tenho algumas experiências.

Primeira vez que ia a Portugal, a guia, muito solícita, levou-nos para uma surpresa: mataríamos a saudade do Brasil. Roda de samba ? Caipirinha ? Nada disso. O local era um espaço não muito grande, talvez do tamanho de um campo de futebol, todo com parede e teto, muito alto, de vidro. Era um jardim tropical, onde, surpresa das surpresas !, encontramos nossas velhas conhecidas "costela de Adão", "banana de macaco", "capim gordura" e outros vegetais com que cruzávamos em qualquer parque público de São Paulo. Talvez até gabiroba haveria por ali, se procurássemos bem. A temperatura ambiente era devidamente controlada, como nos explicou o gajo que tomava conta daquilo, e havia lá em cima, estão a bispar ?, aqueles caninhos furados que, de tempos em tempos, aspergem água sobre a vegetação. Viajar tanto só para aprender o que quer dizer o verbo aspergir !

E fui, assim, remetido aos meus tempos de infância, retornando aos matinhos onde nos escondíamos na brincadeira de pega-pega, ou onde íamos caçar borboletas, ou, em caso de emergência, nos agachávamos para atividades menos nobres. E tudo isso como atração turística!

Tempos depois me meti a entender de orquídea. Comprei alguns livros, aprendi a diferença entre pétalas e sépalas e lá fui a uma cidadezinha perto da capital, visitar o orquidário de um nipônico. Era também uma estufa, onde ele me mostrou o processo de hibridação. Cruzadas duas espécies, dentro de meses surgiriam as sementes, que ele colocaria naqueles primeiros vidrinhos que o senhor está vendo ali, com aquela gelatina incolor dentro. Quando apareceram as primeiras folhinhas, ele transportaria para aquele outro grupo de vidrinhos, onde elas ficarão até que. E assim, de conjunto de vidrinhos em conjunto de vidrinhos, chegaríamos aos novos exemplares. E, finalmente, tchã tchã tchã tchãããã!, uma orquídea nova.

Desde que o senhor faz o cruzamento das duas espécies até que surja essa nova flor, quanto tempo se passa ? Ele, com aquele rosto inalterável que têm os japoneses até diante de dor de dente: "de oito a dez anos !" Dez anos para conhecer o resultado de seu trabalho ? "Mas a vida não é assim ? Muitas vezes nós morremos sem ao menos ver o resultado do que fazemos", filosofa o sábio nipônico.

Segundo essa minha filosófica experiência, o efeito estufa é benéfico. E, realmente, assim era o projeto do arquiteto do Universo, como dizem meus amigos pedreiros. O planeta Terra, ao desligar-se do Sol, tão incandescente quanto ele, foi-se esfriando, pois o fogo é algo que depende de algo para existir. Quando esse segundo algo vira cinza, tollitur causa sublatum effectum, como dizem os juristas. Ou será o contrário ? Ou seja, sem um algo não tem o outro algo. Captaste, pá ?

Segue-se que, se o resfriamento da Terra prosseguisse naquele ritmo, logo logo ela viraria uma bola de sorvete. Um pouco mais dura, é verdade. Aí mamãe natureza inventou um expediente bastante inteligente, como tudo o que a natureza cria: o dióxido de carbono. Se em cada duas moléculas de oxigênio eu pendurar uma molécula de carbono, que é o nome latino do carvão, esse minúsculo carvãozinho, em contato com a luz do sol, virará uma micro-brasa. Conforme o número dessas brasinhas, o ambiente da Terra estará tão aquecido como aquele jardim tropical de Lisboa.

Graças a esse inteligente expediente, os gelos que já se iam formando foram-se derretendo, o que deu no surgimento dos oceanos e da vida animal, segundo os darwinianos. Se você tiver a paciência de eliminar de um desenho do mapa-múndi o Oceano Atlântico, verá que a costa oeste da África se encaixa perfeitamente no litoral do Brasil. É o resquício do que a professora Maria Helena Rolim chama de Pangea, um bloco único de terra que se formou quando as águas ainda não haviam tomado o volume que vieram a tomar com o aquecimento global, que, até então, era algo benéfico. Quando se deu o rompimento entre os dois continentes, nós tivemos de agüentar o Gilberto Gil, que havia ficado do lado de cá quando tudo era uma coisa só. Foi esse um dos inconvenientes do progresso. Mas não o pior.

O que a mamãe natureza não havia previsto é que o macaco que pensa que é inteligente levaria sua condição de animal predador às últimas conseqüências. E bote última nisso! Aliás, para o etologista Konrad Lorenz, que escreveu na primeira metade do século XX, o ser humano é o único animal que merece, a rigor, o epíteto de predador. Os demais, perto dele, são pinto.

O fato é que, muito antes de o George W. recusar-se a assinar o Tratado de Kyoto, pois havia deixado sua caneta naquela escola infantil onde passava o seu presidencial tempo e ali ficou sentadinho, livro infantil na mão, mesmo quando o seu assessor lhe cochichou no ouvido que o mundo estava pegando fogo, coisa documentada pelo Henry Moore. Repito: mesmo antes de o segundo George ser parido, a produção industrial de dióxido de carbono já era algo digno dos maiores aplausos. Progresso não é derrubar matas e produzir fumaças ? Pois então.

O fato, minha senhora, é que há 50 anos atrás, quando nós dois ríamos com as comédias do Gordo e o Magro, ou seus imitadores, o Abbott e o Costello, nem eu nem a senhora imaginávamos que a concentração do dióxido de carbono na atmosfera estava na casa de 280 unidades por milhão. Foi só nós dois nos distrairmos e esse número chegou às atuais 380 unidades por milhão.

Nem eu nem a senhora sabemos que diabo de relação é essa, mas, convenhamos, um aquecimento da ordem de 36% em míseros 50 anos é algo que deve preocupar. É ou não é ?

Pense nisso a próxima vez que deixar a torneira da pia aberta enquanto se olha no espelho escovando seus belos dentes. Ou quando deixar as luzes da casa acesas sem necessidade alguma. Ou quando.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

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