Quarta-feira, 23 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Entrevista (A)

 

“Não sei se ela é funcionária dos Correios, mas tem cara de sê-lo.”

Do Livro das Sínteses

Algumas pessoas dizem que odeiam trocadilhistas. Por que ? Eles não sabem dizer. No fundo, gostariam de trocadilhar, mas, cadê competência ? O jeito seria aceitar que ninguém se torna trocadilhista, nasce-se assim, como se nasce com verruga na ponta do nariz ou dente torto. Mas cadê humildade para reconhecer isso ? Assim também ninguém se torna trovador. Nasce-se com essa capacidade, como um Zé Preá ou um Mano Meira ou um Ontõe Gago. Qualquer dos três subscreveria, certamente, esta trova :

“Se o amigo não faz trova,
E por mais feliz que seja,
Com certeza me reprova.
Devia ir para a cova
sujeito que não troveja.”

Mas eu falava era de trocadilho, vindo-me à mente o caso da moça que estava num bar, sentada com um rapaz num canto, trocando ambos gentilezas e carícias. Eis que chega um outro rapaz e passa a dizer isto e mais aquilo à moça, certamente agastado com a distribuição dos carinhos e atenções de que se julgava credor único. O acompanhante dela sente-se no dever de explicar que. E logo os dois garanhões estão a trocar sopapos vários. A moça, um tanto assustada, vem para perto da mesa onde estava o Emílio de Menezes, célebre trocadilhista carioca. Este, cinicamente, indaga do garçom, apontando os dois lutadores : "É esta a moça que se disputa ?"

Eu contava isso numa mesa onde havia vários de meus poucos amigos. E lembrei-lhes o caso daquela china de Carazinho, que, embora noiva de aliança no dedo adequado da direita mão, recusava-se a proporcionar desde já ao afoito noivo as benesses matrimoniais. E argumentava: "Se tu queres ter-me em teu leito, casa-te comigo. Aí, certamente, tu me terás".

Duas senhoras levantaram-se e foram até a janela tomar um pouco de ar. Um dos amigos censurou-me por essa minha incontinência verbal, que já me custou tantos amigos. Aliás, disse ele, há uma professora da Unicamp, especialista em metalinguagem, que está fazendo pesquisa com pessoas esquisitas e pretende escrever um livro demonstrando que.

"Mas você acha que minha mulher vai concordar que eu procure uma moça especialista nisso aí ?" Mais duas senhoras levantaram-se e também se dirigiram à tal providencial janela.

O escritório da tal professora ficava num sobradinho simpático, ali pelas bandas da Vila Madalena. Marquei consulta, se assim posso dizer, para as catorze horas. Fui atendido pela secretária, que me deu uma ficha para eu preencher. O de sempre. É como ficha de hotel. Você escreve ali as maiores barbaridades e ninguém confere nada daquilo. Eu, pelo menos, já coloquei ali, na casinha onde se diz "sexo", as coisas mais inimagináveis, tal como "uma vez por semana". Tais fichas, que custaram a derrubada de árvores e mais árvores serão, depois de preenchidas, enviadas para um departamento de alguma secretaria e ficarão no porão alimentando ratos. Devolvi a ficha preenchida e aguardei ser chamado. Menos de quinze minutos depois eu estava entrando na sala da pesquisadora, uma jovem de bom aspecto, terninho elegante, que me conduz até uma poltrona, onde me sento. Ela se senta em uma cadeira de braços, à minha frente, segurando uma prancheta com algumas folhas e uma caneta na mão direita.

- Como o senhor se chama ?

Eu havia preenchido uma ficha ali na sala ao lado e chego à conclusão de que a secretária fizera aquilo apenas por curiosidade. Ou será que ela levaria a ficha para casa e depois me telefonaria para um chopinho a dois ? Minha mulher é muito compreensiva, mas, se eu a conheço bem, não vai gostar disso. Pensei em dizer que meu nome continuava a ser aquele que eu havia indicado à secretária, até porque eu ainda não havia tido tempo, nesses poucos minutos, de mudá-lo, como é de meu propósito. Quando dei por mim, saltou outra ficha:

- Eu nunca me chamo. As outras pessoas é que me chamam.

Ela se limita a voltar os olhos para a prancheta e escrever linhas e linhas de texto. Que seria aquele texto longo ? A demora foi tanta que minhas pernas não sabiam mais como se comportar. Ora a direita não se conformava de estar sob a esquerda, ora a esquerda é que não se achava muito à vontade sob a direita. Tentei mantê-las abertas e o resultado foi pior, pois a poltrona deveria ter sido projetada pelos mesmos engenheiros que projetam poltronas de avião. Quando é que o Jobim vai pensar nisso ? Ela, sem mais nem menos, indaga:

- Quanto o senhor mede ?

Digo-lhe que, dependendo da fita métrica ou mesmo da trena, eu meço qualquer distância, é só combinarmos preço e pagamento. De preferência por metro medido. Ela volta a escrever, sem esboçar qualquer reação. Ou é uma profissional extraordinária ou é débil mental. Como não tenho outro compromisso para as próximas duas horas, lembrei-me, por menos que o desejasse, da Marta, aquela boquirrota que vem de chamar uma de nossas atletas de "moreninha". A senhora está enganada, madame. Eu sou negra, disse a moça. Ela tenta melhorar a situação. Falo da pesquisadora.

- Muito bonito o seu sapato.

A senhora está se referindo ao esquerdo ou ao direito ?

- O senhor sempre foi assim ?

Claro que não, minha senhora. Segundo pude ver de algumas fotos, quando eu ainda engatinhava não possuía o bigode que tenho hoje. Meus cabelos naquela época não eram tão grisalhos como atualmente. Igual mesmo só a fala de dentes.

- O senhor tem alguma religião ?

Várias. Quando eu era criança, costumava ir à igreja, onde me apresentaram a um senhor velho e barbudo que permanecia o tempo todo no teto me olhando. Segundo me diziam, tudo o que eu fazia era visto e julgado por ele. Por causa disso, parei de enfiar o dedo no nariz quando estava dentro da igreja. Aí me disseram que ele costumava descer do teto da igreja e me acompanhar pelas ruas. Fui procurar o sacerdote, querendo saber que brincadeira era aquela. Como é que eu vou limpar o nariz se ele ficar com aquele olho grande o tempo todo em cima de mim ? Como o padre era gordo e gordo é aquilo que é, padre ou não, mesmo se chamando Eugênio, ele deu uma risada. "Isso só acontece quando a pessoa acredita que ele nos acompanha". Não entendi bem o que ele quis dizer, mas compreendi que era uma espécie de autorização para eu colocar o dedo no nariz e em qualquer outro lugar que me parecesse apropriado. Ou desapropriado, dependendo do ponto de vista.

Quando fui à Índia, inspirado pelo George Harrison, descobri que eles veneram as vacas. Trocar o velho barbudo do teto da igreja por um animal de quatro patas, dois chifres e um ubre, que vai derramando aquelas broas quentes e fedidas por onde passa, só mesmo sendo beatle. Minha vocação musical não era tanta. Indo à China, descobri que lá o Mao é o Bem. Claro, era uma piadinha que dez entre dez brazucas contavam aos parentes que haviam ficado no Brasil, quando conseguiam usar o telefone da praça Celestial, que era disputado a tapa, pois tinha um defeito e fazia ligação aceitando como ficha qualquer peça redonda de metal. Até tampinha de cerveja bem amassada. Se eu bem entendi do livrinho vermelho do Bem, escrito pelo Mao, tudo aquilo que a Bíblia diz que foi feito por Deus e seus enviados foi, na verdade, realização do Grande Timoneiro. Alguns pedreiros chineses até chamavam o homem de Arquiteto do Universo, da Ásia e, particularmente, da China. A grande muralha, que o George W. Bush está pretendendo transferir para a fronteira entre os Estados Unidos e o México, foi obra do Grande Arquiteto.

- O senhor tem algum sinal particular ?

Tenho vários, mas são tão particulares que eu só os faço quando estou sozinho no meu quarto, tendo, antes, o cuidado de trancar a porta e apagar a luz, para que nem mesmo eu os veja. Se a senhora quiser conhecer alguns sinais públicos eu os posso mostrar, principalmente os que adoto no trânsito.

Estranhamente, ela agora nada escreveu. Colocou uma das mãos sobre a outra e ambas sobre a prancha e ficou a me olhar, não sei se encantada com meu desempenho ou imaginando que faria comigo, agora que. Aquilo me lembrou uma brincadeira de infância, o "Quem pisca ?" e eu me dispus a participar do jogo. Também coloquei mão sobre mão e as duas sobre o colo, mesmo porque eu não tinha culpa de não ter uma prancheta, e fiquei ali, brincando de estátua. A música ambiente, agora eu percebia melhor, era new age. De vez em quando uma terminava e começava outra, que era quase exatamente igual à anterior. Se eu não tivesse estado na China estranharia aquilo. O fato é que a música e a luz azul suave eram um convite às pálpebras para se encontrarem. A de cima com a de baixo, não a do olho esquerdo com a do olho direito.

Ocorreu então que, depois da terceira ou quarta repetição da mesma música, eu parei de contar e só vim a dar por mim quando a luz do sol, penetrando na sala pelo vão da cortina da janela, deu na minha testa. Acordei meio assustado com o impacto causado pela luz solar. "Onde estou ?" pensei exclamar, a exemplo do que eu lia nas revistas de histórias em quadrinhos na minha juventude, exclamação que jamais tive oportunidade de utilizar ao longo da vida. Aquela seria a oportunidade. Que, não sei por quê, deixei escapar. Felizmente, a música continuava a espalhar-se por aquele ambiente de paz, a sugerir que a minha sessão ainda iria longe.

Na minha frente, a posição da outrora elegante pesquisadora havia mudado um pouco. Seu braço direito estava estendido para baixo, apontando para a prancheta e a caneta, que teimavam em permanecer no chão, aguardando serem levantadas. A cabeça dela, falo da moça, pendia sobre o ombro esquerdo e eu descobri que ela, tal como minha mulher, baba quando dorme.

Minha barriga começa a roncar e eu não sei quantas horas ainda faltam para que ela dê por terminado o tal teste. Não vejo a hora de ler o livro que vai sair dessas entrevistas.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.