Domingo, 21 de abril de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Dia de Prova

A voz da mãe ecoou pelo corredor. "Levante-se que já é tarde e hoje é dia de prova". A moça sentou-se na cama. Frase perfeita, pensou. Caso típico de ênclise. Não se começa frase com pronome oblíquo. Próclise obrigatória. A partícula apassivadora está sento atraída pelo advérbio de negação. Não se começa. E o sujeito ? Evidentemente é frase. Frase não é começada por pronome oblíquo. Nota dez. Eu falo da primeira. Da frase da tua mãe.

Dentro da cabeça da moça as duas vozes se entrecruzavam. Perguntava uma, respondia a outra. E ela imóvel na cama, olhar parado, atravessando a janela.

Já é tarde. Sujeito indeterminado. Simplesmente é. Reforçado pelo advérbio de tempo. Matambém poderia ser tarde. A tarde é que é. Muito bem, muito bem, mas, me diga: e aquele que: Que já é tarde. Como se classifica ele ?

Próclise outra vez. O como atrai a partícula se. Ele não está na forma oblíqua porque é o sujeito da frase. Ele é classificado como.

Não fuja da pergunta. Eu quero saber a função sintática daquele que. Que já é tarde.

Enquanto saía do pijama, lentamente, com gestos de slow motion, ela ia recordando as funções do que. Nenhuma se encaixava. Próclise novamente. Nenhuma é pronome negativo que atrai a partícula apassivadora.

Está fugindo novamente, garota. A função sintática do que ! A função sintática do que, guria. Começou a ficar nervosa.

"Levanta, menina. Levanta que você vai chegar atrasada na escola". Uma batidinha na porta mostrava a preocupação da mãe.

Dois erros em uma única frase, concluiu a aluna. Mamãe estaria ferrada se estivesse no meu lugar. Levanta você ? Onde estamos, dona Maria ? Chegar na escola ? Quem chega, chega a algum lugar, Pode chegar em ônibus, em bicicleta, em trem. Mas chega a, dona Maria.

Ela se espantou repetindo, mentalmente, as palavras do professor. Reparou, bem reparado, que o que lhe perseguia. Lhe perseguia ? Mas isso é linguagem de jornal, menina ! Que a perseguia ! Que você vai chegar atrasada. Mas esse que é diferente. É o porque, em forma sintética. Porque você vai chegar atrasada. Síncope ! Seria síncope ? Levou a mão ao peito. Palavra mais azíaga! Azíaga ou aziaga ? Notou que o nervosismo aumentava, por menos que o quizesse. Ou seria quisesse ?

Não era a primeira vez que isso lhe acontecia. Noite em claro estudando e na manhã do dia seguinte esse repentino esquecimento, essa sensação de que faltava alguma coisa para ainda estudar. Ou faltava muito. Ou faltava tudo.

E o nervosismo, ela bem o sabia, poria todo o seu esforço a perder. As palavras não lhe sairiam com naturalidade. Erros paumares como esses poriam tudo por água à baixo. Aquela confiansa em si ir-se-ia esgarçando. Ou próclise ? Aquela confiança em si se iria esgarçando ? Mas, e o cacófato ?

Meu Deus ! E crase diante de palavra masculina ! Água à baixo. Você está mal, guria! Muito mal.

Apreçou-se ainda mais. Agora era um filme do Carlitos, ela enfiando as meias, calçando os sapatos aos pulos, como se a preça impediria a cabeça de pençar. Impediria ? Ou impedisse ?

A guria paçou pela cosinha xispando. Ou teria sido pela cozinha ? A mãe dissi qualquer coisa sobre alimentar-se bem, não vá desmaiar outra vez, boa prova, confiansa em ci. Ela não ouvia mais nada. Estava correndo em diressão ao ponto de ônibus. Paratodos. Do latim omnis, omne, dizia o ex-seminarista que lecionava português no colégio. Omnibus. Dativo: para todos. A flor do Lácio, a despresada flor cujas sementes geraram tantas árvores ingratas.

A menina admirou-se do seu discurço. Estava introjetando o mestre. Intro-jetar. Lançar para dentro. Olha aí o latim perseguindo-a novamente. Per-seguir. Raios de seminarista imbessil ! Seminário, lugar de muito sêmen. Riu interiormente da piada que o próprio profesor uzara em aula, maliciozamente. A aproximação do ônibus devolveu-a à realidade. O coração disparou. Perseguindo-a ? Você disse perseguindo-a ? Próclise em caso de um particípio ? Mas seria aquilo de fato um particípio ?

Achou que estava com taquicardia. Latim, de novo. Latim, não, sua burra: grego. Cardios é coração e taqui é pequeno, porém em grego. Lembre-se de taquigrafa: aquela que escreve com pequenos sinais. Escrita curta. Caligrafia, escrita bonita. Como é feia a sua caligrafia ! Se é cali, não pode ser feia, menina. Ainda uma vez era a voz introjetada do afetado professor. O pensamento era um barco sem rumo, tentando pousar em algum porto. Pousar ? Barco pousa ? Estendeu o brasso. Ou extendeu o braço, sei lá. Já não sabia mais o que dizer, o que pensar. Alguém governa o pensamento ?

Subiu os degraus e entrou no veículo. Frase correta, pois ninguém sobe no ônibus. A não ser que se trate de alguém que vá viajar no teto do coletivo, um desses pingentes atrevidos que de vez em quando se esborracham lá embaixo. Coletivo: adjetivo designativo da finalidade do meio de transporte, veículo destinado não a transporte individual como o automóvel, mas ao transporte de muitos ao mesmo tempo. Transporte coletivo. O adjetivo coletivo se torna o substantivo coletivo. Como é mesmo o nome dessa figura de linguagem ? Pensou consultar a gramática do Luft, mas o ônibus estava apinhado de gente. Pensou consultar ou pensou em consultar, ein, diga lá.

Chegou à catraca e abriu a bolsa à procura do pace escolar. Ou passe escolar. Ou bolça. A cabessa agora rodava. Dentro dela havia um carroucel. Ou caroussel. Ou carroceu. Ou carrosseu. Ou.

Meu Deus !

As pessoa dentro do ônibus olharam assustadas quando o grito saiu. A senhorita está passando bem ? Sim, obrigada. Iço paça. Ou passa. Sei não.

Não passou. A cabessa continuava a jirar. Abriram a janela. Uma arajenzinha é bom pra isso, disse alguém. Uma senhora ofesseu-lhe o lugar. Ênclise, claro, ênclise. Ou isso seria uma próclise ? Ela já não via nem ouvia nada. Um ruído surdo atravessava seus ouvidos. Uma escuridão diante dos olhos. O suor frio gotejando na testa. Ela está muito branca, gente. Pare o ônibus, pare o ônibus ! Inútil. Aquele rádio berrando um rock daqueles, quem ouviria a ordem ? As pessoas iam subindo e descendo. E ela ali sentada, imóvel, olhar perdido além da janela.

O carrossel agora girava mais lentamente. As luzes do parque de diversões iam-se acendendo. Ênclise. A cor voltava-se-lhe às faces. Bonito isso ! Mesóclise, é claro. O lhe substituindo o deselegante suas. A cor estava de volta às faces dela. Frase de quitandeiro, menina. Não esperava isso de uma aluna como você ! Como você é uma frase ambígua, professor. Ele corou.

Sabe o que é, dona Norma ? Não é que ela não estude. Estuda até demais. Eu acho que é isso: minha filha estuda demais. Mas ela deve de ter algum problema psíquico, porque ela fala tão bem, tudo tão certinho, mas na hora da prova eu não sei o que se passa na cabeça dela. "Eu não sei, dona Norma. Volta pra casa triste, se tranca no quarto e não diz quase nada. Não chora, não ri, não faz comentário nenhum. Outra vez, mãe. Outra vez. É só isso que ela me diz".

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

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