Quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Bye Bye, Happy End

"O homem hoje dá-se conta dolorosamente de que nem as suas grandes religiões nem as suas várias filosofias parecem capazes de fornecer-lhe aquelas idéias enérgicas e dinâmicas que lhe dariam a segurança necessária para enfrentar as atuais condições do mundo."

C. G. Jung, O Homem e seus Símbolos

Os irmãos Coen sempre foram inseparáveis. Estudaram juntos cinema e são conhecidos como o diretor de duas cabeças. O mais novo, além de diretor e ator, também escreve livros de poesia e de contos, sempre com a irreverência que aparece em seus filmes, dos quais o mais famoso é, sem dúvida, Fargo, no qual o humor negro, que caracteriza a obra de Joel e Ethan Coen, está presente nas trapalhadas do marido que trama o seqüestro da própria esposa, filha de pai rico. Tanto quanto em A Roda da Fortuna (The Hudsucker Proxy), no qual eles fazem impiedosa crítica aos critérios morais do empresariado norte-americano, padrão que a globalização espalhou, qual metástase, para todo o mundo.

Neste recentíssimo No Country for Old Men (traduzido no Brasil como Onde os Fracos não têm Vez, título que pouco diz sobre a profundidade da mensagem constante do filme), eles voltam com a bola toda. Alguns críticos vêem no filme uma nova crítica aos padrões de vida norte-americanos e um epitáfio aos filmes de caubói, os westerns de nossa juventude, no qual o "mocinho", pistola fumegante na mão, impunha a justiça e a ordem. Lá está o Shane, de George Stevens, que não me deixa mentir, mesmo com o título idiota que lhe deram entre nós, que serve apenas para mostrar que o autor de tal título pouco entendeu do filme que viu, se é que o viu.

A terra onde não há lugar para os velhos também não tem lugar para os jovens, como o rapaz que, à falta de melhor currículo, apresenta-se como veterano do Vietnã, algo de que nenhuma pessoa esclarecida, como os irmãos Coen, tem motivo para orgulhar-se. E esse país tanto podem ser os Estados Unidos como o Japão, o Iraque ou o Brasil, pois a mensagem do filme é universal.

A lei já não é imposta por um "mocinho" idealista, mas, ironicamente, por um velho desencantado, às vésperas de sua aposentadoria, depois de repetir a rotina de vida de seu pai e de seu avô. O progresso substituiu os cavalos pelas potentes pick-ups, o comércio ilegal de peles e uísque por carregamento de drogas, agora em nível internacional. Os cadáveres agora são tantos que nem os coiotes se dão o trabalho de devorá-los. O que há hoje e que havia ontem é a ganância e o dinheiro fácil, que abre portas e compra facilidades e consciências (repare no comportamento dos dois jovens que, tendo aprendido a "fazer o bem sem olhar a quem", depois de um deles haver, relutantemente, aceito o dinheiro da gratificação, põem-se a discutir sobre o destino dela, mandando às favas os escrúpulos, tal como teria feito certo militar ao aderir à revolução de 64, slogan hoje repetido em nosso país por muitos esquerdistas de ontem, até mesmo em nome da isonomia e da defesa das minorias e seu justo anseio de equiparação entre elas e as maiorias, até com criação de Ministério específico para isso e para gastos astronômicos em locais os mais inimagináveis).

E é aí que aparece o grande personagem do filme, que, certamente, renderá um Oscar a Javier Bardem, cuja interpretação vem de criar uma dessas figuras cinematográficas inesquecíveis, tal como o Hannibal, de Anthony Hopkins, há alguns anos. É ele nada menos do que o Mal absoluto, o Diabo encarnado, que mata sem outro propósito que o de fazer justiça, ainda que a seu modo. Não é isso que vemos ocorrer em tantas partes do mundo, especialmente em nosso país ? Como o demônio que é, ele tem a onisciência e o dom da ubiqüidade. Ele sabe de tudo e está em toda parte. E, pavor dos pavores, é, como é próprio do capeta, do cão, do sem-nome, como dizia o nosso Guimarães Rosa, simplesmente imortal.

Anton Chigurh (nome estranhíssimo, que não nos sugere nenhuma nacionalidade, mas cuja pronúncia assemelha-se a sugar, mesmo nada tendo ele de doce) é muito mais do que um psicopata e um matador de aluguel, até porque ele está acima de quem o contratou. Desprovido de emoção e sentimentos, a vida e a morte das pessoas pode depender do mero acaso, de um simples "cara ou coroa", ou, se o filme se passasse no Rio de Janeiro ou no Líbano, de uma bala ou uma bomba perdida.

Não é por outro motivo que o velho xerife, já aposentado, confessa à esposa sua crença de que Deus abandonou os homens. Talvez porque, antes disso, tenha sido abandonado por eles.

E, de quebra, ainda nos apresenta uma dificílima charada, representada por um sonho, que parece dizer-nos, junguianamente, que um sonho contém mais do que aquilo que ali vemos, até porque "cada sonho é um processo particular individual, e a forma definida que toma é determinada pelas condições do sonhador".

Talvez aquilo fosse uma referência aos filmes, que, tal como nos sonhos, estão a dizer-nos bem mais do que aquilo que vemos na tela.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.