Sábado, 19 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Sexto conto

 

As crianças vivem a surpreender-nos com suas tiradas espirituosas, que demonstram a presença nelas da inteligência, coisa que nos deixa envaidecidos, como se fôssemos os responsáveis por isso, o que não deveria admirar-nos, pois até em animais irracionais os cientistas já encontram reações demonstrativas da presença de algo muito semelhante à inteligência humana.

Os macacos não aprendem, uns com outros, a utilizar duas pedras grandes para quebrar a casca dura de pequenas nozes que eles encontram caídas das árvores ? Não se utilizam de uma vareta para recolher formigas, enfiando a varinha no formigueiro e esperando as formigas subirem por ela ? Eu mesmo não tinha coragem de dirigir automóvel, o que, aliás, ocorre com muita gente, tanto que há psicólogos especializados em lidar com essa espécie de medo. Indo a um circo, lá eu vi um enorme urso dirigindo uma motocicleta, dando voltas e mais voltas no picadeiro. Saí do circo decidido : no dia seguinte matriculei-me em uma auto-escola.

"- Vô, fala mais alto que, com a televisão ligada, eu não ouvo o que você está me dizendo."

"- Ovo ? Você disse ovo ? Mas ovo é de galinha, de pata, de marreca. O certo é ouço. Ouviu bem ? Ouço" corrige o avô, elevando a voz justamente por causa do som da televisão.

"- Mas, vozinho. Osso também é de galinha, de pata, de marreca." E faz um riso debochado, como a dizer te peguei, espertinho.

É comum dizerem que as crianças de hoje já nascem sabendo. Não sei se isso é verdade, mas um amigo meu, passeando com a família no zoológico, contava aos netos a velha história da cegonha, que tem aquele bico enorme que vocês estão vendo porque carrega com ele os bebês que lhe são encomendados. Quando ele pegou no colo o mais novo, para mostrar-lhe o que havia além do muro, onde estavam as aves, ouviu um dos netos sussurrar a outro : "não conte a verdade ao vovô que ele já não tem idade para essas revelações."

Certa ocasião, o André levantou-se, tirou o pijama, que jogou sobre a cama, tomou banho, vestiu o uniforme do colégio e desceu para o café da manhã. A Patrícia repreendeu-o : "Você não sabe que deve guardar o pijama na gaveta ?" E ele, a título de explicação : "Então você não sabe que eu não sou perfeito ?"

Para aguçar ainda mais a inteligência de meus netos, reuni-os certo dia na sala de visitas e lhes fiz esta pergunta, dramatizando a apresentação : você entra em casa à noite e a luz está apagada. A casa está toda no escuro porque acabou a força naquele quarteirão e ainda não foram acesas velas, como se faz necessário nessas ocasiões. Você vê um vulto no corredor e balbucia "sua bênção, vovô." O vulto responde : "Deus te abençoe, meu neto, mas eu não sou seu avô." Pergunto : quem era aquele vulto ?

Meus netos passaram a analisar o problema e, enquanto não chegassem a uma resposta que satisfizesse a todos, nenhum deles arriscaria uma resposta qualquer. Ponto para eles, pois é comum adultos inventarem respostas, especialmente nossos alunos universitários, como se o seu professor fosse um débil mental. Aliás, os testes utilizados nos concursos públicos incentivam essa conduta reprovável, pois o fato de o candidato errar o seu palpite não lhe traz qualquer prejuízo. No meu tempo, cada três respostas erradas do teste eliminava uma resposta certa. Isso acabou. É assim que hoje se vai formando o caráter dos nossos jovens.

Pois eu, que imaginei que teria uns bons minutos para apreciar o meu cachimbo lá fora na varanda da casa, sou surpreendido pelo neto mais velho, já com jeito de rapaz e modos de galã de televisão, que se sai com esta :

"- Vozão, já que você não vai ter o que fazer enquanto aguarda que seus netos decifrem a charada apresentada, posso apresentar-lhe também uma charada para ocupar seu tempo ?"

Notem a habilidade do garoto. Eu havia apresentado um teste para avaliar a inteligência deles, como lhes havia dito, mas o meu neto primogênito, com muita sagacidade, em lugar de dizer que também está testando a minha inteligência, enfeita o teste de inteligência dizendo ser ele um simples passatempo. Tem tudo para ser advogado ou, melhor ainda, diplomata.

"- Que venha o teu teste de inteligência" disse eu, dando o nome correto aos bois.

"- Pois lá vai. Pense que você é um pesquisador, que descobriu que em certa selva existe uma tribo cujos componentes só falam a verdade. Você viaja para aquela selva a fim de entrevistar alguns de seus membros. Mas você é avisado de que, perto daquela, há uma outra tribo cujos componentes só dizem mentira. Eles são incapazes de dizer a verdade em qualquer circunstância."

Devo registrar aqui, por dever de justiça, que fiquei muito impressionado com a fluência verbal do meu primogênito, que até outro dia era um bebê gatinhando pela casa de minha filha. Como essas crianças envelhecem rápido, Deus meu ! Pois ele, já anunciando um futuro orador de júri, prossegue em sua exposição.

"- Quando você chega a certo ponto da selva, sempre caminhando, nota que a estrada se divide em duas : um ramo segue para a esquerda e outro segue para a direita."

Nós dizemos que a estrada se bifurcou, esclareci, professoral.

"- Que seja. Você então conclui, acertadamente, que uma daquelas duas novas estradas vai dar na tribo que só fala verdade, enquanto a outra estrada te levará para a tribo que não te interessa. Enquanto você medita sobre o problema, aparece um rapaz, vindo pela estrada da esquerda. Então você pergunta a ele : você vem vindo de qual das duas tribos?"

Alto lá. Digamos que o recém-chegado dissesse que pertence à tribo que fala só a verdade. Se ele, de fato, está dizendo a verdade, ele pertence à tribo que só fala a verdade, mas, se ele estiver dizendo uma mentira, ele pertence à outra tribo. Ou seja, a resposta dele não me servirá para nada, antecipei.

"- Grande, vozão. Aí é que vem o problema que o senhor deve resolver. Ele diz, de fato, que pertence à tribo que só fala a verdade. Eis a questão : você deve fazer a ele outra pergunta, cuja resposta lhe dirá se ele está falando a verdade ou mentindo. Que pergunta você faria a ele ?"

Ora, ora, ora. Criamos filhos, mimamos netos para sermos, a esta altura da vida, encostados na parede com uma charada dessas ? Fui à varanda saborear o meu cachimbo, pedindo às estrelas que me inspirassem, para que eu não passasse vergonha diante daqueles fedelhos. Lá dentro, certamente felizes com a esnucada que me haviam dado, eles discutiam a solução do problema que eu lhes havia proposto.

1O livro Descontos para Meus Netos, em preparação.

 

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

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