Quarta-feira, 19 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

A(na)lfabetização

"Pesquisa Datafolha realizada em dez cidades mostra que maioria dos brasileiros prefere assistir aos filmes dublados"

Folha de S.Paulo
edição de 29.8.2008

A notícia acima é bastante sintomática. Que explicação você dá a ela ?

Eu, de mim, como diz o amigo Ranulfo, informo que, há muitos anos atrás, quando eu ainda tinha paciência para lecionar, costumava entregar aos alunos de Direito, no primeiro dia de aula, uma folha que dizia mais ou menos o seguinte :

" - Leia com atenção a presente folha e depois faça o que está determinado

a) Qual o seu nome ? _____________________
b) A que turma da Faculdade você pertence ?_____
c) Se você for canhoto, levante a mão esquerda.
d) Se você for destro, levante a mão direita.
e) Se você não for paulista fique de pé.
f) Se você for corinthiano, dê um giro sem sair do lugar.
g) Se você for do sexo feminino dê um gritinho.

Agora que você já leu tudo, atenda apenas ao contido nas letras a) e b), não levando em consideração o contido nas demais letras."

É fácil imaginar a cara dos apressados que, antes de ler todo o conteúdo da página, como lhes havia sido determinado, tinham ficado de pé ou dado rodopio ou gritinhos.

Desnecessário esclarecer que a finalidade da proposta não era a de humilhar os alunos, mas, sim, mostrar a eles a diferença que há entre ler e assimilar o que se lê. Ler procurando entender o que se lê. A maioria das pessoas que se considera alfabetizada não aprendeu a desenvolver o senso crítico. Passam os olhos em um texto e depois não conseguem resumir aquilo que leram. Estão efetivamente alfabetizados ? Isso é culpa deles ?

As escolas, de modo geral, transmitem aos alunos a idéia de que as matérias a serem por eles aprendidas são um castigo a que foram eles condenados sem que saibam o motivo. "Fazer conta ? Pra quê, se já tem calculadora ?" Usar o verbo haver, nem pensar. "Aprender gramática ? Pra que se a gente já sabemos se comunicar ?" O pronome nós é menos pronunciado do que muita palavra de baixo calão. Se é que hoje ainda existem as outrora chamadas palavras de baixo calão.

Certo juiz enviara o motorista do fórum para buscar o filho que sairia da escola dali a pouco e o serviço excessivo do magistrado não permitiria ao pai cumprir pessoalmente o seu dever. Trazido o garoto ao fórum, o pai lhe pergunta como se saiu na prova de português. "Acho que se fudi" foi o que o pai e seus colegas ouviram. Não cito nomes porque parece que o garoto agora também é magistrado.

Vi e ainda vejo, por força da profissão, advogados incapazes de desenvolver uma argumentação lógica e razoável. Ora, a atividade dos profissionais da advocacia é eminentemente lógica. Ela trabalha com o silogismo. E tocava explicar a meus alunos o que é isso.

O silogismo, dizia-lhes eu, utiliza dois conceitos : um geral e um particular. Ou, dito de outra forma, um genérico e um específico. A primeira idéia é genérica : por exemplo, "nosso país tem um Código de Defesa do Consumidor". A segunda idéia é específica : "eu sou consumidor". Daí surge a conclusão : "o Código do Consumidor se aplica às compras que eu faço".

Tecnicamente, dizemos que o silogismo compreende três afirmações : a premissa maior (a afirmação genérica), a premissa menor (a afirmação específica) e a conclusão lógica. O profissional do Direito, principalmente mas não só ele, deve prestar muita atenção nisso, para não ser vítima (ou cometer) um sofisma, que é um falso silogismo. E punha no quadro negro estas afirmações :

"a) Todos os gatos têm bigode (premissa maior);
b) Janjão tem bigode (premissa menor);
c) Logo, Janjão é... ?"

E escrevia, depois de uma estratégica pausa : "Janjão é meu tio (conclusão lógica)."

A essa altura, diante do murmúrio dos alunos, eu desafiava a classe a descobrir o que saíra errado, transformando-se um silogismo num sofisma. Discutem de cá, discutem de lá e vinha a explicação : a premissa maior não disse que "todos os gatos e só os gatos têm bigode". Logo, ficou aberta a possibilidade de que os cães, as focas e meu tio fossem incluídos na premissa menor.

Por que faço essas considerações prévias ? Explico.

Os meios de comunicação, em especial jornal e TV, utilizam, no geral, um caçanje. Que é isso ? Era a designação do português falado pelos escravos trazidos para o Brasil. Posteriormente, a palavra passou a aplicar-se para designar o português mal falado. Por exemplo, em bom português, a frase que aparece acima do texto deveria dizer "a maioria prefere", mas, imitando o modo sintético de escrever dos jornalistas norte-americanos, seus colegas brasileiros atropelam a língua, eliminando, no caso, o necessário artigo.

Vem aí a tal reforma ortográfica. Onde as pessoas vão reaprender a escrever ? Se muitas delas não lêem (usemos o chapéu até 31 de dezembro) livros, nem revistas, nem jornais, o letreiro dos filmes é uma fonte de aprendizado quase obrigatória. Pois, ao mesmo tempo em que se oficializa a tal reforma, depois de quase 20 anos de ter sido ela decidida pelos países lusófonos, cogita-se de dublar os filmes estrangeiros. Qual o benefício disso para a população ?

Nos programas de rádio e de televisão, nos quais em geral não há um trabalho de revisão, ouvem-se barbaridades, coisa que os gramáticos chamam de solecismos. Logo logo algumas dessas barbaridades passam a ser repetidas por pessoas que não sabem ou não gostam de ler. Ou não têm senso crítico. Narrador de futebol dizendo que o jogador estava "com-ple-ta-men-te impedido" ouve-se a todo instante, como se algum jogador pudesse vir a estar "par-ci-al-men-te impedido". Se essas pessoas não têm o hábito de ler, aprender o certo como ? Ouvindo filme dublado ?

Pois, por incrível que pareça, há exceções. Além de inúmeros programas que se dispõem a ensinar a Língua Portuguesa, um dos quais apresentado pelo músico e escritor Tony Bellotto, que o faz numa linguagem nada sofisticada, descobri um humorista que simplesmente dá uma aula de Português em um show comum, abordando, para fazer o público rir, nada menos do que o Pleonasmo (clique aqui).

Inúmeras tautologias apontadas por ele são cometidas, um pouco mais, um pouco menos, por todos nós diariamente. Aquele show é, quando menos, uma ótima ocasião para um mea culpa de muitos de nós.

Aliás, eu mesmo, propositadamente, coloquei um evidente pleonasmo no texto que se acaba de ler, apenas para permitir um comentário jocoso de algum leitor mais atento com um colega de leitura, do tipo : "Viu só ? Façam o que eu digo mas não façam o que eu faço".

Será você esse leitor ?

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A B C D E F G H I J L M N O P Q R S T U V X Z

* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.