Sexta-feira, 20 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Domingo no Parque

Chegamos ao parque e o rapaz que nos havia trazido deixou claro, se não me engano, que nos viria buscar dentro de umas duas horas e nos recolheria exatamente naquele lugar. Frisou bem essa informação, apontando com o dedo indicador da mão direita, fechada quanto ao mais, o chão em que nos havia deixado, como se imitasse um pica-pau. "Fui claro? Neste local." Toc, toc, toc. Eu instintivamente imitei o movimento da mão dele, improvisando outro pica-pau. "Podem passear à vontade por todo o parque, consultando os homens de roupa azul e aparelho de rádio na mão se tiverem alguma dificuldade. Fui claro? Vocês têm pendurado no pescoço uma ficha com o nome de vocês e serão encontrados pelos mesmos funcionários, se for o caso. Não se preocupem com isso e aproveitem o passeio", arrematou ele, antes de voltar para o ônibus azul que nos havia trazido.

Quando passeava pelo parque, dei com aquela figura estranha ali plantada. Sua perna esquerda estava avançada, em relação ao restante do corpo, dobrada agudamente no joelho, de tal forma que, se ali fosse posto um fio de prumo, este tocaria o solo uns cinco ou seis centímetros mais adiante do que o local onde se imobilizara a ponta do pé da tal figura. Aliás, a planta do pé esquerdo não estava totalmente em contato com o solo. Calculo que apenas um terço da sola do pé apoiava-se no chão. O extremo oposto do tal pé estava ligeiramente elevado, calculando eu que aquilo que seria o calcanhar precisaria descer pelo menos uns três centímetros para tocar o solo. A parte do corpo que poderíamos chamar de tronco estava ligeiramente dobrada para a frente, como se estivesse participando de uma corrida. Sem saber como explicar aquilo, imaginei que o tal corredor fora surpreendido por um raio vindo das nuvens, arremessado por Júpiter. Um raio de gelo, certamente, pois, ao invés de dizimar o tal corredor, reduzindo-o a cinzas, congelou-o naquele momento da corrida em que estaria até então envolvido. O que seria seu braço esquerdo estava estendido para a frente, formando um ângulo de uns 45 graus em relação ao solo. Aquilo que seria a mão esquerda estava espalmada, com distância variável entre um dedo e outro.

Dando a volta no corredor imóvel, no chamado sentido anti-horário, passando, portanto, pela sua traseira, notei que aquilo que seria a perna direita não estava dobrada como a outra, mas, ao contrário, estava estendida para trás. Não formava uma reta, pois o local correspondente ao joelho estava levemente dobrado, coisa mínima, formando um ângulo aberto, que estimei em uns 170 graus. Ela não tocava o solo em nenhum momento, sugerindo que a tendência, ao contrário, era a sua extremidade subir cada vez mais, à medida que aquele ângulo se agudizasse. Se o raio de gelo enviado por Zeus não tivesse imobilizado o tal corredor, à maneira daquela família que foi surpreendida em plena mesa de refeição quando as cinzas do Etna cobriram a cidade de Pompéia, onde chegaria o tal corredor?

Caminhei mais um pouco, sempre no sentido anti-horário, e agora já podia ver o rosto do corredor congelado. Uns olhos agudos, fixados em algum alvo distante, talvez a fita de chegada, já próxima. A boca estava fechada e os cabelos voltados para trás, como se levantados pelo movimento do corpo para a frente, que os houvesse tirado da inércia.

Só então reparei que não me havia ainda fixado naquilo que seria o braço direito do nosso corredor. Lá estava ele, completamente esticado para trás, sem a menor dobra à altura do cotovelo, terminando com o punho fechado. Puséssemos um aparelho para checar o nivelamento daquele braço e talvez ele mostrasse que o punho fechado estava uns dez ou quinze centímetros acima do nível em que se encontrava o ombro. E só depois de reparar muito vim a notar que o braço não terminava no punho, como seria natural. Além do punho havia uma estranha bola do tamanho aproximado de uma bola de futebol, porém sem ter qualquer ranhura. Era lisa como uma bola de bilhar. Que faria aquela bola colocada ali logo em seguida ao braço esticado do corredor, unida ao punho dele? Seria aquilo algum castigo, semelhante às bolas que se prendiam aos pés dos condenados?

Dei mais uma volta, procurando descobrir outros pormenores que não me havia sido possível captar na primeira vez que examinara a estranha figura. Notei, então, que o pé esquerdo, sobre o qual se apoiava todo o corpo, estava apoiado em uma superfície plana, quase lisa, que mediria não mais de 1,80m por 1,00m, sendo que o comprimento correspondia ao sentido da corrida do tal personagem. Essa base, de não mais de cinco centímetros de altura, estava apoiada em uma base irregular, que parecia um pequeno monte de neve, consolidada pelo mesmo raio que teria congelado o nosso atleta.

Intrigante aquela estátua de gelo! Se é que era de gelo. Digo isso porque, a certa altura, levado pela curiosidade, tirei a luva da mão direita e espalmei a mão sobre a enorme bola de bilhar ligada ao braço direito da estátua. Senti uma espécie de choque, tal a friagem que dali escapava, o que me fez recolocar a luva, depois de agitar a mão, para espantar aquele desconforto térmico. Uso essa luva por recomendação médica, pois o tratamento a que me submeto produz parestesia e, com ela, a alteração da minha sensibilidade digital, para repetir o que me disse o médico da clínica.

Para melhor vislumbrar a estátua, fui-me afastando dela, parando de tempos em tempos e voltando a olhá-la, cada vez mais intrigado. Minha curiosidade era tamanha que cheguei a andar uns bons metros sem tirar os olhos do corredor congelado, caminhando de costas, o que provocava, com toda procedência, olhares de surpresa e risos de desconfiança das pessoas que também circulavam pelo mesmo parque, talvez trazidas por rapazes de branco como aquele que me havia trazido no ônibus que, segundo me parecia, já estava prestes a voltar para nos apanhar.

Não me foi difícil chegar ao tal lugar que o rapaz havia assinalado com seu bico de pica-pau improvisado. Havia ali uma árvore muito antiga, cujo volume se destacava das demais. Não sou bom observador e nos últimos tempos não tenho tido memória para lembrar nem mesmo o que almocei ontem, se é que almocei. Mas alguma coisa me fez associar aquela velha árvore ao local a mim reservado. Talvez a psicóloga da clínica me explique isso na próxima sessão, que será amanhã, se não me engano. Ou depois de amanhã, não sei bem, até porque não sei se hoje é sábado, domingo ou feriado.

Na estradinha que passa pelo parque agora aparece um veículo que, ao longe, parece um ônibus. Quando ele se aproxima, confirmo que, de fato, é um ônibus. Aquela cor azul dele me parece familiar. Acho que o conheço de algum lugar.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

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